Impactos sociais e ambientais das monoculturas: Ásia (Camboja, Indonésia, Malásia e Tailândia)

Camboja: mulheres indígenas levantam suas vozes para proteger sua floresta e os meios de vida tradicionais, da atividade das companhias de plantação de seringueiras

No Nordeste do Camboja, diferentes grupos indígenas têm vivido durante séculos, preservando um ecossistema de florestas imenso e extremamente diverso, mantido intato até as recentes décadas, quando começou a explotação massiva das florestas. As práticas agrícolas indígenas, como em outras áreas cobertas por florestas no mundo, têm contribuído para manter a biodiversidade e estão entre as mais sustentáveis conhecidas até agora.

A subversão desse sistema ecológico e social está cheia de conseqüências para as comunidades indígenas e as mulheres, como esta mulher Bunong de Mondulkiri explica:

“A companhia tem derrubado todas as árvores para fazer a plantação. Eles dizem que os povos indígenas derrubam a floresta também. Mas os povos indígenas não fazem isso! Perguntamos aos espíritos antes de cortar, tentamos entender nos sonhos se os espíritos estão de acordo, depois cortamos apenas pequenas parcelas para fazer nossos campos e nunca cortamos árvores grandes. No entanto, a companhia corta tudo, e agora não há árvores, animais nem vegetais. Havia seis grandes florestas nos arredores e muitos animais selvagens; podíamos achar vegetais, medicinas, resina, raízes, peixes e frutas.

Agora que a floresta tem sido cortada e os espíritos foram rejeitados, eles já não ajudam à comunidade. É difícil para os anciões que os jovens os respeitem. Antigamente, os espíritos rodeavam a aldeia e os jovens eram mais respeitosos. Os espíritos já não ajudam a comunidade, inclusive se carecemos de alimentos ou em caso de doença.

Temos medo dos trabalhadores da companhia, dos adictos às drogas, das violações, e de que vão espancá-nos. Há dois anos que essas pessoas estão perto; vamos a todos os lados acompanhadas por homens, porque temos medo. Eles não respeitam as mulheres e portanto nós temos medo e receamos que os homens da aldeia possam virar como os trabalhadores, especialmente os jovens.”

As plantações comerciais não apenas subvertem o ambiente ecológico, mas têm duras conseqüências para as comunidades. A imigração massiva de trabalhadores que ocorre normalmente quando as plantações são estabelecidas, causam a explotação excessiva de recursos como animais selvagens e pesca, que viram escassos e menos acessíveis para as comunidades indígenas. Os imigrantes vão desencadear a migração de outros povos não indígenas, como fornecedores de serviços e isso pode facilmente contribuir para mudar o equilíbrio da população nas áreas. Os trabalhadores das plantações são principalmente homens; em decorrência disso, os serviços sexuais começam a pipocar na área, o que contribui para desvalorizar a situação das mulheres em geral e para introduzir um preconceito masculino na vida social.

Nas palavras de uma mulher Tampuan de Ratanakiri, “Aqui já não há mais floresta, somente temos plantações de seringueiras. Agora todos querem vender a terra também; querem plantar castanhas de caju, feijões ou mandioca. Em primeiro lugar venderam a terra em nível de distrito. As pessoas se têm queixado sobre essas vendas de terras, mas não puderam reaver a terra. Então agora os aldeões os seguem e querem vender sua terra também. Acham que se não vendem, as companhias ficarão com a terra de qualquer jeito. Os homens querem vender a terra, já não escutam às mulheres, querem dinheiro. Contestam para os anciões: ‘é nosso problema se quisermos viver diferentemente, não é seu problema’ Não escutam para os anciões e vendem suas terras; então, invadem as terras de outras pessoas, surgem disputas, dizem que é um assunto particular e não comunitário e muitos conflitos começam entre as pessoas e entre as mulheres e os homens. Os homens bebem e quando não têm dinheiro, vendem parcelas de terra para pagar as dívidas! Os que vendem suas terras viram pobres e depois disso bêbados. As famílias sem terras bebem muito, estão sempre bêbados.”

