Após polêmica, Inpe adia anúncio de desmate

Para evitar mais polêmica, a direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) adiou a divulgação de sua análise sobre desmatamento na Amazônia no mês de abril, que estava marcada para ontem. Pretende debater os resultados com o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que toma posse hoje. A intenção é divulgar os resultados ‘dentro de um contexto técnico-científico’ e não em um ‘momento político’. Por Simone Menocchi e Wilson Tosta, do O Estado de S.Paulo, 27/05/2008.

Desde quarta-feira, Minc e o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), vêm trocando farpas sobre responsabilidades e medidas necessárias para controlar a devastação da floresta. Sem citar números, Minc adiantou na semana passada que os números seriam negativos, apontando alta dos cortes – e, do total de desmate, 60% teriam ocorrido em Mato Grosso. Maggi rebateu afirmando, entre outras coisas, que os dados do Inpe ‘apresentam distorção’. Os dados, captados pelo Sistema de Detecção em Tempo Real (Deter), que monitora por satélite a devastação na Amazônia desde 2004, serão passados primeiro ao novo ministro.

SEM DATA DE DIVULGAÇÃO

O Inpe quer promover ‘análise e discussão interna’ sobre os resultados entre representantes dos ministérios da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente. Não há data para a divulgação ao público. O que se sabe, até agora, é que em abril houve menos nuvens na região, o que favoreceu a obtenção de dados mais precisos. A cobertura de nuvens foi de 81% em janeiro, 70% em fevereiro e 21% em março.

Em março deste ano, por exemplo, 78% da Amazônia estava coberta de nuvens. Mato Grosso, Pará e Roraima tiveram 69%, 95% e 96%, respectivamente, dos territórios cobertos de nuvens.

Em abril, 53% da Amazônia esteve sob nuvens, sendo que em Mato Grosso a nebulosidade foi de 14%. Pará e Roraima estavam com 89% e 5% de cobertura de nuvens. Isso indica que a oportunidade de observação para Mato Grosso aumentou muito de março para abril.

A AMAZÔNIA É NOSSA

Com um discurso marcado por ataques aos países desenvolvidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva repudiou ontem as pressões internacionais sobre a preservação da Amazônia, reafirmou que o Brasil é o dono da região e conclamou os brasileiros a defenderem os biocombustíveis nos debates sobre energia e meio ambiente.

Segundo Lula, a Amazônia pertence ‘ao povo brasileiro’ e deve ser preservada, mas seus habitantes também têm direito ao desenvolvimento.

O presidente afirmou que o Protocolo de Kyoto – acordo para limitar as emissões de gases-estufa que não foi referendado pelos EUA – ‘já faliu’, e agora as nações ricas tentam responsabilizar a América Latina.

‘O mundo precisa entender que a Amazônia brasileira tem dono’, disse Lula, sob aplausos, em discurso na abertura do 20º Fórum Nacional, na sede do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio. ‘E o dono da Amazônia é o povo brasileiro. São os índios, são os seringueiros, são os pescadores, mas também somos nós, que somos brasileiros e temos consciência de que é preciso diminuir o desmatamento sim, é preciso diminuir as queimadas sim. Mas também temos consciência de que precisamos desenvolver a Amazônia.’

Lula declarou ainda que o debate sobre a Amazônia dominará as duas próximas décadas. ‘É muito engraçado que os países que são responsáveis por 70% da poluição do planeta agora fiquem de olho na Amazônia, na América do Sul, como se fosse apenas nossa a responsabilidade de fazermos o que eles não fizeram durante todo o século passado’, declarou. ‘O Protocolo de Kyoto já faliu. Foi muito bonito assinar, maravilhoso, todo mundo assinou. Agora, quem tinha de tomar medidas para cumprir o Protocolo de Kyoto nem referendou. Fomos nós que referendamos.’ Lula também afirmou que considera as críticas que têm sido feitas aos biocombustíveis – que estariam causando a alta internacional de preços dos alimentos – como uma orquestração contra o País.

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