Relator da ONU pede moratória de etanol mas elogia projeto brasileiro

Jean Ziegler envia carta ao Itamaraty dizendo que país não deve ser criticado

BRASÍLIA e WASHINGTON. O mesmo relator para Direito à Alimentação da Organização das Nações Unidas (ONU), Jean Ziegler, que pediu ontem a suspensão temporária da produção de biocombustíveis, elogiou, há menos de dez dias, o programa de etanol e biodiesel brasileiro. Em carta encaminhada ao Itamaraty no último dia 21, Ziegler reconheceu que o caso do Brasil é diferente e, por isso, o país não pode ser acusado de usar alimentos para produzir essa fonte de energia. Por Eliane Oliveira e José Meirelles Passos, do O Globo, 29/04/2008.

“O caso brasileiro é realmente específico”, diz um trecho da carta.

A intenção do funcionário da ONU era reparar o que chamou de “mal-entendido”. Ele afirmou que houve má interpretação de um jornal francês a respeito de um relatório que apresentou nos dias 13 e 14 deste mês, em Nova York, sobre o direito à alimentação.

Ziegler também se mostrou preocupado com a resposta dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma declaração sua de que a produção em massa de biocombustíveis seria um crime contra a humanidade.

Na carta, Ziegler disse ter conversado com autoridades brasileiras sobre o programa de biocombustíveis do Brasil. Ele afirmou ter ficado “particularmente impressionado” com os programas sociais elaborados pela Petrobras, para ajudar os pequenos produtores que cultivam mamona e outros frutos de baixo valor de mercado. E citou ainda o fato de o Brasil extrair essencialmente o açúcar da cana, e não de outros alimentos básicos, numa referência indireta a países que utilizam, por exemplo, a beterraba, como os europeus.

Dilma defende etanol a empresários nos EUA Ziegler reafirmou sua posição de que está preocupado com as grandes quantidades de biocombustíveis são produzidas a partir de alimentos. Ele mencionou os Estados Unidos, que vêm usando milho para produzir etanol. Sobre o Brasil, o relator da ONU disse que vê aspectos “fortemente positivos” na estratégia brasileira. Ele finaliza a carta citando a reação de Lula às suas declarações e a defesa da produção dos biocombustíveis em países em desenvolvimento pelo presidente brasileiro. Ziegler pede ao Itamaraty que transmita sua posição a Lula.

Já a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, aproveitou a sua ida à Casa Branca, ontem, onde participou da segunda reunião do Fórum de Altos Executivos de Empresas Brasil-EUA, para fazer uma apaixonada defesa do etanol brasileiro – que, como disse, vem sendo vítima de “afirmações tendenciosas” em todo o mundo, apontado como culpado pelo aumento de preços dos alimentos.

Dilma disse que a culpa, na verdade, é do petróleo: – A participação do etanol na matriz energética internacional de combustíveis deve ser algo próximo do zero. Então o efeito dos combustíveis sobre o alimento se deve ao preço do petróleo.

Isso é um fato – disse ela, após a reunião.

A ministra disse que, na verdade, o que está causando a alta dos alimentos é o impacto do preço dos fertilizantes, da irrigação e do transporte: – Não me consta que os biocombustíveis participem de forma expressiva na matriz energética, na matriz de combustíveis internacional. Eles têm uma participação residual – insistiu a ministra.

Depois de dizer que repetira essa defesa do etanol tanto em sua recente viagem ao Japão, quanto à Coréia e, ontem, nos EUA, ele aproveitou a oportunidade para criticar os países ricos por continuarem subsidiando os seus produtores de alimentos e, no caso dos EUA, também os de etanol (através do milho): – Neste momento em que há toda essa pressão a respeito dos alimentos, é bom que os países desenvolvidos pensem a respeito de todos os mecanismos de proteção que fazem sobre a sua própria agricultura e que impede que a agricultura dos países em desenvolvimento, principalmente dos mais pobres, cresça e se expanda de forma sustentável.

Em Berna, na Suíça, o secretáriogeral da ONU, Ban Kimoon, reuniu as 27 agências internacionais da organização, para alinhavar uma posição conjunta contra o aumento dos preços dos alimentos, inclusive a FAO. Na reunião, Ziegler defendeu uma moratória na produção de biocombustíveis.

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