A geografia dos canaviais, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] É bem provável que, nessa história de agrocombustíveis, o Maranhão seja visto como a periferia da periferia assim como já é visto com relação à produção da soja para alimentos. Os maranhenses deveriam dar graças a Deus que o Maranhão possui as piores terras para a produção de grãos em todo o Brasil, como se enfada de dizer o atual presidente do sindicato de empresas de ferro-gusa do Maranhão, o senhor Cláudio Azevedo, mas constrange a inteligência de qualquer bom samaritano que o estado sequer tenha sido lembrado na defesa do etanol quando da visita da chanceler alemã Ângela Merkel.

Os afortunados empresários do setor sucro-alcooleiro paulista assustam qualquer um com sua geografia dos canaviais, na qual a monocultura permanece extática em São Paulo sem apelar para novas áreas na Amazônia ou áreas próximas a ela. Uma geografia desse tipo só existiria em livros de décadas atrás que formavam estudantes em uma Geografia acrítica e despolitizada que privilegiava a decoreba e contrasta com uma geografia que sai atrás para identificar as e ponderar sobre as transformações sócio-ambientais provocadas pela ação do homem no meio em que vive e no meio do qual ele vive. A Economia – os empresários a preferem em detrimento a outras ciências -, como ciência aparentada da Matemática, simplificaria essa ação humana no sentido de mera obtenção de recursos de um meio para a sua manutenção em outro e de tão raso do ponto de vista econômico quem investiria horas de trabalho para ponderar sobre as causas e as conseqüências “dessa mera obtenção de recursos”?

Cabe à Geografia descrever, além da superfície onde se pesquisam os recursos, as causas e as conseqüências “dessa mera obtenção de recursos” ou pelo menos relembrar aos afortunados que boa parte do estado do Maranhão interage com a floresta Amazônica ou com o que sobrou dela depois do desarrumo causado por madeireiras e siderúrgicas. O ritmo das chuvas que vai do começo de dezembro ao mês de maio exprimi o quanto o Maranhão intima a sua vida produtiva em consonância à umidade vinda da floresta.

É um crime contra a inteligência do indivíduo e contra a vida na zona rural que a legislação ambiental diferencie Amazônia, Cerrado e Caatinga num estado como o Maranhão. No Baixo Parnaíba, desmatam-se áreas de floresta amazônica para virarem pasto e, quem sabe, mais tarde cana. O quanto o ex-deputado Kleber Leite pode vir a desmatar num empreendimento consorciado com um grupo paulista no município de São Benedito do Rio Preto?
Na região dos Cocais, município de Aldeias Altas, a TG Agroindústrial desmata a área de transição do Cerrado para a Caatinga para o plantio de cana e barra afluentes do rio Itapecuru para reservarem suas águas para irrigação. Nessa zona limítrofe do desenvolvimento econômico e da expulsão de comunidades inteiras, não há boas vindas e o rótulo de combustível verde envelhece muito rápido na proporção que investimentos são feitos por grupos nacionais como a Andrade Gutierrez.

Esse texto contou com a participação da CPT Caxias e faz parte do projeto Desintoxicando os excessos do etanol: uma proposta de investigação da dinâmica e dos efeitos da propagação da cana de açúcar na região do Projeto Grande Carajás, projeto do STTR de Loreto, financiado pelo Centro de Apoio Sócio-Ambiental (CASA)]

Mayron Régis é jornalista do Fórum Carajás, colaborador e articulista do EcoDebate

Nota do EcoDebate

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