Teologia da Libertação: um olhar pastoral, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

[EcoDebate] 1. Esses tempos um texto de Clodovis Boff suscitou um intenso debate sobre a Teologia da Libertação. Suas afirmações, entretanto, também abrangem o campo pastoral, inclusive das Pastorais Sociais. Extremamente contundentes, não deixam de provocar pessoas – que como eu – há décadas trilham os caminhos das Comunidades Eclesiais de Base e Pastorais Sociais. Imagino que devem ter impactado muitos outros que também fazem esse percurso. Quero comentar apenas alguns aspectos que me parecem mais chaves, utilizando suas frases de forma aproximada, não exatamente literal.

De Clodovis, além dos livros e textos, guardo a imagem de muitos anos atrás, quando ele esteve várias vezes aqui na Diocese de Juazeiro para nos assessorar. Duas frases suas são inesquecíveis para mim: “o pobre é o único sacramento realmente universal”. A segunda, dita em uma das palestras: “temos que ser bons de luta e bons de oração”.

O texto de Clodovis causou polêmica por uma afirmação central: “há um erro fundamental – quiçá mortal – na Teologia da Libertação que deriva para uma pastoral também errônea”. O erro teológico fundamental seria: “o centro da fé cristã é o Cristo, não o pobre”. Por conseqüência, a pastoral tem que partir do Cristo, não do pobre. Afirma ainda que “o ser cristão implica em ir ao pobre, mas ir ao pobre não implica necessariamente em ir ao Cristo”.

2. Como experimentamos essas afirmações na prática pastoral? Não há dúvida que para um cristão, que fez a experiência do “encontro com o Cristo”, o Cristo vem em primeiro. Para quem recebeu o privilégio da experiência pessoal das mãos de Deus esse é o ponto fundamental de partida. Mas não é verdade pastoral que ao “encontrar o Cristo os cristãos irão automaticamente ao pobre”. A América Latina, com seus milhões de pobres e oprimidos, é a prova dos nove que muita gente – se não estiver mentindo -, faz a experiência do Cristo, mas nem por isso vai ao pobre. Muito menos vão às raízes das injustiças estruturadas e estruturantes, foco principal da reflexão teológica e da prática pastoral de libertação.

Por outro lado, fazemos pastoralmente a experiência concreta que, muitas pessoas distantes da religião, do cristianismo, encontraram ou reencontraram sua fé a partir do engajamento prático junto aos pobres. Foi a partir dos pobres, do testemunho de cristãos engajados junto a eles, que conseguiram ver o rosto do Cristo.

Ainda mais, se para os cristãos o Cristo é o ponto de partida, não o é para a grande maioria da humanidade. Para esses, segundo a revelação bíblica, o Cristo, mais que “ponto de partida”, é o “ponto de chegada”. A revelação bíblica nos ensina, sobretudo a partir do capítulo 25 de Mateus, que pessoas podem fazer seu percurso histórico “sem nunca terem ouvido falar do Cristo”, mas podem encontrá-lo no “momento decisivo”. Vão se surpreender em tê-lo conhecido, mesmo sem o conhecer. Um texto tão chave não pode ser acusado simplesmente de “garimpagem bíblica”.

Clodovis, ao determinar um ponto único de partida, o Cristo, fecha portas que o próprio Deus nos abriu pela revelação bíblica. O Deus bíblico parece muito mais generoso, muito mais ecumênico, muito mais misericordioso que o Deus desse raciocínio teológico.

3. Segundo ele, um erro pastoral derivado do erro teológico se materializa nas pastorais sociais. Fala em sua onguisação. O risco é real. Uma pastoral social que não cultiva “a luta e a oração”, corre mesmo o risco de se tornar uma Ong. Mas, quando ele generaliza, se torna injusto. Há multidões de agentes pastorais suportando o peso duro da cruz de cada dia para estar a serviço dos pobres, alimentados pela fé no Cristo, pela oração e pela opção real de vida que fizeram. As próprias comunidades, as que restaram, prosseguem suas lutas por melhores condições de vida fundadas e alimentadas por sua fé. Muitos morreram por sua opção. Portanto, temos muitos erros e falhas, mas é bom lembrar que, em nenhum momento da Igreja, ela foi totalmente fiel ao seu fundador. Não pode cobrar de nós o perfeccionismo que jamais existiu.