É dentro das comunidades que a explotação comercial massiva de terras de florestas tem conseqüências mais dramáticas. Os valores que essa forma de desenvolvimento acarreta são muito destruidores para a estrutura social das comunidades indígenas e os humanos em geral. O dinheiro, individualismo, concorrência e consumismo quebram o pacto de solidariedade que anima as comunidades. Aparecem divisões entre seus membros, anciões e jovens, mulheres e homens. A economia orientada ao mercado têm sesgo masculino e os homens parecem ser mais facilmente atraídos pela sedução do dinheiro e pela economia do dinheiro.

As mulheres pagam um grande tributo a essa subversão de suas sociedades e valores. Sua carga de trabalho aumenta, já que muitos dos recursos que costumavam coletar lá, como lenha, água, vegetais, materiais para artesanato, ferramentas, medicinas, pequenos animais, resina, já não estão à mão. Quando as plantações chegam, os povos indígenas devem levar seus campos longe, o que obriga às mulheres a longas caminhadas somente para chegar ao campo e trabalhar nas granjas de suas famílias. Se os homens são contratados como trabalhadores, as mulheres ficam sozinhas para cuidar das granjas. O trabalho das mulheres nas granjas familiares garante os alimentos diários, mas é invisível e desvalorizado porque não se inscreve no quadro da economia do dinheiro. Mas é esse trabalho o que mantém os salários dos trabalhadores das plantações baixos e rentáveis para as companhias. No contexto masculino que esta forma de neodesenvolvimento colonial está forjando, o trabalho das mulheres indígenas não é reconhecido e é abrumador, enquanto sua situação como mulheres começa a debilitar-se seriamente.

Para as mulheres a floresta é muito mais do que simples subsistência: é também prazer, um bonito lugar para estar, é divertido, uma porta aberta para a imaginação. Como Lun, uma mulher de Ratanakiri diz: “Nós, as mulheres, gostamos muito da floresta porque é fresca e divertida. Gostamos de ir lá, não temos medo e nos divertimos. Costumávamos ir lá e dormir na floresta quando eu era criança com meu pai e meu tio da aldeia próxima. Era uma das coisas gostosas para fazer, pegar pequenos peixes e caranguejos em lagunas, coletar a resina ou achar pequenos bambus. Às vezes podíamos achar algumas folhas especiais e costumávamos ficar à noite para coletar a resina. Mas agora é difícil, porque há uma companhia, não sabemos como aconteceu isso, se a floresta foi vendida ou se eles simplesmente se apossaram dela, colocaram a cerca e um painel para proibir a entrada.”

Quando a floresta é cortada, se perde mais do que produtos tangíveis. A floresta é o refúgio dos espíritos, a fonte de histórias e epopéias, o lugar de desafios e aventuras e o abrigo que espera a todos no final da vida. E também se trata de estrelas, como disse uma menina Kreung de Ratankiri: “Quando há muitas estrelas no céu, algumas delas vêm dormir com as meninas e outras com os meninos. Os anciões me disseram que as estrelas cuidam da floresta. Isso é o que eu sei.”

Por Margherita Maffii, Phnom Penh, setembro de 2008, e-mail mafpol@gmail.com

Indonésia: duras condições para as trabalhadoras nas plantações de dendezeiros

A Indonésia é a segunda maior produtora de azeite de dendê do mundo; junto com a Malásia, são responsáveis de aproximadamente 80 por cento da produção global de azeite de dendê. Com aproximadamente 6 milhões de hectares de terra plantados com dendezeiros, a Indonésia planeja uma importante expansão que prevê cobrir até 20 milhões de hectares para o ano de 2020.

A expansão dos dendezeiros tem implicado e implica a ocupação de terras tradicionais pelas companhias para em primeiro lugar “clarear a área” (ou seja, desmatar) e então desenvolver uma plantação de dendezeiros. A ocupação de terras significa por sua vez o deslocamento de comunidades locais de sua terra, causando assim vários conflitos –aproximadamente 400 no país inteiro, de acordo com a ONG indonésia Sawit Watch.

