Relatório reafirma necessidade de planejamento familiar e acesso a contraceptivos

Os resultados do relatório Aborto e Saúde Pública, elaborado por pesquisadores de duas universidades brasileiras – de Brasília (UnB) e do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) – confirmam a posição do Ministério da Saúde de que a interrupção induzida da gravidez é um problema de saúde pública. A avaliação é do diretor do Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas do ministério, Adson França. Matéria de Adriana Brendler, da Agência Brasil.

Segundo ele, o relatório é a fonte mais qualificada dos últimos tempos sobre o problema do aborto no país, já que reuniu todas as evidências científicas sobre o tema e incluiu estudos realizados por métodos de urna, que diminuem o constrangimento para as mulheres pesquisadas, garantindo maior confiabilidade aos dados.

Para o diretor, a informação mais relevante do estudo é que a quantidade de mulheres que abortaram no país, cerca de 3,7 milhões, está bem acima da estimada em pesquisas anteriores, em torno de 1,5 milhão, e foi obtida a partir de questionamentos diretos às mulheres. “O quantitativo de interrupções é muito maior do que a gente falava que existia e que setores religiosos diziam que eram números exagerados”, afirmou.

França também destacou a constatação de que mais de 80% das mulheres que praticaram o aborto já eram mães. “Isso nos mostra que não se trata apenas de um problema inicial de desconhecimento de métodos ou de uma primeira relação sexual”.

Segundo ele, os dados apontam para a manutenção e o fortalecimento das ações que já vêm sendo adotadas pelo governo federal. “Com essa pesquisa, o ministério vai continuar na linha que vem trilhando: fortalecimento do planejamento familiar e amplo acesso gratuito a todos os métodos contraceptivos à população”, afirmou.

Segundo ele, neste ano, o Ministério da Saúde distribuiu 10 milhões de cartelas de anticoncepcionais orais e até outubro irá disponibilizar outros 50 milhões. Além disso, também irá repassar aos municípios, em 2008, cerca de 4 milhões de ampolas de anticoncepcionais injetáveis de doses mensais ou trimestrais e mais de 330 mil dispositivos intra-uterinos (DIU).

Ele lembrou ainda a reafirmação da política de estímulo à dupla proteção, com uso de preservativos associados a outros métodos anticoncepcionais, que além de evitar a gravidez protegem contra a aids e doenças sexualmente transmissíveis. De acordo com o diretor, do início do ano até agora foram distribuídos 22 milhões dos 122 milhões de preservativos comprados pelo ministério para 2008.

Para França, o fato de a maioria das mulheres que abortaram ter utilizado métodos contraceptivos, principalmente a pílula anticoncepcional, indica que eles não foram usados corretamente e aponta para a necessidade de aprofundar o trabalho de informação.

“ Nós temos que persistir na linha de informar quais são os melhores métodos e a forma correta de utilizá-los. A pílula é o método com quase 100% de segurança, um dos métodos mais eficazes em todo o mundo, mas tem que ser tomada diariamente, pois se houver interrupção quebra a proteção”, acrescentou.

O diretor informou que além de melhorar a informação sobre o uso dos anticoncepcionais, o ministério quer aumentar a utilização do DIU, que é usado por apenas 1,7% das mulheres brasileiras, enquanto na Europa e América do Norte esse percentual chega a 25%. Segundo ele, além de não exigir a intervenção diária da mulher para funcionar, o método dá de oito a dez anos de segurança ao casal contra a gravidez, sem oferecer efeitos colaterais dos medicamentos à base de hormônio, contra-indicados por exemplo para mulheres com problemas circulatórios ou histórico familiar de câncer de mama.

Além de ampliar a distribuição deoDIU para os municípios, uma das formas previstas de ampliar sua utilização será a qualificação de médicos de equipes do Programa de Saúde da Família, por meio de uma parceria com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Segundo o Ministério da Saúde, as complicações em decorrência do aborto são responsáveis por 11% a 13% dos cerca de 1.650 óbitos maternos registrados anualmente o país. O aborto induzido é a quarta causa da mortalidade materna, superada pela hipertensão arterial, hemorragias e infecções pós-parto, mas em algumas capitais como Salvador, o problema é a principal causa da mortalidade materna.

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