Causas e efeitos das mudanças climáticas

Climatologista Carlos Nobre diz que a capacidade do homem de transformar o sistema terrestre não tem paralelo entre as espécies e precisa ser usada para mitigar as mudanças. Revista Pesquisa FAPESP, Edição Online.

O Brasil leva uma vantagem em meio ao esforço internacional para atenuar os efeitos do aquecimento global. Metade das emissões brasileiras provém do desmatamento, sobretudo na Amazônia, uma atividade econômica predatória que rende apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB). “Para países como a China e os Estados Unidos, nos quais as emissões de CO2 estão ligadas principalmente à queima de combustíveis fósseis, a redução impõe severas restrições ao modelo de desenvolvimento econômico, enquanto o Brasil pode contribuir sofrendo muito menos”, disse o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em palestra realizada em São Paulo no dia 14 de junho sobre a Ciência do sistema terrestre e a sustentabilidade da vida no planeta. “O desafio é encontrar uma solução para a questão da Amazônia que fuja do modelo tradicional baseado na exploração de soja, madeira e pecuária”, afirmou. A palestra de Nobre fez parte da programação cultural da exposição científica Revolução Genômica, que ocorreu no Pavilhão Armando de Arruda Pereira, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Um dos mais renomados climatologistas do país, Carlos Nobre é coordenador do recém-criado Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Inpe. Também integra o grupo de pesquisadores brasileiros que participa do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas que ganhou o Nobel da Paz de 2007 ao lado do ex-vice presidente dos Estados Unidos Al Gore. Por mais de duas horas, Nobre deu uma aula sobre as causas e os efeitos das mudanças climáticas. Começou explicando o conceito de sistema terrestre que é, em resumo, o somatório de todos os elementos vivos e os não vivos e a interação entre eles. “O homem tem um papel especial neste conceito por ser o único ser com capacidade de transformar o sistema terrestre de uma maneira que nenhuma outra espécie viva até hoje conseguiu”, explicou o climatologista.

Citando dados do IPCC, o pesquisador traduziu os efeitos da ação humana no clima. “A temperatura nos últimos 50 anos não parou de subir. Já subiu 0,8º C. Parece pouco, mas na verdade é muito, pois não podemos olhar esse dado como uma mera flutuação da temperatura, mas sim sob a perspectiva de como a Terra processa as variabilidades naturais”, disse Nobre. “De uma Era Glacial até o período Interglacial, a temperatura varia de 5°C a 6ºC, mas isso leva 10 mil, 12 mil, 20 mil anos para acontecer. Nós, em cem anos, aumentamos a temperatura quase 1º C. Isso significa que aceleramos a máquina climática em 50 vezes. O que faz a diferença não é tanto o valor de temperatura, mas o fato de estarmos acelerando a velocidade. Para se adaptar a essa velocidade, o sistema terrestre vai perder muito coisa e a grande questão que se coloca é se, ao perder funcionalidade, ele também perderá condição de sustentar a vida a longo prazo”, explicou.

Nobre expôs os cenários do clima no futuro traçados pelo IPCC. “Se estabilizarmos a concentração dos gases, como o CO2, por exemplo, na faixa de 600 partes por milhão, vai aquecer 1,8°C grau no século XXI e vai aquecer mais meio grau até o século XXIII. O nível do mar vai subir até o ano 3000. Esse seria um cenário. Para estabilizar nessa concentração, nós temos um trabalho muito grande para fazer. Mas se não fizermos nada, aí pode subir 3,4 graus neste século e continuar a subir sem parar”, afirmou Nobre, lembrando que os países têm a obrigação de se preparar para tais mudanças. “Só se fala em reduzir as emissões. Os países desenvolvidos querem envolver todos na redução das emissões e nós, de certa forma, copiamos essa agenda. Mas a irreversibilidade das mudanças climáticas traz a responsabilidade de se adaptar”, afirmou.

O climatologista enumerou efeitos já visíveis do aquecimento. “O planeta mais quente tem mais energia na atmosfera. Os ventos e as chuvas são mais fortes. O mundo está ficando tropicalizado. Com isso, eventos extremos que eram raros começaram a aparecer com certa freqüência nos últimos três anos. Aumentou o número e a intensidade de furacões registrados no Caribe. Houve enchentes na Venezuela e na Argentina que nunca tinham acontecido. Houve uma seca sem precedentes no oeste da Amazônia. O primeiro furacão observado no Atlântico Sul atingiu o Brasil em 2004. Houve tempestades de granizo em Buenos Aires e La Paz que nunca tinha sido registradas. São exemplos do que já está acontecendo e vai se intensificar”, alertou.

[EcoDebate, 18/07/2008]

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