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Artigo

O sapatinho de cristal (voador), artigo de Ana Echevenguá e Renata Kowalski

“Eu presto atenção no que eles dizem Mas eles não dizem nada (…) A história se repete Mas a força deixa a estória mal contada…” Engenheiros do Hawaii – Toda Forma de Poder (Humberto Gessinger)

[EcoDebate] Eu sempre desconfiei que aquela historinha da Cinderela tava mal contada. Tudo tão estranho! Agora, depois de séculos de engodo, a verdade escondida aparece: aquele sapatinho não caiu do pé da mocinha, eheheh…

Tudo começou errado. Ela não foi convidada pro baile; a madrasta não quis levá-la; não tinha tempo, não tinha roupas… Aí, ela começou a chorar, quietinha, no canto do fogão. A fada madrinha apareceu, tentou consolá-la: – querida, deixa de bobagem; aquilo lá é uma armação; o príncipe costuma fazer essas festinhas pra comer todas as meninas virgens do lugar. Faz isso enquanto as vigilantes mães, cujo único sonho de consumo é transformarem suas filhas em princesas, se empanturram com o banquete real oferecido no baile.

Cinderela não acreditou. Não, a fada madrinha estava equivocada. Coitada, não estava acostumada com essas coisas da modernidade, com a vida por trás dos muros do castelo, com o ritual para eleger a princesa. E aumentou o choro.

– Ta bom, ta bom… eu te ajudo a ir ao baile. Mas vamos fazer uma aposta: se eu estiver certa e o príncipe quiser te comer, tu vais desistir dessa idéia boba de virar princesa e vais para a Escola Medieval de Filosofia e Astronomia, como sempre sonhei. Se eu estiver errada, vais ser a nova princesa. Paciência!

E pititi-pititi, patati-patatá… em dois toques de mágica, vestiu e enfeitou a menina agora sorridente! Chamou um táxi e lá estava Cinderela no salão principal do palácio.

Os brilhos e o farfalhar do seu vestido chamaram a atenção de todos. Até do príncipe que, de imediato, convidou-a para dançar. Ele parecia maravilhoso, o verdadeiro príncipe encantado dos contos de fada. O cavalheiro sorridente, que sabia dizer “por favor”, “obrigado”… Mas os ventos mudaram:

– Está muito quente aqui; que calor! Vamos parar um pouco. Quero te mostrar o meu palácio e os aposentos reais.

Cinderela não queria parar de dançar; puxa, esperara tanto por estes momentos. E o príncipe dançava tão bem; aliás, ele era tão encantador, envolvente, e homens educados e gentis não aparecem todo o dia.

Mas o príncipe insistiu, começou a puxá-la pelo braço e, no corredor real, colocou as mãos sob o vestido farfalhante.

– Pára, vais amassar meu vestido. Que droga, majestade!

– Ai, céus, por que toda p…  que entra aqui quer parecer Joana d’Arc ou Madre Tereza? Já falei pra papai que essas festas não são mais como antigamente. É mais barato e mais simples f…  com a criadagem…

Cinderela não conseguia acreditar: o seu príncipe não era tão encantador como diziam os jornais. Somente com um joelhaço no lugar certo, conseguiu escapar.

– Vaca, pode correr. Não vou perder tempo em persegui-la. Há muita mulher esperando por mim lá dentro. Lindas, loucas pra dar… e com roupas de grife; aonde você achou essas roupas? E esse sapato??? Horroroso!

A raiva falou mais alto. As suas roupas? O seu sapato??? Cinderela parou, olhou pra trás, tirou seu belo e delicado sapatinho de cristal e o jogou, com toda força, na direção do desencantado. No alvo!

E fugiu… na rua, respirou fundo tentando acordar daquele pesadelo…. A madrinha estava coberta de razão: perdera a aposta.

Ana Echevenguá e Renata Kowalski – fundadoras do Movimento Feminíssimo God Saves the Flying Shoes

[EcoDebate, 30/12/2008]

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