EcoDebate

Plataforma de informação, artigos e notícias sobre temas socioambientais

Artigo

Amazônia e filantropia, artigo de Danilo Pretti di Giorgi


[Correio da Cidadania] A princípio, os dois temas acima não têm grande relação. Mas chegaram recentemente até meu conhecimento dois textos, cada um tratando de um destes assuntos. Pretendo aqui mostrar que eles se fundem num dos maiores problemas da atualidade: nosso vício no capitalismo.

Tive a grata surpresa esses dias de entrar em contato com o pensamento de Michael Edwards e suas reflexões a respeito do emergente “filantro-capitalismo”. Tive também, como articulista de meio ambiente, a desagradável obrigação de ler a matéria sobre a Amazônia publicada na última edição da revista Exame.

Pelo artigo de Edwards fiquei sabendo que a Europa e os Estados Unidos vivem um momento de crescente direcionamento de recursos financeiros à filantropia. Entidades como Fundação Gates e Clinton Global Initiative têm colocado montanhas de dinheiro em instituições humanitárias. Os cálculos de Edwards – ele mesmo executivo de uma dessas gigantes da ajuda humanitária, a Fundação Ford – apontam que, nos próximos quarenta anos, 55 trilhões de dólares serão destinados para este fim.

Edwards reconhece a importância desse movimento e o quanto ele pode ajudar as pessoas, mas alerta que uma grande parcela dos envolvidos no filantro-capitalismo está exagerando nas previsões de “transformação social” que podem ser resultantes dele. Ele afirma estar recebendo uma enxurrada de “notícias de conferências, palestras, artigos e relatórios que prometem ‘salvar o mundo’ revolucionando a filantropia, fazendo com que as organizações sem fins lucrativos operem como negócios (…). Os defensores desta abordagem (…) acreditam que os princípios dos negócios podem ser combinados com sucesso com a busca da transformação social”.

Ele alerta para o fato de que levar o “business” para a sociedade civil atuante pode não apenas ser errado como perigoso, podendo causar até mesmo a desestruturação de muitas entidades humanitárias.

Voltemos à triste Exame. A revista enviou duas repórteres para a Amazônia com uma missão insólita: reunir informações que “provassem” que só o capitalismo pode salvar a floresta (aliás, a manchete da matéria traz exatamente essa idéia). Todo o texto é um enfadonho amontoado de meias verdades, impossíveis de serem provadas com fatos, tentando fazer o leitor menos preparado acreditar que a solução é deixar a floresta na mão das grandes corporações, como a Alcoa, para explorar “trilhões de dólares ocultos na região” (leia-se madeira e minérios).

A tática de convencimento é a de sempre: pinta-se um mundo maravilhoso para o período subseqüente ao início da exploração, seja de bauxita ou mogno. São citadas com destaque as altas cifras previstas para os “projetos sócio-ambientais” na região pelas corporações interessadas, os cuidados que serão tomados para evitar o desmate no entorno dos locais de extração, os investimentos previstos em infra-estrutura para a população local. Aquela mesma conversa fiada de sempre que qualquer um com um pouco de experiência prática de Brasil e, mais ainda, de Amazônia sabe que nunca vai se repetir na prática da forma como é colocada. Uma vez autorizado o projeto, o grande interesse das empresas beneficiadas sempre será a maximização dos lucros.

Não duvido que haja por parte dessas corporações um interesse fluido de controlar a degradação que virá como resultado principalmente da abertura e pavimentação de estradas, o grande motor da destruição. Mas conseguir realmente manter as matas intocadas é algo extremamente complicado, envolve choque com a cultura local, questões políticas e fundiárias. Comprar realmente essa briga exigiria da direção da empresa um dispêndio de energia e atenção que, se levado a cabo, poderia prejudicar o seu real interesse, que é lucrar o máximo possível. E no futuro, como sempre, quando as imagens de satélite mostrarem imensas manchas vermelhas nos locais explorados, será dito que controlar o desmatamento nas áreas do entorno é “responsabilidade do governo”.

Mas aí então o projeto já estará em andamento e não vai resolver muito mandar cartas para a seção de leitores da revista Exame. Elas certamente não serão publicadas. Para piorar, algumas das atividades mencionadas, como extração e processamento de alumínio, consomem quantidades gigantescas de energia elétrica. Logo, precisam de hidrelétricas, de preferência o mais perto possível. E onde estão sendo planejadas as novas mega-hidrelétricas no Brasil? Bingo: Amazônia.

De volta à filantropia, Edwards apresenta quatro argumentos principais para embasar sua severa análise:

“O modismo que cerca o filantropo-capitalismo é muito maior do que sua capacidade de conseguir resultados reais. É hora de mais humildade.

A concentração cada vez maior de riqueza e poder entre os filantropo-capitalistas é prejudicial à saúde da democracia. É hora de mais responsabilização. O uso da lógica dos negócios e do mercado pode prejudicar a sociedade civil, que é crucial para a transformação política e social democrática da sociedade. É hora de diferenciar as duas e reafirmar a independências da ação cívica mundial. O filantropo-capitalismo é sinônimo de um mundo desordenado e profundamente desigual. Ele ainda não demonstrou que pode fornecer a cura”.

Ambos os exemplos aqui apresentados – o delírio filantropo-capitalista e a tese da salvação da floresta com exploração intensiva de suas riquezas – incorrem no grave erro de querer salvar o doente aplicando mais do veneno que o levou ao hospital. Denotam a grande dificuldade do ser humano de mudar sua forma de pensamento. Apesar de estar claro que tanto a degradação ambiental quanto as mazelas sociais decorrentes da má distribuição de renda – como a miséria, a fome, a violência e as guerras – são resultado do sistema econômico que valoriza a acumulação e a exploração irresponsável dos recursos, pessoas com razoável capacidade cognitiva ainda não conseguem escapar da armadilha de ir parar no raciocínio de sempre, ultrapassado e comprovadamente fracassado.

Talvez esteja no entender como esse processo se dá dentro de cada um de nós o fio da meada para o início da transformação e da mudança que se faz cada vez mais necessária e inevitável, gostemos dela ou não.

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista. E-mail: digiorgi@gmail.com

Artigo enviado pelo autor e originalmente publicado pelo Correio da Cidadania.

[EcoDebate, 05/08/208]