Especial: 20 anos da morte de Chico Mendes

Chico Mendes. Foto da Wikipédia
Chico Mendes. Foto da Wikipédia

Idéias de Chico Mendes ainda influenciam políticas de desenvolvimento sustentável. Consolidação de reservas extrativistas é resultado da luta contra desmatamento. Parentes e amigos lamentam que líder acreano não tenha visto conquistas

Em 22 de dezembro de 1988, um tiro de espingarda matou Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes, que de líder sindical e seringueiro transformou-se em ícone da preservação da Amazônia. Vinte anos depois da morte, suas idéias ainda influenciam as políticas públicas para o desenvolvimento sustentável.

Precursor do ambientalismo brasileiro, Chico Mendes nasceu e viveu nos seringais de Xapuri, no Acre. “Ele sempre foi um menino pacífico, de natureza boa. Era sabido na leitura, muito inteligente. Tudo para ele era na calma”, lembra a tia, Cecília Mendes.

Conhecedor da floresta, Chico Mendes defendia o direito à exploração dos recursos naturais, mas sem o esgotamento. A preocupação com a sustentabilidade é uma das lembranças do primo e companheiro de resistência, Sebastião Teixeira Mendes. “Ele dizia: ‘Tião, é o seguinte: eu botei na minha cabeça que a gente tem que preservar’, aí saiu pelo mundo com essa história de preservar. Mas sempre voltava, não esquecia daqui”.

A luta contra a transformação da floresta em pasto para criação de gado, intensificada a partir do fim da década de 1970, deu visibilidade à luta dos seringueiros do Acre, que ganharam os jornais nacionais e internacionais com os chamados empates, ocasiões em que grupos de trabalhadores formavam barreiras humanas para impedir o trabalho das motosserras.

Cunhada do ambientalista, Deusamar Mendes lembra que os empates reuniam homens, mulheres e até crianças contra o desmatamento. “Quando se sabia que ia ter uma derrubada, um vizinho avisava o outro, marcava um lugar para todos se encontrarem. Ia todo mundo e chegava-se no local da derrubada, improvisava barracas de lona e avisava que eles teriam que parar a derrubada e sair pacificamente. Sabíamos que eram trabalhadores, mas dizíamos que aquilo não era um meio de sobrevivência; iam atrapalhar a vida de muitos outros”, relata.

À frente dos trabalhadores da floresta, Chico Mendes assumiu a secretaria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Brasiléia e em seguida fundou o STR em Xapuri. Dirigiu a Central Única dos Trabalhadores no Acre, foi vereador pelo MDB e participou da fundação do PT no estado, junto de nomes como a senadora Marina Silva e o atual governador do Acre Binho Marques.

“As questões ambientais passaram a ser debatidas dentro do movimento sindical a partir do envolvimento e da atuação direta do Chico”, disse o vice-presidente do Conselho Nacional dos Serigueiros, Júlio Barbosa. Em 1987, foi o primeiro brasileiro a receber o prêmio Global 500, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Com os empates e a repercussão internacional da luta dos povos da floresta pela preservação da Amazônia, Chico Mendes passou a conviver com as ameças de políticos e fazendeiros da região, tanto que chegou a enviar para autoridades locais uma relação de nomes de possíveis algozes. Os nomes de Darly Alves e do filho Darci, condenados pelo assassinato, estavam na lista.

“Pistoleiros sempre ameaçavam: telefonavam, deixavam recados embaixo da porta. Um desses dizia assim: ‘o seu fim está próximo, você vai ter um belo Natal’. Foi uma morte anunciada, que o Chico avisou ao mundo inteiro”, lembra Deusamar.

O fazendeiro Darly Alves e o filho Darcy foram apontados como mandante e autor, respectivamente, da morte de Chico Mendes. Em 1990, os dois foram condenados a 19 anos de prisão pela morte do seringueiro. Fugiram da prisão em Rio Branco, em fevereiro de 1993, e só foram recapturados três anos depois. Em setembro deste ano, a Justiça concedeu o direito de prisão domiciliar para Darly, que hoje tem 71 anos.

Consolidação de reservas extrativistas é resultado da luta contra desmatamento

Vinte anos depois do assassinato de Chico Mendes, a consolidação das reservas extrativistas, que aliam preservação e desenvolvimento de populações tradicionais, é úm dos resultados do trabalho do líder seringueiro, reconhecido com uma das primeiras vozes contra o desmatamento da Amazônia. A avaliação é do presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rômulo Mello.

“Ampliamos o sonho, o que era uma idéia do Chico virou realidade. Avançamos também no modelo: o que Chico Mendes plantou nos seringais já chegou ao mar, por exemplo: temos reservas extrativistas no mar.”

