Moradores do lote onde morreu irmã Dorothy confirmam proposta de fazendeiro para usar terra

A professora Francisca Silva dos Santos, que dá aula para alunos de primeira à quarta série no Lote 55 do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, criado pela missionária americana Dorothy Stang Foto: Antônio Cruz/ABr
A professora Francisca Silva dos Santos, que dá aula para alunos de primeira à quarta série no Lote 55 do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, criado pela missionária americana Dorothy Stang Foto: Antônio Cruz/ABr

Anapu (PA) – Relatos de moradores do lote 55, na zona rural do município de Anapu (PA), onde foi assassinada a missionária americana Dorothy Stang em 2005, comprovam que o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão tentou fazer um acordo com os agricultores para usar a terra. A área, de 3 mil hectares, pertence à União e está subjudice desde a morte da religiosa.

De acordo com relato dos agricultores à reportagem da Agência Brasil, Regivaldo, conhecido como Taradão, organizou uma reunião em que teria mostrado documentos que comprovariam a posse da área onde existe o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, idealizado por Dorothy.

“Ele [Regivaldo] mandou um rapaz falar com a gente para dizer que queria fazer um acordo dizendo que a terra era dele”, afirmou a professora Francisca Silva dos Santos, que mora no lote 55.

“Moramos aqui, mas não sabemos quem é o dono. Qualquer um que chega dizendo que é dono e diz ter documentos nós desconfiamos. O Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] nunca deu a terra para gente”, acrescentou.

Conforme os moradores ouvidos pela reportagem da Agência Brasil, Regivaldo propôs “ceder” dez alqueires para cada um dos agricultores que já está na terra em troca da área de pasto e um pouco da reserva da floresta.

Segundo a professora, onze moradores tiveram o transporte pago por Regivaldo para ir à sede do Incra em Altamira. Antes porém, houve um encontro dos agricultores com o fazendeiro, que é um dos acusados de ser o responsável pelo assassinato da missionária.

“Antes da reunião com o Incra, tivemos um encontro só com ele e ele passou a proposta para gente, dizendo que era dono da terra e mostrou um monte de documentos. Mas hoje a gente não acredita em nada, se é verdadeiro ou falso”, contou Francisca.

Outro morador, Raimundo Souza, conhecido como Paraupebas, confirma a versão da professora. “Quando eu vi o homem me espantei”, disse o agricultor. “Ele prometeu os dez alqueires, construir posto de saúde e melhorar as vicinais – como são chamadas as estradas na região”, completou Paraupebas.

De acordo com professora, Regivaldo não ameaçou os agricultores, mas disse que se os camponeses não aceitassem a proposta a Justiça ira tirá-los do local sem direito a nada.

“Ele disse que se ganhar na Justiça, a própria Justiça vai botar todo mundo pra fora”, relatou. As declarações de Francisca da Silva dos Santos foram confirmadas por outros moradores da região, que preferiram não se identificar.

“Ele [Regivaldo] disse que não quer mexer com Justiça, porque se ele for ‘mexer’, ele vai ganhar a terra e a gente não vai ter direito a nada”, acrescentou Francisca lembrando que uma semana depois houve uma audiência pública para tratar do assunto, à qual o fazendeiro não compareceu.

Depois da reunião realizada ainda no lote 55, os agricultores e Regivaldo foram ao Incra, em Altamira. Do segundo encontro, realizado no dia 28 de outubro, foi elaborada uma ata em que Taradão teria proposto um acordo em que aceitava “conceder” 2,5 mil hectares do lote 55 aos camponeses em troca de 500 hectares de pasto da mesma área.

Ontem (18), a reportagem tentou contato com o fazendeiro em Altamira, mas foi informada que ele estava para sua fazenda e que não haveria possibilidade de comunicação.

Líder considera positiva retomada discussões sobre posse da área onde morreu Dorothy

A retomada das discussões sobre a posse do lote 55, na zona rural no município de Anapu (PA), onde foi assassinada a missionária Dorothy Stang, trouxe intranqüilidade às famílias que moram na região. A afirmação é do membro do Conselho Tutelar de Anapu e ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, Gabriel Domingos Nascimento.

Segundo ele, a volta do fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão à área causou “tensão” entre os agricultores. Regivaldo, conhecido como Taradão, é um dos acusados de ser mandante do assassinato da religiosa. Ele chegou a ser preso por isso, mas não foi a julgamento.

“A mudança é muito grande. Hoje eles estão lá naquela vida de medo. O retorno do Taradão e dos grileiros por lá aumenta muito a tensão. Não só no lote 55, como em todo Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança e no Virola Jatobá”, afirmou Nascimento.

Para ele, o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) precisa assumir “sua responsabilidade” e conceder os títulos definitivos aos agricultores. “O Incra ainda não fez o que precisa ser feito. Porque enquanto não decidir se a terra é dos agricultores ou dos fazendeiros a tensão vai continuar”, argumentou.

Nascimento considera que a Justiça também tem uma parcela de responsabilidade pelos conflitos que ocorrem na região. “Dizem que existe um consórcio [para matar] mas até agora a Justiça não conseguiu comprovar. Já perdemos companheiros e uma grande companheira [a missionária Dorothy Stang], que foi uma das pessoas que contribuiu muito para aquelas pessoas estarem lá, e a Justiça ainda não solucionou o caso”.

Matéria de Ivan Richard, da Agência Brasil, publicada no EcoDebate, 20/11/2008.

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