Lista da flora brasileira ameaçada de extinção tem 472 espécies em risco; governo desconsidera outras mil


1.ª lista oficial no País em 16 anos se omite sobre 1.079 tipos de planta por “falta de dados”; entidade protesta

Em 16 anos, o número oficial de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção aumentou mais de quatro vezes. A nova lista do Ministério do Meio Ambiente (MMA), divulgada ontem, incluiu 472 espécies, ante 108 em 1992, última relação oficial disponível. No entanto, há uma segunda lista com mais 1.079 espécies que também podem estar ameaçadas. Felipe Werneck, do O Estado de S.Paulo, 20/09/2008.

O MMA alega que a “deficiência de dados” não permitiu a inclusão do grupo “com segurança” na condição de ameaçado. Essas últimas espécies, portanto, não ficarão sujeitas às restrições previstas na legislação para aquelas incluídas na lista oficial: proibição do corte, transporte e comercialização.

O Estado perguntou ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, se não seria mais seguro proteger também o segundo grupo de espécies e depois eventualmente retirar da lista aquelas que não estão ameaçadas, à medida que isso fosse comprovado. “Na verdade, a gente poderia dizer que todas estão ameaçadas, mas veja bem… Parece que a coisa mais protecionista é dizer que todo mundo está ameaçado. Mas quando se diz que tudo está ameaçado é o mesmo que dizer que nada está ameaçado. Eu me pergunto se nós temos capacidade de fiscalizar essas 472”, respondeu.

Apesar de admitir que o “número verdadeiro de ameaçadas seguramente é maior” que 472, Minc afirmou que “não há informação suficiente e não há certeza” sobre a situação das 1.079 espécies. Para ele, a inclusão do grupo na lista oficial “aparentemente é uma posição mais defensiva”, mas na verdade isso “vulgariza e cria um número que não se terá condições de proteger”. “Proteger firmemente com a lei as 472 e dar prazo e meios para os cientistas definirem quais das outras mil estão efetivamente ameaçadas é o caminho mais seguro”, declarou. Os prazos, que segundo Minc serão diferenciados por espécie, não foram divulgados.

O trabalho será feito pelo Jardim Botânico do Rio.

A lista oficial foi elaborada pela Fundação Biodiversitas sob encomenda do MMA. Minc atribuiu à entidade a decisão de não incluir as 1.079 espécies na relação oficial. A Biodiversitas nega .

Mais da metade (276) das espécies oficialmente ameaçadas estava no bioma mata atlântica. “Estamos falando da faixa do litoral onde sobrou 8%. E é onde se concentra a população, a indústria, as atividades portuárias”, comentou Minc.

Para ele, o aumento do conhecimento científico também explica parte do crescimento. “Em parte, se pesquisa mais, se conhece mais. Em outra, se agride mais, se corta mais, se queima mais.” O cerrado tinha 131 espécies ameaçadas, seguido por caatinga (mais informações nesta página). A soma é superior ao total de espécies ameaçadas porque algumas estão presentes em mais de um bioma.

Nenhuma espécie da lista de 1992 foi excluída. Quanto às regiões, o Sudeste apresentou o maior número de ameaçadas (348), ante 168 no Nordeste, 84 no Sul, 46 no Norte e 44 no Centro-Oeste. MG foi o Estado com mais espécies sob ameaça, seguido por RJ, BA, ES e SP. Há 40 anos, na primeira lista oficial, havia 13 espécies ameaçadas de extinção.

Para biólogos, lista deveria ter no mínimo 600 espécies

A lista com 472 espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção divulgada ontem pelo Ministério do Meio Ambiente frustrou os biólogos que participaram da elaboração da lista proposta inicialmente, com 1.495 espécies, preparada há três anos pela Fundação Biodiversitas – por meio de convênio com o IBAMA, a pedido do próprio ministério. Ficaram de fora da lista oficial espécies consideradas criticamente em perigo. Por Niza Souza, do O Estado de S.Paulo, 20/09/2008.

“Essa lista não tem nosso apoio e nem dos biólogos brasileiros”, reagiu o presidente do Conselho Curador da Biodiversitas, professor Ângelo Machado, que, mesmo convidado, não participou do evento promovido ontem para divulgação da nova lista. Para ele, da lista do ministério deveriam constar pelo menos as cerca de 600 espécies consideradas criticamente em perigo. A lista da Biodiversitas considera três níveis de ameaça: vulnerável, em perigo e criticamente em perigo.

Para a superintendente técnica da fundação, Gláucia Drummond, o corte feito pelo ministério desestimula a comunidade científica em futuras parcerias. “É uma desconsideração com o trabalho dos biólogos”, lamentou. “Não tivemos a oportunidade de discutir, nem sabemos qual o critério que o ministério usou para reduzir a lista em mais de 60%. É comum haver divergências, mas será que os biólogos erraram tanto assim?”

O biólogo Paulo Takeo Sano, da Universidade de São Paulo (USP), que participou da elaboração da lista, lamentou a falta de transparência do ministério. “Nos baseamos em critérios científicos usados internacionalmente. Não foi achismo.”

Conforme Gláucia, a lista do ministério diverge também das estaduais. A lista oficial do Estado de São Paulo, exemplifica, tem 1.086 espécies ameaçadas de extinção, e a de Minas, 1.127.

[EcoDebate, 22/09/2008]

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