Para as comunidades rurais, a terra é a base de seus meios de vida. De acordo com o WorldWatch Institute, um “estudo de 2006 da área achou que os pequenos sistemas de produção agropecuária forneciam meios de vida para 260 vezes mais pessoas por hectare de terra que as plantações de dendezeiros” (1).

No entanto, as companhias de dendezeiros chegam protegidas por concessões legais e com promessas falsas de trabalhos para as comunidades locais. Os habitantes rurais que têm sido privados de sua terra e meios de vida são geralmente forçados a migrar, a acabar em favelas urbanas ou a trabalhar nas próprias plantações que os deslocaram. Uma vez lá, devem enfrentar a pobreza, as condições de trabalho inseguras, a violação freqüente de seus direitos, salários insuficientes e intimidação de seus empregadores.

Oxfam International tem denunciado que “Na Indonésia, apesar de que o direito de formar um sindicato é reconhecido por lei, a Confederação Sindical Internacional aponta que, na prática, os direitos de sindicação são seriamente debilitados por intimidação e longos processo de mediação que forçam os sindicatos a lançar mão de greves espontâneas. Neste contexto, a Musim Mas, uma companhia de azeite de dendê indonésia, demitiu no ano passado [2006] mais de 700 membros de sindicatos como represália de uma greve, despejando os trabalhadores e 1.000 membros de suas famílias de suas casas pela força e expulsando suas crianças da escola.” (2) (ver também Boletim do WRM Nº 109).

O trabalho nas plantações de dendezeiros é duro tanto para os homens quanto para as mulheres, apesar de que diferentemente. É bastante freqüente que as mulheres ajudem a seus maridos nas plantações para satisfazer as exigentes cotas de produção, geralmente fazendo trabalho não remunerado. Além disso, as mulheres devem cuidar seus filhos, fazer a comida e coletar lenha e água, que agora estão bastante longe devido à destruição da floresta pelas plantações de dendezeiros. Em caso que as mulheres estejam contratadas, frequentemente recebem salários mais baixos do que os dos homens. A discriminação se baseia no argumento que seu trabalho é mais fácil do que o trabalho dos homens.

De acordo com um artigo pela Rainforest Action Network, “Frequentemente aloca-se às mulheres tarefas que parecem menos onerosas mas que são realmente mais perigosas e exigentes fisicamente que aquelas dos homens. Na Indonésia, as mulheres são geralmente as que devem pulverizar pesticidas porque é menos exigente fisicamente que outros trabalhos da plantação. Lamentavelmente, raras vezes recebem o equipamento protetor como luvas e máscaras. Quando retornam para sua casa, devem preparar os alimentos para suas famílias, frequentemente com resíduos em sua pele e roupas ainda.” (3)

Paraquat e Glifosato (Roundup) são os herbicidas mais comuns usados nas plantações de dendezeiros. Além das preocupações sobre os efeitos na saúde da exposição direta aos tóxicos, a publicação Down To Earth (DTE) revelou que os herbicidas podem ser arrastados por chuvas fortes “para córregos e rios que constituem a única fonte de água para todas as necessidades da família –incluindo água para beber- para os povoados que cercam as plantações. Além disso, os herbicidas não se ligam a solos arenosos” (4)

DTE vivifica as estatísticas, mostrando o caso de Mardiana, melhor conhecida como Etek, que trabalha para a PT Agro Masang Perkasa no distrito de Agam, Sumatra Ocidental. “Ela tem trabalhado lá desde 1994 e continuará fazendo-o já que não há outros trabalhos que possa fazer para sustentar-se e sustentar sua família” explica um breve relatório baseado em uma entrevista com Etek em junho de 2008 em Bogor. (5)

Ela não pode ver com seu olho direito porque entrou herbicida nele há três anos. “antigamente, quando alguma coisa entrava no meu olho, eu o esfregava. Assim está ele agora, como o olho de um peixe salgado,” diz ela.

