O principal vilão do desmatamento da Amazônia é o próprio governo, artigo de Nelson Batista Tembra

[EcoDebate] Grande parte da exploração econômica da Floresta Amazônica se dá de forma ilegal – o caso da extração de madeira, já que menos de 20% do setor age (ou agia) de acordo com as normas estabelecidas pelo governo. Ao ‘tapar o suspiro’ do setor abruptamente, o governo nivelou por baixo, não deixando alternativas de sobrevivência para milhares de trabalhadores e empurrando a maioria para a ilegalidade. Ou seja, fazendo uma analogia: estão roubando algodão e água oxigenada do hospital? Então fecha o hospital!

Uma parcela considerável do agro negócio que assegura os superávits comerciais brasileiros está na Amazônia. O maior rebanho do país se encontra na região, concentrado nos estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia; 33% das cabeças de gado no Brasil estão na Amazônia, que tem também o rebanho que mais cresce no país – 6,9% ao ano, muito acima da média nacional, de 0,67%, ou mais de dez vezes esse índice, de acordo com levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Ambas – agricultura e pecuária – são as responsáveis por 80% do desmatamento da região, ocupando uma área equivalente à de dois países do tamanho da Itália. As próprias reservas extrativistas do Acre, símbolo da propaganda ambientalista do governo e bandeira das várias ONGs em atuação na região, acabaram se revelando danosas para a floresta. Cerca de 36% da mata amazônica está no Pará.

A indústria é a principal atividade econômica da Região Norte, respondendo por 23% de seu produto interno bruto, contra 13% da agricultura e apenas 3% da pecuária. Quanto à questão do ecoturismo, há dúvida sobre se ele poderia se tornar uma atividade rentável na Amazônia, pelo menos na mesma proporção de países da América Central. Estimativas dão conta de que, mesmo com investimento na estrutura dos parques e na rede de transportes da Amazônia, o ecoturismo teria potencial para ocupar um modesto nicho de no máximo 2% da economia da região.

O sul e o sudeste brasileiro podem ser afetados por uma seca que poderá comprometer os rios da Bacia do Prata, grande fonte de energia hidrelétrica da América do Sul. No Brasil, alguns dos principais trabalhos sobre o fenômeno são da autoria dos pesquisadores Carlos Nobre, Marcos Oyama e Gilvan Sampaio. De acordo com os cálculos, a temperatura da Amazônia deverá subir 10 graus Celsius nos próximos 100 anos, e com isso – ou por isso – parte considerável da floresta será varrida do mapa.

Outra área em que os cientistas realizaram descobertas impressionantes é a da influência de uma eventual destruição da Amazônia no clima mundial. No fenômeno El Niño, o problema seria o aumento das tempestades no sul da Ásia. No caso da Amazônia, as diferenças de pressão atmosférica e umidade relativa do ar provocadas pelo desmatamento.

O efeito remoto da destruição da Amazônia é deletério para a economia brasileira. Há um consenso cada vez maior de que teremos uma grande queda de pluviosidade na Região Sudeste, comprometendo a Bacia do Prata e, conseqüentemente, grande parte da geração de energia do país.

Por questões atmosféricas, a maior parte dos desertos do mundo se situa em cinturões próximos aos trópicos de Câncer ou Capricórnio. Apenas na América do Sul, na região da Bacia do Prata, esse fenômeno não se verifica e uma das explicações para o fato é a existência da Floresta Amazônica. A massa de ar úmido que provoca chuvas na região meridional da América do Sul se origina no Atlântico tropical. A massa de ar segue seu curso, ricocheteia na Cordilheira dos Andes e acaba no sul do continente, garantindo que as áreas produtivas da região não sejam áridas como na Austrália ou na África na mesma latitude.

As práticas agrícolas inadequadas, o desmatamento, a pressão social, a ignorância, a omissão e as políticas públicas deficientes são fatores que causam a desertificação, agravada pelas evidências do efeito estufa, também atribuído às atividades humanas. Mas, um dos mais importantes obstáculos a superar é a ação política tradicional, baseada na exploração eleitoral, no abandono e no assistencialismo barato às populações mais fragilizadas. Infelizmente, milhares de brasileiros, especialmente os amazônidas, não terão a oportunidade de constatar se tudo isso é mesmo verdade, pois, até lá terão morrido de fome.

Nelson Batista Tembra, Engenheiro Agrônomo e Consultor Ambiental, com 27 de experiência profissional, é colaborador e articulista do EcoDebate

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