Gelo do ártico pode sumir em 5 anos

No último verão, a temperatura da água ficou 4,3º C acima da média e calota polar perdeu 2,85 milhões de km2. Segue reportagem de Jonathan Leake, reproduzida pelo O Estado de S. Paulo, 06-07-2008.

Novas evidências reforçam a possibilidade de que a calota polar do Oceano Ártico poderá desaparecer nos próximos cinco anos, deixando os ambientalistas desesperados e os executivos do petróleo em êxtase.

Quando Marika Holland anunciou o fim iminente da calota polar sobre o Oceano Ártico há dois anos, ela estava preocupada. Suas descobertas, que se baseavam em previsões feitas por um dos supercomputadores mais poderosos do mundo, foram conferidas e analisadas por outros cientistas, mas ainda pareciam extremas.

“Estávamos sugerindo que a calota polar sobre o Ártico poderia desaparecer dentro de algumas décadas”, diz Marika, pesquisadora sênior do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas dos Estados Unidos em Boulder, Colorado. “Tínhamos confiança nos nossos métodos, mas o resultado ainda parecia dramático demais.”

Ela e seus colegas das universidades de Washington e de McGill, no Canadá, analisaram o impacto das emissões de gases do efeito estufa sobre o Ártico e inicialmente fizeram a previsão de que a calota polar poderia desaparecer durante o verão até 2040. A conseqüência disso é que a calota de gelo poderia desaparecer durante o inverno também, deixando o Pólo Norte permanentemente submerso. Os exploradores seriam obrigados a usar barcos no lugar de trenós.

A idéia de que o gelo do Ártico poderia encolher já corre há bastante tempo, mas a sugestão de que possa desaparecer, e com tamanha velocidade, provocou uma tempestade.

Em poucos meses, porém, as descobertas de Holland foram confirmadas com dramaticidade maior do que se poderia esperar. Todo ano os cientistas usam satélites para medir a área da calota polar ártica conforme ela cresce e encolhe ao longo das estações. No inverno, a calota atinge normalmente 15 milhões de km2 antes de recuar até cerca de 7 milhões de km2.

No último verão as coisas mudaram subitamente. Dia após dia o sol brilhou, elevando as temperaturas da água em 4,3°C acima da média. Até setembro, a calota polar sobre o Ártico havia perdido 2,85 milhões de km2 extras, o equivalente a mais de 12 vezes a área da Grã-Bretanha.

O derretimento reduziu a cobertura de gelo do verão para apenas 4,15 milhões de km2, 43% menos do que em 1979, quando foram iniciadas as observações precisas via satélite. Havia tanto mar aberto que a Passagem Noroeste, a famosa ligação entre Ásia e Europa, tornou-se navegável.

Para Marika e sua equipe, o grande derretimento provocou uma reavaliação considerável. “Dissemos que esse processo de derretimento provavelmente começaria perto de 2025, mas os modelos também mostravam que poderia haver períodos de derretimento rápido muito antes disso. Estamos nos perguntando se é isso que está acontecendo no momento. Se for, então a calota de verão pode não se recuperar mais e até 2013, ou pouco tempo depois disso, pode desaparecer de vez.”

No coração do derretimento do Ártico há um simples fato científico. O gelo é branco, o que faz com que a maior parte da luz do sol que incide sobre ele seja refletida de volta ao espaço. Ao derreter, no entanto, fica em seu lugar o mar aberto, que, sendo mais escuro, absorve a luz e esquenta. Isso ajuda a derreter ainda mais o gelo. O processo continua até que não haja mais gelo para derreter.

Peter Wadhams, professor de física oceânica da Universidade de Cambridge, esteve observando esse processo durante as últimas duas décadas, fazendo viagens sob a calota de gelo polar num submarino equipado com um radar capaz de medir a espessura do gelo. Nesse período, a espessura média do gelo foi reduzida em 40%.

A curto prazo é possível o surgimento de algumas oportunidades econômicas. A possibilidade de novas rotas de navegação, bem como o acesso a reservas de petróleo e outros recursos minerais que se supõe existirem sob o leito oceânico provocaram uma saraivada de reivindicações e contra-reivindicações por parte das nações vizinhas ao Ártico. Os campos de gás e petróleo sob a calota polar ártica são estimados por alguns geólogos em 25% das reservas mundiais não descobertas.

Outros têm um sonho diferente para um Ártico aquecido. Trausti Valsson, professor de planejamento ambiental na Universidade da Islândia em Reikjavik, acredita que, com a alta nas temperaturas, as terras próximas ao Ártico evoluirão até se transformar em um “novo Mediterrâneo”, com cidades e vilas surgindo no norte do Canadá, Alasca e Sibéria.

Tal cenário pode parecer improvável hoje, mas um Ártico livre do gelo teria muitos atrativos – um dos maiores seria a própria Passagem Noroeste, que reduziria imediatamente em mais de 8 mil quilômetros as rotas de navegação entre Ásia e Europa, atualmente feitas pelo Canal de Suez.

Entretanto, a maioria dos pesquisadores climáticos vê tal raciocínio com desespero. “É uma grande ironia”, diz Mark Serreze, do Centro Nacional de Neve e Gelo da Universidade do Colorado, “pensar que o derretimento da calota polar aumentaria o acesso a mais combustíveis fósseis, que aceleraria ainda mais o processo de mudança climática”.

“Há entre 150 mil e 200 mil massas de gelo no mundo, e a maioria delas está diminuindo”, diz Richard Armstrong, colega de Serreze. “Estimamos que entre 1961 e 2005 o derretimento das geleiras elevou o nível mundial do mar em 20 milímetros.”

É pouco – mas o volume representa a água de apenas 4% das geleiras do mundo. Só a calota de gelo da Groenlândia contém água suficiente para elevar o nível do mar em até 7 metros – e ela também já dá sinais de instabilidade.

(www.ecodebate.com.br) publicado pelo IHU On-line, 07/07/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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