Etek trabalha na plantação, principalmente pulverizando herbicidas entre as fileiras de dendezeiros. Há somente três grupos de pulverizadores. Cada grupo tem um encarregado e consiste de nove ou dez pessoas. Em um dia, cada pessoa deve cobrir nove fileiras ou aproximadamente dois hectares.

Por cada dois litros de Roundup misturado com 16 litros de água, os trabalhadores podem cobrir dois hectares de plantação. Geralmente trabalham em pares e ganham cada um deles Rp30.000 (USD 3,25) pelos dois hectares. Na época de colheita, Etek também ganha Rp400 (aproximadamente 4 centavos) por cacho de dendezeiros, seja o cacho grande ou pequeno. Como pulverizadora, ela também ganha Rp8,000 ( ) para comprar leite. Inicialmente a companhia fornece máscaras de segurança e equipamento de pulverização, mas não os substitui quando estão desgastados ou se quebram. O custo de um novo pulverizador, ou o que os trabalhadores chamam de “kep” é Rp200-000 (US$ 22) cada, e pode ser pagado em prestações durante quatro meses.

Apesar de que não recebem capacitação suficiente sobre os perigos dos químicos tóxicos, Etek e seus amigos sabem que não devem falar enquanto pulverizam até que chegam ao tanque de água onde reenchem seus pulverizadores. Sabem que há possibilidades de que ingressem químicos tóxicos ao corpo pela boca.

Percentagem de saúde

Fontes:
(1) http://www.worldwatch.org/node/5821
(2) http://www.oxfam.org.nz/imgs/pdf/biofuels%20briefing%20note.pdf
(3) http://ran.org/campaigns/rainforest_agribusiness/resources/fact_sheets/hostile_harvest_us_
agribusinesses_and_labor_rights_abuses/
(4) http://www.downtoearth.org.in/
(5) http://dte.gn.apc.org/78.pdf

Malásia: aqueles que saem perdendo no negócio do dendê

Na Malásia, a expansão do óleo de dendê ocorre de forma paralela com o desmatamento- apesar de os representantes do governo afirmarem o contrário.

Um comunicado de imprensa emitido por Sahabat Alam Malaysia [SAM] – Amigos da Terra Malásia, no dia 6 de agosto de 2008, revela que cerca de 2,8 milhões de hectares de terras com grandes extensões de florestas em Sarawak foram entregues a concessões de plantações, principalmente de dendezeiros e de árvores de crescimento rápido para celulose.

Contudo, as comunidades que usufruem dos Direitos Consuetudinários Nativos (NCR) nessas áreas não foram levadas em conta no processo de concessão de licenças. Como afirmado na declaração, eles geralmente percebem que “suas terras serão afetadas só depois de os trabalhos começarem no local. … Depois de terem suas terras desmatadas, as comunidades podem ser afetadas por impactos ambientais que abrangem desde perturbações na água, nos nutrientes do solo e ciclos ecológicos, até erosão, sedimentação nos rios, e ameaças de incêndios e poluição por causa dos agroquímicos e as plantas de processamento”.

As terras consuetudinárias são muito significativas para os povos indígenas em Sarawak. Como explicou Tuai Rumah ladon anak Edieh, um granjeiro de 70 anos que mora em Ulu Bawan, distrito de Balingian, Divisão de Mukah, em uma entrevista em 2006: “A terra nos fornece tudo o que necessitamos, os alimentos tirados das lavouras que nós plantamos, as plantas silvestres que nós coletamos como hortaliças e as ervas medicinais. Nós usamos nossa floresta a fim de obtermos madeira para construir nossa “longhouse” (unidade habitacional e organizacional), para construir canoas, e os caixões para os defuntos. Podemos caçar javalis silvestres e outros animais bem como pescar nos córregos de nossas terras consuetudinárias. Nós estamos ligados a nossas terras consuetudinárias… Se tirassem nossas terras de nós, não poderíamos sobreviver.”