4. Há uma crítica ao catolicismo popular, devocional, como inconsistente. Oras, a região onde esse catolicismo é mais enraizado é exatamente no Nordeste. Exatamente aqui o catolicismo permanece menos vulnerável, estatisticamente mais numeroso. E não falta TV de todas as matizes religiosas para fustigar a fé do povo. O esvaziamento católico se deu nos grandes centros, onde a Igreja não soube estar no meio das multidões perdidas nas periferias. Os evangélicos pentecostais souberam.

No Nordeste, a evangelização de Ibiapina, Pe. Cícero é o que de melhor ficou na região. Basta se aproximar dos quase 600 mil romeiros que vão ao Juazeiro do Norte na festa de Pe. Cícero para ver que ali está apenas o catolicismo que o povo moldou para si. Ele não é nem melhor, nem pior que o catolicismo vivido dentro dos muros do Vaticano ou dos conventos religiosos. O fato de ser devocional não anula que seja de convicção e fidelidade.

5. O texto é extremamente entusiasta do documento de Aparecida. Pessoalmente estive presente em alguns encontros preparatórios, sobretudo eventos que preparam a questão ecológica e social do documento, a convite do Cardeal Maradiaga, de Honduras, então responsável pelo setor no CELAM. O resultado final, nesse sentido, é discreto. Medellín e Puebla foram muito mais contundentes e proféticos.

O texto traz a novidade da insistência missionária. A dúvida é qual realidade pastoral de fato pode existir por detrás dessa intencionalidade. Não há grande entusiasmo sem uma grande causa. O grande entusiasmo pastoral conhecido na América Latina foi quando a Igreja fez a opção pelos pobres e muita gente saiu de seu conforto pessoal, da vida estabelecida e foi lá onde os pobres estavam. Esses, uma vez mais organizados e conscientes de sua cidadania social e eclesial, assumiram sua fé, suas comunidades, suas lutas pela justiça. As poucas melhorias que tivemos aqui pelo Nordeste, como a consciência política, acesso à água, o salário mínimo dos rurais, etc., teve intensa participação dos pobres das CEBs. Por isso, foi cruel, quando da volta da grande disciplina, ver gente do povo, agentes pastorais, etc., simplesmente serem afastados, quase que excomungados da participação eclesial, como “pessoas não gratas” ao novo contexto eclesial.

O texto de Aparecia é moderado, não provoca grande entusiasmo e não será um texto que irá suscitar uma nova onda missionária na Igreja. Os tempos são outros, mais ecumênicos, mais plurais e nós católicos já não teremos hegemonia na sociedade brasileira.

6. Surge o terrível desafio ecológico que teremos que enfrentar – já estamos enfrentando – a partir de nossa fé. São questões que interessam a toda a humanidade, a toda a comunidade da vida. Só poderemos estar abertos à totalidade se olharmos as pessoas, a comunidade da vida, a história, a Terra, o Universo, a partir do princípio teológico do “Reino de Deus e sua justiça”. Nosso Deus é e sempre será infinita beleza e infinita sedução.

Embora cause tanto desconforto nos nossos meios católicos, o princípio teológico do Reino de Deus se fez princípio pastoral. Ou nós que trabalhamos pastoralmente olhamos o mundo assim, ou praticamente ficaremos ilhados.

É uma época de mudanças e, sem dúvida, também precisamos mudar. Essa é uma exigência permanente da metanóia cristã. Mas é sempre preciso perguntar: para onde? Termino com um Hay Kay de D. Hélder Câmara, fiel ao Cristo e aos pobres até o fim:

“Feliz de quem entende
Que é preciso mudar muito
Para ser sempre o mesmo”.

Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra-CPT, colaborador e articulista do EcoDebate.

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