Projeto Neutralização de Carbono e Desenvolvimento Social é apresentado em Itaguaí, RJ

A Câmara de Cultura, no dia 03/07, apresentou o projeto “Neutralização de Carbono e Desenvolvimento Social”, em palestra realizada na Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca do município de Itaguaí.

A coordenação do projeto, há quase dois anos, trabalha no desenvolvimento de um projeto de neutralização de carbono em áreas degradadas a serem recuperadas, partindo do conceito de que as áreas degradadas devem ser foco principal em programas de neutralização de carbono.

Como áreas degradadas prioritárias foram definidas as áreas de preservação permanente (matas ciliares e encostas instáveis) e reservas legais. Sempre que possível será dada prioridade às áreas que possam formar corredores ecológicos.

Em termos simplificados, o projeto foi concebido com alguns conceitos essenciais: Recuperar e revitalizar áreas degradadas; Neutralizar carbono; Gerar emprego e renda; e Ação complementar de segurança alimentar

De acordo com o ambientalista Henrique Cortez, coordenador do portal e do blog Ecodebate, a idéia é simples – a área é “dividida” em mosaico, com 50% para revegetação com árvores nativas da região e 50% com pinhão manso ou outra árvore produtora de biodiesel adequada à área.

A proposta base visa a) Recuperação de áreas degradadas com plantio, em mosaico, de árvores nativas e árvores produtivas (pinhão manso ou palma, para biodiesel, ou seringueira para borracha natural); e b) Utilização das áreas marginais do projeto para hortas comunitárias

Os temas centrais do projeto foram apresentados pelo ambientalista Henrique Cortez, em entrevista. Eis a entrevista:

O projeto é semelhante ao que já existe no mercado, oferecido pelas empresas de consultoria ambiental. Qual o diferencial?

Henrique Cortez – A metodologia é semelhante, mas o conceito e a lógica do projeto são muito diferentes. A nossa lógica é muito diferente das empresas de consultoria que mercantilizam a neutralização de carbono.

Nosso conceito é essencialmente sócio-ambiental, no qual integramos a neutralização de carbono com a geração de emprego e renda.

O primeiro diferencial é que concebemos o projeto também como instrumento de geração de emprego e renda. Os trabalhadores seriam contratados no entorno e organizados em cooperativa. Eles teriam remuneração, cesta básica, etc, e, quando estivesse em produção, a cooperativa seria remunerada com 50% da receita líquida.

O segundo está no fato de centrarmos a nossa preocupação na recuperação da área degradada com árvores nativas da região combinadas com a produção de biodiesel sem monocultura. É uma variação do conceito de agrofloresta.

Em termos ambientais é um modelo de seqüestro de carbono como o MDL?

Henrique Cortez – O mecanismo de desenvolvimento limpo possui uma concepção diferente, embora também seqüestre carbono. No MDL uma empresa “compra” um direito de emissão, tendo em vista a aquisição de certificado de seqüestro de carbono (pelo plantio de árvores, pela redução da emissão de metano em aterros, etc) que a autoriza a emitir uma determinada tonelagem de carbono. É, em certo sentido, um alvará de emissão.

No nosso caso, com neutralização de carbono, a empresa patrocinadora tem uma concepção de responsabilidade muito diferente. Em primeiro lugar ela reconhece a necessidade de reduzir as suas emissões e, enquanto trabalha para isto, neutraliza as suas emissões através do plantio de árvores, sem qualquer subsídio ou benefício fiscal por isto.

Mais do que uma diferença técnica, é uma grande diferença ética. No MDL a empresa mantém as suas emissões e “paga” por este privilégio e, na neutralização de carbono, a empresa resolve reduzir e neutralizar as suas emissões, também “pagando” por isto.

Uma outra diferença é que os projetos comerciais são baseados em monoculturas comerciais, com destaque para o eucalipto. Fazem o reflorestamento, mas não, necessariamente, a recuperação da área.

Nós estamos propondo algo muito diferente e que, ao usar 50% do plantio de árvores nativas da região, também fará a recuperação da área degradada e auxiliará na recuperação das reservas hídricas do entorno.

Nossa prioridade está na recuperação de áreas de preservação permanente e em reservas legais. Na medida do possível, também pretendemos que a recuperação seja realizada em áreas públicas degradadas pela exploração privada ou em assentamentos da reforma agrária, que ainda não estejam com sua capacidade produtiva viabilizada.

Por que as áreas públicas ou os assentamentos da reforma agrária?

Henrique Cortez – Existem milhares de hectares de áreas públicas que foram utilizadas para fins privados, principalmente em pecuária e depois de degradas foram abandonadas. É a velha história da privatização do lucro com a estatização do prejuízo.

É natural portanto que elas sejam foco de recuperação, principalmente gerando emprego e renda para a população do seu entorno.

No caso dos assentamentos, é importante destacar que muitos foram efetuados em áreas degradadas, tornadas improdutivas pelo uso intensivo e ganancioso. Depois foram abandonados à própria sorte, sem apoio, financiamento, logística ou orientação técnica. Muitos também sofrem com a escassez hídrica em razão do esgotamento da área.

O projeto permitirá a recuperação da área, implantará a produção de biodiesel e, ao mesmo tempo, permitirá que os aqüíferos sejam recuperados e recarregados.

É a essência da nossa concepção, integrar cidadania e meio ambiente.

Qual a relação de áreas degradadas com reservas hídricas?

Henrique Cortez – Em termos simplificados, a recuperação de uma área degradada não apenas recupera o solo e sua fertilidade, como também recupera o potencial de infiltração da chuva e, por conseqüência, da recarga dos aqüíferos. Utilizando a modelagem de mosaico, também contribui para a sobrevivência de aves nativas, que, por sua vez, atuam na disseminação de sementes, aumentando a área revegetada.

Muitas áreas degradadas tendem à desertificação e a sua recuperação, neste sentido, é mais importante ainda.

E a receptividade pelos potenciais patrocinadores?

Henrique Cortez – É natural encontrar resistências a qualquer idéia inovadora. Muitas empresas já conhecem o conceito e o método das empresas de serviços ou consultoria, que vendem neutralização de carbono, mas não tem tanta facilidade em compreender um projeto com concepção sócio-ambiental.

Em termos empresariais é sempre mais fácil compreender um projeto comercial, com fins lucrativos, do que um projeto sócio-ambiental sem fins lucrativos. É uma questão de formação e treinamento de seus executivos, que raramente estão qualificados para analisar e compreender uma modelagem completamente diferente de seu cotidiano de negócios.

Mas, como disse antes, defender um projeto sócio-ambiental exige uma enorme dose de perseverança e paciência . Neste caso não será diferente.

Mas isto não inviabiliza o projeto e o conceito?

Henrique Cortez – Atrasa, mas não inviabiliza. A neutralização de carbono é uma necessidade real, que ganha importância a cada dia, diante do aquecimento global e das mudanças climáticas. Algumas empresas adotarão a neutralização desde agora, outras só diante do caos climático, mas o conceito vai se firmar de um jeito ou do outro.

E se as empresas vão investir na neutralização de carbono, por que não faze-lo em projetos que recuperem áreas degradadas, que reponham árvores nativas, que produzam biocombustíveis e gerem emprego e renda?

Na prática, será uma maneira de diferenciar as empresas com real responsabilidade social e ambiental, das que apenas praticam o marketing verde, sem maiores compromissos ou responsabilidades.

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