Mas esse foi o destino que enfrentaram. Em 1973, eles foram enganados por políticos e funcionários para “desenvolver” suas terras com plantações de dendezeiros. O acordo com a empresa começou com um tipo de locação de terras enquanto oferecia à comunidade trabalho na plantação com pagamentos muito baixos que não compensavam os recursos que a comunidade obtinha da floresta. E para arrematar isso tudo, a empresa continuou plantando dendezeiros apesar do fim do prazo da locação.

Um artigo de Rhett A.Butler publicado em Mongaby (http://www.mongabay.com/borneo/borneo_oil_palm.html) trata sobre a redução significativa da diversidade biológica decorrente da transformação das florestas em plantações de dendezeiros, e diz que “muitos animais não se movimentarão através das plantações enquanto outros, como os orangotangos, se tornarão uma peste para as plantações, fato que os coloca em risco devido à caça ilegal defensiva por parte dos administradores das plantações. O uso de herbicidas e pesticidas também pode impactar na composição das espécies e poluir os cursos d’água locais. Os sistemas de drenagens exigidos pelas plantações (as plantações de dendezeiros em Bornéu freqüentemente são estabelecidas em florestas de pântano) podem diminuir os lençóis freáticos, afetando as áreas florestais circundantes. Além disso, a destruição de terras de turfa aumenta o risco de enchentes e queimadas. As queimadas para clarear terras realizadas pelos donos das plantações de dendezeiros foram a principal causa dos incêndios maciços de 1997- 1998 em Bornéu… Parece que o sistema existente, às vezes, deixa os pequenos proprietários em condições semelhantes à escravidão”.

Para as comunidades indígenas, a invasão das indústrias extrativas em seus territórios significou um rompimento das economias de subsistência; após isso, eles foram obrigados a entrar em uma economia pecuniária que depende basicamente da madeira. Contudo, como explica Butler: “Devido à escassez de madeira em várias regiões de Bornéu … o dendezeiro parece ser a melhor alternativa para as comunidades que se ganham a vida com o cultivo de caucho, a agricultura de subsistência de arroz e as hortas de frutas. Quando uma empresa agrícola de grande porte entra em uma área, alguns membros da comunidade freqüentemente estão ávidos por fazer parte de uma plantação de dendezeiros.

Desprovidos de títulos legais sobre suas terras, os acordos freqüentemente são estruturados de modo que os membros da comunidade adquirem 2-3 hectares (508 acres) de terra para cultivar dendezeiros. Geralmente, eles tomam empréstimos de cerca de $3.000- 6.000 (com juros de 30% ao ano) das empresas matrizes para as mudas, fertilizantes e outros insumos. Como os dendezeiros levam, em linhas gerais, 7 anos para dar frutos, eles trabalham como operários braçais por $2,50 ao dia nas plantações maduras. Nesse ínterim, suas parcelas não geram nenhuma renda mas exigem fertilizantes e pesticidas, que são comprados da empresa dendeicultora. Quando as plantações se tornam produtivas, a renda média de um lote arrendado de 2 hectares é de $682-900 ao mês. No passado, a borracha e a madeira geravam $350-1000 ao mês, conforme Curran. A baixa renda combinada com os altos custos decorrentes do início das operações e o pagamento de juros relativamente altos faz com que, na prática, os pequenos proprietários fiquem endividados perpetuamente com a empresa dendeicultora. A cultura do dendezeiro também deixa a população local mais dependente das empresas agrícolas porque eles já não plantam seus próprios alimentos.

Enquanto isso, as empresas dendeicultoras estão fazendo fortuna. “Algumas empresas em Kalimantan Oeste vêm experimentando um índice de retorno anual de 26% para um período de 25 anos, uma cifra chocante”, Butler revela. Parece que a atual demanda de agrocombustíveis permite que as plantações de dendezeiros floresçam às custas das comunidades locais.

