Por que o pesadelo da fome está crescendo

Uma multidão armada de bastões incendeia amontoados de pneumáticos e por trás da espessa fumaça enfrenta a polícia numa selvagem guerrilha urbana em Mogadiscio, na Somália. O governo das Filipinas é constrangido a anunciar uma distribuição emergencial de arroz à população de Manila. A Índia proíbe por lei à Bolsa de Mombaim as transações financeiras sobre “futuros” de produtos agro-alimentícios. Ocorridos no mesmo dia, estes três eventos são a face da mesma crise. Entre a espiral inflacionária e estrangulamentos das trocas nos mercados mundiais, o espectro da fome volta a estender-se sobre todo o planeta.O presidente do Banco Mundial Robert Zoellick adverte que de um só golpe “cem milhões de pessoas estão mergulhando na desnutrição” e, conseqüentemente, pelo menos trinta países correm o risco de se precipitar na instabilidade política e na violência. E o World Food Program, agência da ONU especializada nas ajudas alimentares? Encontra-se quase sem fundos e lança um SOS aos países membros. O secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, convoca uma cúpula extraordinária sobre a fome nos primeiros dias de junho, em Roma. A reportagem é de Federico Rampini e publicada pelo jornal La Repubblica, 27-05-2008.

O alarme se difunde rapidamente da África à Ásia e à América Latina, onde o governo de Haiti foi envolvido e constrangido às demissões após as revoltas pelo custo alimentar. Até nos Estados Unidos, a nação mais rica do mundo, a Administração Bush é constrangida a aumentar os “food stamps” – bônus para a distribuição de comida – aos seus cidadãos pobres.

O flagelo da fome naturalmente sempre existiu. O estudioso suíço Jean Ziegler, assumindo seu cargo de inspetor especial da ONU sobre o “direito à alimentação”, em abril de 2001 declarava: “Num mundo que transborda de abundância é um escândalo vergonhoso que 826 milhões de pessoas sofram de fome e que 36 milhões morram cada ano por falta de comida”. Mas, a crise de 2008 tem características inéditas. Não atinge somente os deserdados, aquela faixa da população mundial que vive sob o limiar da pobreza extrema, ou seja, com menos de um dólar ao dia. A inflação que duplicou os preços do grão e do milho nos últimos dois anos, e encareceu em 150% o arroz desde o início de 2008, desta vez faz sofrer também aquelas populações urbanas dos países emergentes que haviam se afastado da fome. Demonstram-no os “tumultos do pão e do arroz” que explodiram nos últimos meses.

Há anos nos habituáramos a considerar a desnutrição como um mal quase circunscrito à África sub-saariana. Em vez disso, os protestos atuais irrompem em todas as outras regiões do mundo, em áreas que haviam sido beneficiadas pelo recente crescimento econômico. Do Cairo a Manila, de Jacarta às cidades do Marrocos da Jordânia, as manifestações e as greves contra o custo dos alimentos são um fenômeno urbano comum. O Paquistão precisou distribuir “cartões de racionamento”, a Síria e o Egito concederam com urgência aumentos salariais de 25% aos próprios funcionários públicos, que por certo não é o setor mais frágil da sociedade.

A fome que invade as cidades é politicamente a mais desestabilizante, porque atinge categorias sociais aguerridas. Por suas características de todo inusitadas, esta emergência colheu despreparados os peritos. Ninguém a viu chegar, porque não corresponde à tipologia das crises alimentares do passado. O mundo havia atravessado periódicas explosões de inflação por penúria de gêneros agro-alimentares? Como os graves dissabores concentrados nas populações pobres? Mas, a causa desencadeadora era habitualmente uma queda de colheitas, provocada, por sua vez, por calamidades naturais, como estiagens e inundações. Ou então, a escassez de comida era o efeito colateral de emergências humanitárias em países atingidos por conflitos militares, guerras civis, genocídios étnicos.

Em todo caso, o problema era quase sempre a insuficiência de alimentos disponíveis provocada por uma crise na oferta, segundo o termo usado pelos economistas. Hoje, ao invés, estamos ante uma crise provocada pela demanda. A verdadeira novidade tem sido a explosão do consumo alimentar em áreas do mundo de forte crescimento econômico (China e Índia, mas não só). Nesta tendência de longa duração, tão potente a ponto de haver alterado os equilíbrios mundiais, se desencadearam reações e contra-reações que pioraram os problemas, fazendo-os precipitar-se.

O economista Jeffrey Sachs, que dirigiu o Millenium Project das Nações Unidas, sintetiza deste modo as quatro causas da emergência alimentar: “A primeira é a produtividade cronicamente baixa dos agricultores nas nações mais pobres, porque não podem permitir-se a aquisição de sementes e fertilizantes, nem o acesso à irrigação> A segunda é a política errônea de apoio aos biocombustíveis, seguida pelos Estados Unidos e pela União Européia. A terceira é a alteração climática. A quarta é o crescimento da demanda global de alimentos, provocada pelo aumento dos ganhos de populações gigantescas”.

De fato, no entanto, o segundo e o quarto fator são os verdadeiramente novos e explosivos de imediato. Os seus efeitos se sobrepõem. A demanda de milho para o Bioetanol entrou em direta concorrência com o uso do milho como ração animal. Centenas de milhões de famílias asiáticas que só recentemente conquistaram o acesso a dietas alimentares mais ricas? Incluindo carne? Entram em competição com os nossos (e seus) automóveis para as mesmas colheitas. Os equilíbrios dos mercados mundiais foram convulsionados por este aumento da demanda de consumo, de proporções tais que ninguém o havia previsto.

As reações dos governos até este momento não fizeram senão agravar a crise. Os erros são igualmente repartidos entre os países ricos do Ocidente e as novas nações emergentes. Todos fizeram sua parte para acelerar a espiral. A corrida aos biocombustíveis faz com que nos Estados Unidos um terço da colheita anual de milho seja “seqüestrado” pela indústria produtora de etanol, graças aos generosos incentivos fiscais. Já há tempo que os cientistas ambientalistas demonstraram que os biocombustíveis não reduzem a emissão de CO2, mas sobre este negócio jamais perdura um lobby potentíssimo que não acabe desistindo. A União européia continua sendo circundada por altas barreiras de protecionismo agrícola que têm efeitos desestimulantes sobre a produção nos países do hemisfério Sul.

Os governos asiáticos e africanos têm reagido às desordens sociais “esterilizando” os mercados internacionais dos produtos agrícolas até quase sufocá-los. Com o intento declarado de dar precedência à auto-suficiência alimentar para as próprias populações, os maiores produtores de arroz, China, Índia, Tailândia e Vietnã limitaram as próprias exportações. É uma corrida ao açambarcamento de alimentos que atinge os mais débeis: os países que não produzem o suficiente têm uma necessidade desesperada de acesso aos mercados mundiais para saciar a fome dos próprios habitantes.

A crise atual põe à prova a teoria do Prêmio Nobel indiano Amartya Sen, segundo o qual as democracias não produzem carestias, porque permitem a livre expressão dos protestos sociais e por isso reagem mais eficazmente. É verdade que as ditaduras não são um modelo: a carestia provocada após o ciclone na Birmânia por uma junta militar que recusa a ajuda externa é disso a enésima prova. Mas até agora, nesta crise alimentar também as democracias cometeram erros descomunais, dos subsídios aos protecionismos. A nova fome é, sob todos os efeitos, um fenômeno político: não nasce de eventos naturais, mas de erros de cálculo, imprevidência, medidas demagógicas e contraproducentes.

(www.ecodebate.com.br) publicado pelo IHU On-line, 30/05/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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