Tecnologia ajuda a monitorar as espécies ameaçadas de extinção no Pará

Programas de computador ampliam o poder de previsão dos cientistas quanto aos fenômenos relativos à distribuição da biodiversidade amazônica. O tempo gasto hoje nas pesquisas com a geração de mapas de distribuição potencial de plantas e animais ameaçados poupará, no futuro, o acúmulo de perdas econômicas e ecológicas para a Região Amazônica.

Na Amazônia paraense, ecólogos e sistematas aplicam técnicas de modelagem ambiental para identificar e mapear a ocorrência dos nichos ecológicos de espécies ameaçadas. Os mapas produzidos com auxílio de softwares avançados resultam de uma das etapas do Projeto “Espécies Ameaçadas e Áreas Críticas para a Biodiversidade no Estado do Pará”, parceria entre o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e a Conservação Internacional (CI), que dá continuidade ao Biota Pará – programa de inventariamento e mapeamento da fauna e flora paraense. Os resultados obtidos vão auxiliar a elaboração de políticas públicas de conservação ambiental, como o Programa Extinção Zero, lançado pelo Governo do Pará no início de 2008.

Uma das etapas do projeto “Espécies Ameaçadas e Áreas Críticas” visa gerar modelos de distribuição potencial de 32 espécies amazônicas ameaçadas de extinção. Nesta lista figuram plantas de alto valor econômico como o Mogno (Swietenia macrophilla), e animais como a Arara-Azul (Anodorinchus hiacinthinus) e o cuxiú-preto (Chiropotes satanas), primata classificado como criticamente em perigo. A definição das áreas críticas para a biodiversidade será feita a partir dos registros pontuais de ocorrência de cada espécie, sem passar pela modelagem, através de uma metodologia própria.

O pesquisador Jorge Martins (bolsista da Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia – CCTE/MPEG) apresentou recentemente, durante os Seminários Interdisciplinares do Museu Goeldi, os dados utilizados para modelar a ocorrência e a distribuição das espécies estudadas. Utilizando bases ambientais e climáticas integradas a pontos de registros das espécies, coletados por diferentes projetos, foi possível gerar um conjunto de mapas bastante relevante para o estudo e proteção futura destas espécies. Martins explicou que não basta ter só um grande número de informações. Muitas vezes os melhores resultados são obtidos pela melhor combinação de dados.

Para modelar a distribuição de uma determinada espécie de planta ou animal, os pesquisadores utilizam dados diversos sobre a Região Amazônica, como: centros de endemismo, solos (tipologia, compactação, susceptibilidade ao encharcamento, drenagem, textura, fertilidade), posição das bacias hidrográficas, altitude, tipologia vegetal (fitofisionomia), amplitude térmica anual, precipitação pluviométrica e sazonalidade climática. Estes dados são integrados através de um algoritmo aos pontos de registros das espécies que devem estar em latitude e longitude.

Teresa Cristina Ávila Pires , zoóloga do MPEG e coordenadora do projeto “Espécies ameaçadas e áreas críticas para a biodiversidade no Estado do Pará”, ressalta que a modelagem aparece nesse projeto como uma das principais ferramentas, pois através dela será possível visualizar as áreas mais prováveis de ocorrência de parte das espécies ameaçadas, mesmo em locais onde não há registro da espécie por falta de estudos. “A importância da modelagem reside em identificar as áreas onde as pesquisas deverão ser inicialmente focalizadas, visando à proteção dessas espécies”, explica Ávila Pires. Contudo, também é importante esclarecer que a modelagem ajuda, mas definitivamente não prescinde de muito estudo de campo. “Proteger uma espécie com base em sua distribuição potencial, que não é, necessariamente, a distribuição real, significa correr o risco de proteger um fantasma, ou seja, onde a espécie não existe”, esclarece Teresa Cristina.