Artigo basado em: “Plantation development in Sarawak, deforestation and Native Customary Rights (NCR)”, August 6, 2008, Sahabat Alam Malaysia [SAM] Friends of the Earth, Malaysia, e-mail: sam_inquiry@yahoo.com; ” Indigenous Community Struggle – Sungai Bawan, Balingian, Mukah Case”, http://www.rengah.c2o.org/assets/pdf/de0122a.pdSarawak; “The Impact of Oil Palm in Borneo”, Rhett A. Butler, http://www.mongabay.com/borneo/borneo_oil_palm.html

Tailândia: diversidade e uso comunitário das florestas versus monoculturas e parques

A rodovia que une Trang e Krabi no Sul da Tailândia é um exemplo do que os economistas chamam de desenvolvimento. O que costumava ser uma floresta tropical exuberante tem sido transformado em inumeráveis fileiras de dendezeiros ou seringueiras. A monotonia é alterada às vezes por umas poucas casas e lojas cercadas por um mar de monoculturas de árvores. No final da rodovia, as granjas camaroneiras ocupam o lugar das florestas de mangues e somente uma fina fileira de mangues que rodeia o rio foi dispensada da destruição. O modelo das monoculturas parece ter vencido a rica biodiversidade da região.

Ao enfrentar-se com críticas a esse modelo, os funcionários do governo vão responder rapidamente que a biodiversidade tem sido protegida dentro de uma série de parques nacionais e reservas que garantem a conservação de espécies nativas de flora e fauna.

No entanto, muitos povoadores locais estão infelizes, tanto em relação às monoculturas quanto em relação às políticas oficiais de conservação das florestas e têm estabelecido organizações para fazer com que a situação mude. Uma dessas organizações é a “Network of People Organisation for Bantad Mountain Range” (Rede de Organização Popular para a Cadeia de Montanhas de Bantad) que tem reunido pessoas que enfrentam problemas similares.

Os problemas surgiram há 30 anos aproximadamente, quando o governo começou a estabelecer diferentes tipos de áreas protegidas nas florestas onde as comunidades locais têm vivido por séculos, como no caso do grupo étnico Sakai. Para poder permanecer na área eles tiveram que provar que viviam lá antes de que a lei florestal tivesse sido aprovada. O que é mais importante ainda, seriam autorizados para realizar suas atividades tradicionais na floresta se: 1) a área não fosse considerada “em risco” ou “sensível” pelo governo; 2) o declive fosse menor que 30%. O resultado da aplicação dessas duas condições faz com que a maioria das atividades sejam ilegais, já que qualquer área pode ser classificada “em risco” ou “sensível” e as comunidades locais usam tradicionalmente todas as diferentes altitudes com diferentes fins.

O que o modelo de conservação supra esconde é a função histórica do governo na destruição da floresta, tanto na promoção de monoculturas quanto nas concessões madeireiras.

No caso das monoculturas, os membros da “Bantad Mountain Range Network” explicam que “o ‘Rubber Tree Fund’ (Fundo das Seringueiras) é parte do governo. Os funcionários do Fundo vêm à área para promover as plantações de seringueiras. Outorgam-se fundos aos produtores para plantar monoculturas como um contrato em terras individuais. As pessoas estão felizes no começo, mas os problemas surgem depois. Antes, eles integravam as hortas com as seringueiras mas agora são uma monocultura e há desmoronamentos. As pessoas perdem seus meios tradicionais de vida. Outros impactos incluem maior controle do governo, pelo que as atividades dos povos locais são declaradas ilegais e são punidas. As pessoas são controladas por guardas e até com helicópteros. As pessoas estão enfrentando muitas ações legais (13 casos em juízo no momento) e também multas, que vão de 100.000 até 5 milhões de bahts. A comunidade deve pagar garantias para tirar as pessoas da cadeia.”

