Nordeste enfrenta alto risco de desertificação

Baixos índices de precipitação e atividade agrícola inadequada podem prejudicar região. Fenômeno é uma tendência que se observa em outras regiões do mundo. Do G1, em São Paulo, 04/07/2008.

O aumento das temperaturas mínimas no planeta, os baixos índices de precipitação e a atividade agrícola inadequada podem levar parte do Nordeste à desertificação. A afirmação é do professor Augusto José Pereira Filho, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (IAG – USP).

De acordo com o especialista, o processo de desertificação é uma tendência que se observa em outras regiões do mundo, com a Austrália, os Estados Unidos e a China.

Parte do crescente aquecimento global, segundo o professor, é causada pelo efeito estufa (conseqüência da alta concentração de gás carbônico na atmosfera) e pelo aumento da atividade industrial e de urbanização. Vale destacar que os dados apontam estimativas, e podem sofrer variações não previstas pelos estudos. “As causas são muito mais complexas do que aparentam, porque derivam da interação entre a atmosfera, a hidrosfera, entre outras coisas. São tantas as variáveis, que temos uma grande incerteza sobre o futuro”, afirma Pereira Filho.

Em 100 anos, segundo estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a concentração de gás carbônico tende a dobrar e aumentar ainda mais a temperatura do planeta. Os dados foram apresentados no 2º Encontro Nacional sobre Mudanças Climáticas, realizado nesta semana, em São Paulo. “Estamos correndo contra o relógio”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Ecologia e de Prevenção à Poluição (Abeppolar), Randolpho Marques Lobato.

Situação no Nordeste

Na América do Sul, de maneira geral, o tempo deve ficar mais úmido com as mudanças climáticas previstas para os próximos anos. No Nordeste brasileiro, no entanto, o tempo deve ficar ainda mais seco e as áreas de deserto, em uma faixa que chega a São Paulo e Paraná, tendem a aumentar. A qualidade do ar também deverá ser prejudicada. Sua baixa umidade relativa, segundo especialistas, aumentará a poluição e os problemas respiratórios da população.

“A variabilidade climática e a ausência de chuvas no Nordeste deixam a região mais suscetível à desertificação. Os prejuízos causados por essa transformação no ambiente são muitos, entre eles a erosão, que pode levar a uma situação de extrema calamidade nas áreas atingidas”, diz Pereira Filho.

Ainda segundo Pereira, em regiões propensas a menos chuvas, o uso abusivo do solo o deixa estéril, sem capacidade de produção. “Essas condições, associadas, podem levar à desertificação”, diz.

De acordo com o coronel do Exército José Luís D’Ávila Fernandes, diretor de Reabilitação e Reconstrução da Secretaria Nacional de Defesa Civil (Sedec), há três anos não há suspensão da operação carro-pipa no Nordeste. “Costumávamos interromper a operação quando havia recarga natural nos mananciais da região, mas há três anos não tem sido possível essa interrupção. É um problema muito sério que já estamos enfrentando”, diz.

Impactos da atividade humana

Parte do aquecimento do planeta independe da atividade humana, já que corresponde a um processo natural. Outra parcela da responsabilidade pelo aumento no número de fenômenos naturais no Brasil, no entanto, é do homem.

“A redução nas áreas vegetadas em grandes cidades e o aumento de área urbana ampliam a incidência de mudanças climáticas e os desastres naturais passarão a ser cada vez mais freqüentes e mais graves”, afirma Pereira.


Mapa aponta média de chuva acumulada no país entre 1961 e 1990. Índices mais baixos de precipitação são verificados no Nordeste do país (Foto: Reprodução/Inmet)

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