Segundo Mello, a criação de um conjunto de unidades de conservação de uso sustentável – Resex, Reservas de Desenvolvimento Sustentável e Florestas Nacionais – permite a exploração dos recursos naturais pelas populações que vivem no interior dessas áreas. Mais de 46 mil famílias vivem nessas unidades atualmente.

Mello reconhece, no entanto, que a consolidação das Resex ainda precisa avançar e compara os desafios aos chamados empates, promovidos pelos seringueiros para impedir a derrubada da floresta. “A mesma luta que o Chico começou lá atrás, nós ainda temos que enfrentar. Não é razoável encontrar boi em reservas extrativistas”, afirmou, em referência a focos de desmatamento e de atividade pecuária no interior de reservas.

O principal instrumento para garantir a sobrevivência digna dos trabalhadores com a preservação da floresta – sonho de Chico Mendes – segundo Mello, é a valorização da floresta em pé, para que a preservação tenha mais valor econômico do que o desmatamento.

O presidente do ICMBio apontou, entre as medidas mais imediatas, a definição de preços mínimos para os produtos extrativistas, para que itens como o látex da seringueira, castanhas e óleos ganhem competitividade e desestimulem a criação de gado, que pressiona o desmatamento da floresta. “Precisamos criar mecanismos de consolidação para remuneração de serviços ambientais. Isso fará uma diferença significativa para que a pessoa deixe de chamar de mata – de forma pejorativa – e entenda como floresta.”

Parentes e amigos lamentam que líder acreano não tenha visto conquistas

“No começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica, agora percebo que estou lutando pela humanidade”. A frase do seringueiro, líder sindical e ambientalista Chico Mendes ecoou pela floresta e chamou a atenção do mundo para a resistência de trabalhadores contra a transformação da Amazônia em fazendas.

Vinte anos depois da morte de Chico Mendes, assassinado com um tiro de espingarda, a família, os amigos e companheiros de resistência lamentam que o seringueiro não tenha vivido para ver de perto as conquistas pelas quais lutou.

“A luta não foi em vão. A nossa pena é o Chico não estar aqui entre nós, vendo que as coisas estão como ele queria. Hoje, o seringueiro zela pelo seu lugar, cuida da floresta para os filhos e netos”, conta o primo e também serigueiro Sebastião Teixeira Mendes. “O que ele deixou para mim foi aquela mente de aconselhar as pessoas, de saber respeitar a natureza”, acrescenta.

Amigo de Chico Mendes, o líder da Reserva Extrativista Cazumba Iracema, Raimundo Silva, aponta a criação das reservas extrativistas (Resex) como um dos principais legados da luta docompanheiro. As Resex são unidades de conservação que permitem o uso sustentável dos recursos naturais pelas populações que vivem no interior dessas áreas.

“Ele ficou famoso depois que faleceu, mas deixou uma coisa muito importante que foi o incentivo. Hoje, eu defendo muito a reserva extrativista, porque vejo que a forma que nós temos de segurança, para nossa saúde, é a reserva. Se passa de carro ou de avião por onde não é reserva, você já percebe o tamanho do desmatamento, não tem mais quase floresta”, compara.

Além da luta da floresta, Chico Mendes também é lembrado pela defesa da integração entre os povos da floresta – índios, ribeirinhos, extrativistas – e pela educação. Depois de aprender a ler e a escrever com amigos, Chico Mendes passou a alfabetizar os companheiros do seringal.

“Era assim, quem sabia um pouco ensinava para os outros. Depois do nosso movimento, foi que começamos a criar umas escolas no interior. Nós fomos ter o direito de ter uma escola, posto de saúde. Hoje, temos escolas até o segundo grau”, comemora Sebastião Mendes.

A viúva do seringueiro, Ilzamar Mendes, acredita que em 20 anos a luta ganhou reconhecimento nacional, o que garantiu conquistas para os trabalhadores da floresta.

“Falta muita coisa, mas não somos mais sozinhos. Agora, temos autoridades que nos apóiam, pessoas que nos ajudam a defender a causa do ambientalismo”, avalia.

O seringueiro Neto, da Associação dos Produtores do Seringal Equador, vai além e compara a vida e a luta de Chico Mendes à trajetória de um mártir, em nome da Amazônia.

“Tem muita gente que quase não acredita mas, na minha visão, eu que trabalhei com ele, o Chico Mendes fez papel de Jesus Cristo: morreu para dar vida a muita gente”.

Matéria de Beth Begonha e Luana Lourenço, Repórteres da EBC, com a colaboração de Mara Régia, da Rádio Nacional da Amazônia, publicadas no EcoDebate, 23/12/2008.

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