O governo também é responsável pela destruição da floresta decorrente de concessões madeireiras passadas. Os representantes de uma comunidade membro da “Bantad Mountain Range Network” explicam que vieram com a companhia madeireira e depois permaneceram na área. Agora têm estabelecido um sistema de hortas tradicionais integradas, onde as seringueiras se misturam com árvores frutíferas, bétele, pimentão, feijão e uma longa lista de outras plantas que satisfazem suas necessidades. A comunidade está portanto melhorando um ambiente antigamente degradado pela concessão madeireira outorgada pelo governo.

Apesar da função positiva que estão cumprindo, as comunidades estão tendo problemas com o governo. Explicam que elas têm pouca área de terra para agricultura (1-5 hectares por família) e que usam a floresta como parte de seus meios de vida. A maioria das pessoas vivem das hortas, complementadas com a caça (sem armas de fogo), pesca, coleta de caracóis, fungos, brotos de bambu e outras atividades de coleta. Mas, de acordo com o governo, a maioria disso é ilegal. “De fato, tudo é ilegal” alegam eles. O governo tentou reassentá-los, mas não aceitaram e resistiram de todas as formas possíveis. Sua luta é pela segurança alimentar, pelo direito a escolher, pelo “direito a decidir o futuro nós mesmos”.

Um outro aspecto que merece ser salientado é o caminho de acesso à comunidade referida. Um dos argumentos utilizados pelos governos para abrir caminhos na floresta é que permitirão às pessoas comunicar-se com o mundo exterior. No entanto, a maioria dos caminhos são realmente construídos para favorecer os interesses das companhias que querem acesso aos recursos naturais (madeira, minerais). Portanto, são suficientemente largos para que os grandes caminhões possam extrair esses recursos, mas no caso desta comunidade, o caminho é um caminho de pessoas, adaptado à situação local, onde a maioria das famílias possuem uma motocicleta. O caminho tem menos de 1 metro de largura e está pavimentado apenas em algumas partes com declives escarpados. As pessoas têm fácil acesso, as companhias não.

Um outro processo interessante que está desenvolvendo-se na região é a “Alternative Agriculture Network” (Rede de Agricultura Alternativa). Considerando os atuais altos preços do azeite de dendê e da borracha, os produtores locais estão obtendo grandes lucros com esses cultivos. Ao mesmo tempo, os altos preços do petróleo têm feito com que os fertilizantes químicos sejam muito caros. Acrescentado aos problemas de saúde e ambientais vinculados ao uso de agrotóxicos, isso tem resultado em uma situação onde mais granjeiros querem aderir a um tipo de agricultura mais diversificado e orgânico. Os fertilizantes químicos estão sendo substituídos com insumos orgânicos para o solo e muitas outras plantas (para alimentação, madeira, medicinas, fibras) estão sendo introduzidas sob as plantações de monoculturas. Apesar de que o rendimento do cultivo principal se reduz um pouco, isso se compensa com o custo menor e com o grande número de outros produtos para autoconsumo e comércio. Isso também é percebido como uma salvaguarda para possíveis quedas no preço internacional da borracha e do azeite de dendê, como tem acontecido no passado, especialmente com a borracha.

Em resumo, os povos e as comunidades locais se têm organizado para proteger seu meio ambiente, meios de vida e direitos. O pacote de monoculturas, agrotóxicos e áreas protegidas anti-pessoas promovido pelo governo está sendo transformado em um sistema diversificado, comunitário e respeitoso da ecologia. Como dizem os povoadores locais, “queremos estar orgulhosos do que somos e do que estamos fazendo.” Com certeza podem.

Artigo baseado em depoimentos locais de uma visita de campo realizada pelo WRM em julho de 2008

Boletim número 134 do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais
Boletim Mensal do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais
Editor: Ricardo Carrere

Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais
Maldonado 1858 – 11200 Montevideo – Uruguay
tel: 598 2 413 2989 / fax: 598 2 410 0985
wrm@wrm.org.uy
http://www.wrm.org.uy

Colaboração de Norbert Suchanek, Rio de Janeiro, Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia, colaborador e articulista do EcoDebate.

[EcoDebate, 25/09/2008]

Top