Processo de modelagem – No momento de escolha das espécies para modelagem, os pesquisadores levaram em consideração o grau de ameaça que a espécie está exposta e a disponibilidade de dados seguros e adequados a respeito de cada uma delas – em quantidade e qualidade compatível para se empreender modelagens. A definição em que as coordenadas foram coletadas é importante, sendo desejável que a resolução destes dados seja a mais precisa possível. Os dados devem ser convertidos para uma mesma unidade de georreferenciamento, observando a data de obtenção dos mesmos – dados mais antigos podem indicar a ocorrência da espécie em áreas que atualmente já estão degradadas.

Fundamental também para o bom resultado de uma modelagem é a confiabilidade da fonte que disponibilizou a informação. Por exemplo: é necessário verificar se é um dado obtido em uma coleção científica, ou coletado em campo por pesquisadores experientes, e ainda se existe confiabilidade na identificação da espécie e na forma como foram coletadas as informações sobre a localização do exemplar. Por último, a equipe deve avaliar se existem coordenadas em número suficiente para realizar uma modelagem, sendo recomendável que haja mais de 20 pontos de ocorrência e que a distribuição dos dados de localização contemple toda a amplitude de variação ambiental da área conhecida de ocorrência da espécie da fauna ou flora.

As bases ambientais da região amazônica foram tratadas e organizadas por Ana Albernaz, pesquisadora do MPEG responsável pelo componente de modelagem do projeto. Estas bases representam um agrupamento de dados gerados por diferentes fontes, como EMBRAPA, NASA e ARPA. Informações sobre o clima foram extraídas da base de dados WorldClim (http://www.worldclim.org/).

Na segunda fase do projeto, com ajuda de especialistas de cada grupo zoológico estudado, foram definidos quais conjuntos de bases ambientais e climáticas seriam os mais adequados para a modelagem do grupo em questão. Modelagens desenvolvidas, os especialistas voltaram para avaliar qual modelo era mais representativo para a espécie ou sugerir ajustes na modelagem. Teresa conta que “essa é a etapa mais demorada, onde também as bases de dados ambientais são ajustadas. Além disso, cada espécie é trabalhada individualmente, o que demanda tempo”.

Caso Chiropotes satanas – Popularmente conhecido como cuxiú-preto, o Chiropotes satanas é considerado um dos primatas mais ameaçados de extinção da Amazônia, devido à perda e fragmentação de seu habitat natural, resultante da intensa exploração. O macaco vive em florestas de terra firme não alteradas e de grande porte e se alimenta principalmente de frutos e sementes.

Os pontos mais conhecidos de registro de ocorrência dessa espécie na Amazônia trazem uma idéia muito limitada de onde ela realmente aparece. A forma tradicional de se considerar a área de distribuição de uma espécie é circundar todos seus pontos de registro numa grande área, eventualmente indicando como limite de distribuição algum elemento natural, como rios e linhas de altitude em regiões montanhosas. A modelagem ambiental permite definir a provável área de ocorrência da espécie levando em consideração diversas variáveis ambientais.

Assim, espera-se, através de um mapa gerado pela modelagem ambiental (ver figura), definir com maior precisão a área de ocorrência do Chiropotes satanas. No mapa, as áreas amarelas, alaranjadas e vermelhas são consideradas as áreas mais adequadas para a ocorrência do cuxiú-preto e, por conseqüência, representam os locais onde há mais chance dele ser encontrado.

Futuramente será necessário testar as previsões feitas pela modelagem. Se as previsões mostrarem-se confiáveis, o cruzamento das informações geradas pela modelagem com mapas de desmatamento e mapas de áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas) permitirá o desenvolvimento de análises mais refinadas dos riscos aos quais a espécie está exposta, qual o efetivo habitat remanescente, se ela está ou não protegida em unidades de conservação e quais são as prioridades de pesquisa para se aprofundar o conhecimento sobre a espécie.

Texto: Shamara Fragoso e Joice Santos – Comunicação PPBio Amazônia Oriental e Agência Museu Goeldi

[EcoDebate, 18/10/2008]

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