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Pré-sal: uma nova perspectiva para o desenvolvimento econômico brasileiro. Entrevista especial com David Kupfer


Infográfico: O Globo

Para o doutor em Economia da Indústria e Tecnologia David Kupfer, ao contrário do que dizem alguns pesquisadores, o petróleo encontrado na costa brasileira terá, certamente, muita importância para o país, mas não deverá ser a nossa única aposta. Durante a entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, Kupfer diz que o pré-sal deve contribuir bastante para o desenvolvimento de toda a indústria brasileira, em especial o setor metal-mecânico. “Acredito que, com políticas industriais bem feitas, esse petróleo que está no pré-sal traz uma excelente oportunidade para reposicionar a inserção da economia brasileira, inclusive em termos internacionais”, afirmou.

David Kupfer é graduado em Engenharia Química, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também obteve os títulos de mestre e doutor em Economia da Indústria e Tecnologia. Na mesma universidade, é, atualmente, diretor do Instituto de Economia. É autor dos livros Made in Brazil (Rio de Janeiro: Campus, 1996) e Economia Industrial: fundamentos teóricos e práticas no Brasil (Rio de Janeiro: Campus, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Alguns economistas apontam que a economia brasileira, a partir de 2020, será focada no petróleo. O que isso pode significar para a vida da população brasileira?

David Kupfer – Eu não concordo com essa idéia. Eu penso que, a partir desse horizonte, provavelmente o petróleo terá uma grande importância na economia brasileira, mas não acredito que nos tornemos uma economia dependente, como, por exemplo, os países do Oriente Médio. De fato, isso é uma possibilidade, mas é uma trajetória não desejável e que provavelmente decorrerá se o setor público e o setor privado forem incapazes de encontrar alternativas a essa implosão da economia em torno da indústria do petróleo. Isso provavelmente não ocorrerá. Nosso ponto favorável é o fato de termos uma indústria bastante ampla que se construiu ao longo de mais de 50 anos. Portanto, temos uma estrutura industrial bastante diversificada. A exploração de petróleo abrirá oportunidades para desenvolvimento industrial e tecnológico. Acredito que, com políticas industriais bem feitas, esse petróleo que está no pré-sal trará uma excelente oportunidade para reposicionar a inserção da economia brasileira, inclusive em termos internacionais.

Eu sou otimista e acho que, em primeiro lugar, o pré-sal lida diretamente com a indústria metal-mecânica, na qual o Brasil tem muita competência. Não somos uma potência na área, mas temos mão-de-obra para isso, além de infra-estrutura e escolas de formação profissional. Talvez, com o novo patamar de demanda que o pré-sal representará, esses setores irão conseguir dar um salto qualitativo. Antes, esses campos, de algum modo, não tinham condições efetivas para se qualificar. Então, eu acredito que o pré-sal trará muito desenvolvimento ligado a esses setores. O nível e a escala em dos acontecimentos dependem do pré-sal. O mundo, no entanto, não se resume à indústria metal-mecânica, e, portanto, precisamos também saber que tipo de implicação a exploração do petróleo em águas profundas trará para as indústrias de maior poder tecnológico.

Aqui, existe a vantagem de termos a empresa que no momento é a líder mundial sob o ponto de vista do desenvolvimento tecnológico em águas profundas. Portanto, precisamos conseguir, e aí não será tão automático, fazer essa liderança da Petrobras e de seu centro de pesquisa, no desenvolvimento da tecnologia de águas profundas, transbordar para os setores fornecedores de alta tecnologia utilizados nesse tipo de exploração do petróleo. Isso é um pouco mais difícil porque a massa crítica disponível no país não é tão grande quanto a produção industrial metal-mecânica. Vamos precisar de bons programas de formação de pessoal de nível superior nas universidades e nas próprias empresas, além de mais estímulo para o investimento em inovação por parte do setor empresarial. Precisamos, ainda, de uma política tecnológica mais focada. Desse modo, teremos exigências maiores, mas num cenário relativamente mais favorável também.

IHU On-Line – O Brasil pode se tornar, com isso, um país de Primeiro Mundo, economicamente falando?

David Kupfer – Eu entendo que o chamado “Primeiro Mundo” também irá evoluir. Então, quando melhorarmos bastante, provavelmente os outros países também irão seguir nessa tendência. Por isso, eu não acredito que o pré-sal acabe permitindo o que chamamos de “emparelhamento”. Ou seja, eu não acredito que, por causa do pré-sal, o Brasil em 30 anos fique no nível dos países mais avançados como a Suécia ou mesmo como os Estados Unidos. De qualquer maneira, ele permitirá uma mudança no ritmo de crescimento da economia, porque, de algum modo, estamos falando, no plano mais macroeconômico, de um possível horizonte de tranqüilidade em termos de balanço de pagamentos. O aspecto positivo é que teremos uma fonte de divisas bastante produtiva, onde antes tínhamos um sorvedouro de divisas.

