áreas degradadas: A degeneração crescente do solo

A degradação do solo está aumentando em gravidade e extensão ao redor do mundo, conforme revelou semana passada um estudo da FAO, o organismo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Os danos alcançam 10% dos pastos, 20% das terras agrícolas e 30% das florestas por todo o globo – pondo em risco mais de 1,5 bilhão de seres humanos (um quarto da população mundial), que dependem diretamente destas terras. De acordo com a pesquisa, levada adiante nos últimos 20 anos, 46 milhões de brasileiros são afetados pelo fenômeno. Na China, onde a situação é mais grave, mais de 450 milhões de cidadãos estão às voltas com o problema, cuja solução depende bem mais do homem do que da natureza. Do Jornal do Brasil, 07/07/2008.

Além da diminuição da produtividade agrícola, o declínio do ecossistema traz como conseqüências a migração (o êxodo rural e o crescimento desordenado de áreas urbanas são situações conhecidas há décadas pelos brasileiros), a insegurança alimentar e a perda de biodiversidade genética e de espécies, devido a mudanças nos habitats. Isso significa que, de fato, toda a população de Terra está ameaçada de alguma forma pelo empobrecimento do chão em que pisamos, plantamos e colhemos. O estudo (disponível apenas em língua inglesa, com 60 páginas repletas de mapas e tabelas) confirma que, apesar da determinação dos 193 países que ratificaram a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, em 1994, a degeneração do solo só tem crescido.

Cerca de 22% das terras em processo de degradação estão em zonas ou muito áridas ou sub-úmidas secas, enquanto 78% estão em regiões úmidas. A principal causa do fenômeno, na avaliação dos cientistas, é a má gestão da terra. O texto não comenta em detalhes, mas sabe-se que a crescente procura por alimentos veio a resultar, nos últimos anos, num incremento da utilização de adubos, pesticidas e no alargamento do cultivo para zonas marginais. Em conseqüência, vastas áreas florestais têm sido destruídas, aumentando a susceptibilidade à erosão, bem como promovendo a contaminação dos solos com substâncias indesejáveis, genericamente chamadas de agrotóxicos.

No entanto, o relatório deixa entrever alguma esperança. A pesquisa identificou uma série de lugares onde o solo é utilizado de forma sustentável (19% das terras agrícolas) ou se está alcançando maior qualidade e produtividade (10% dos bosques e 19% dos pastos). Boa parte dos avanços está associada à irrigação ou ao replantio de cobertura florestal. Prova de que a agricultura tecnologicamente avançada e o cultivo sustentável podem reverter o quadro aterrador que ora se apresenta.

O levantamento da ONU vem no exato momento em que o governo brasileiro apresenta o Plano Agrícola e Pecuário 2008/2009, com metas e números bastante ambiciosos. A nova safra começa em setembro e, até lá, não faltarão recursos para o plantio e a comercialização. Um total de R$ 65 bilhões serão repassados a médios e grandes produtores, e mais R$ 13 bilhões serão destinados à agricultura familiar. A expectativa do Planalto é que a produção cresça 5% na próxima safra, atingindo os 150 milhões de toneladas de grãos, fibras e cereais, o maior volume já registrado. A aposta é que a oferta mais farta de alimentos possibilitará um recuo nos preços e, portanto, menor pressão inflacionária. Mas é preciso lembrar que mesmo o “celeiro do mundo” não está livre do longo e gradual processo de empobrecimento do solo – que, um dia, pode cobrar um preço alto demais.

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