Tudo isso pode dar uma estabilidade macroeconômica muito importante e duradoura, que permite que o país ganhe velocidade em seu processo de desenvolvimento. No entanto, os problemas brasileiros não se resolverão apenas com dinheiro, nem em horizonte temporal inferior a algumas décadas. É que existem problemas muito extensos, ligados à estrutura do mercado de trabalho no país, à precariedade da inserção produtiva, a um contingente enorme de pessoas que estão no setor informal etc. Temos a necessidade de preparar uma geração que está entrando agora e provavelmente levará um tempo muito longo para se qualificar. Há problemas com déficits habitacionais e urbanos enorme no país, além de problemas de grande dimensão. É evidente que eles poderão ser melhorados por políticas mais extensas, porque haverá mais capacidade de gasto público para fomentar essas políticas.

IHU On-Line – O que o senhor pensa em relação à proposta de se criar uma nova estatal para explorar o pré-sal?

David Kupfer – Eu acredito que ela faça parte de uma preocupação legítima, embora não necessariamente a estatal seja o melhor modelo institucional. A preocupação legítima é garantir que o petróleo seja pertencente à União, ou seja, a quem de fato ele pertence. Por isso, ele é de todos. Evidentemente, a necessidade de mudar o marco institucional do setor fica bastante evidenciada na medida em que o petróleo do pré-sal significa um quadro completamente novo na exploração desse recurso no Brasil. O que eu tenho dito é que nós conseguimos construir, dentro do modelo regulatório, uma política para encontrar petróleo. Agora, teremos de mudá-la para uma política de produção do petróleo.

A preocupação é preservar, sendo um recurso da União, a capacidade de gerir essas reservas, que elas não sejam gerenciadas exclusivamente por interesses particulares. A entidade não deve fazer parte do governo. É possível que se encontre uma solução alternativa. Não exatamente a criação de uma estatal, mas a criação de uma instância, embora não-produtora, que regularize especificamente quantidades que serão extraídas dessas camadas de petróleo localizadas abaixo do sal. No entanto, eventualmente o sistema de uma estatal poderá fazer os contratos e regularizar essas quantidades a partir da confecção dos contratos com parceiros. Enfim, falta informação ainda sobre a extensão dessas reservas, se elas são únicas ou não, se são maiores e outras regiões. Não sabemos muita coisa ainda, mas o que é de domínio público não permite ainda modelar totalmente a forma ideal de regular a produção.

IHU On-Line – Enquanto se fala em aquecimento global e alternativas para driblar suas conseqüências, alguns países estão investindo em novas formas de gerar energia. Ao investir no petróleo, o Brasil, de certa forma, pode estar caminhando contra uma tendência mundial?

David Kupfer – Não. Eu acho que isso é um falso problema. As pessoas estão tendo uma reação de que tanta sorte trará azar. Ou seja, entendem que as jazidas de petróleo farão com que o país cometa erros graves e acabe ficando pior do que estava antes da descoberta. Sempre existirá o caso de alguém que ganha na loteria e não tem estrutura psicológica para ser milionário e faz muitas besteiras. Mas, primeiramente, não estamos lidando com algo que caiu do céu; trata-se do resulto de um longo processo. Ele já era esperado para quem está no olho do furacão e atingirá a maturidade só daqui a uns 20 anos, gerando um lucro importante em um longo período.

O Brasil não deve ser um país que aposta no petróleo como única fonte de energia, porque isso é dar um tiro no próprio pé, na medida em que temos recursos naturais e outros para produção de energia de múltiplas origens. Então, não podemos cair na armadilha de rumar exclusivamente para o petróleo. Devemos continuar pensando que ele é não-renovável, de que acabará um dia, é poluente e tem muita maleabilidade. Ele apresenta várias facilidades, mas não é um combustível muito bom, energeticamente falando. É preciso continuar apostando nas hidrelétricas, que é um recurso vasto no Brasil, nas biomassas, nos bicombustíveis e em outras fontes de energia mais baratas, mais limpas e mais seguras. Afinal, temos como desenvolver todas essas fontes. Investir exclusivamente no petróleo é a pior aposta que podemos fazer.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line, 16/09/2009 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

[Ecodebate, 18/09/2008]