Agrotóxico é usado de forma indiscriminada no Ceará

Limoeiro do Norte. O cearense não sabe o risco que corre na ingestão de alimentos tratados à base de agrotóxicos. Que muitos alimentos naturais contêm venenos e são vendidos normalmente para consumo, o relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelou na semana passada, identificando excesso de agrotóxico em algumas frutas e verduras. Mas outras revelações têm passado despercebidas da maioria da população. A primeira é que apenas dois estados da região Nordeste enviaram produtos para análise laboratorial (somente um tem laboratório próprio) e o Ceará, um dos maiores produtores agrícolas do Nordeste Setentrional, não faz parte da lista divulgada pela Anvisa. Do Diário do Nordeste, CE, 29/04/2008.

A segunda constatação é que a mortalidade por câncer no Vale do Jaguaribe está bem acima da média mundial. Justamente na região em que mais cresce o agronegócio exportador cearense, pequenos e grandes produtores utilizam os venenos indiscriminadamente.

A reportagem constatou que qualquer pessoa pode comprar produtos agrotóxicos em alguns estabelecimentos de Limoeiro do Norte e Quixeré. De acordo com a Anvisa, o comércio do produto deve ser validado por notas fiscais e o descarte das embalagens deve ser monitorado. No entanto, consumidores e vendedores fazem vista grossa para a determinação. Pequenos comércios vendem o veneno como produtos comuns expostos em prateleiras.

Não existem provas da relação direta do aumento dos casos de câncer na região jaguaribana com o consumo de agrotóxicos. O fato de a quase totalidade da produção agrícola da Chapada do Apodi ser destinada para exportação refutaria a relação não fosse o flagrante da venda, nas ruas das cidades produtoras, de frutas que seriam exportadas e, por motivos dentre os quais o excesso de veneno, saíram das caixas de exportação. Em vez de eliminar os produtos irregulares, grandes empresas agrícolas alimentam o comércio informal local fornecendo, a baixíssimo custo, o produto a feirantes.

Outro problema constatado ocorre com a mão-de-obra nos perímetros irrigados. Trabalhadores que lidam com agrotóxicos reclamam de tonturas e desmaios cada vez mais freqüentes. A maioria usa Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), outros confessam que não gostam de usar, mesmo a empresa obrigando. Trabalhadores denunciam que grandes empresas agrícolas, que oferecem até atendimento médico no local, estariam, com esses profissionais, maquiando laudos para desviar a atenção sobre as reais causas das doenças dos trabalhadores.

Casos

O agricultor José Valderi Rodrigues, de Limoeiro do Norte, briga na justiça para conseguir aposentadoria por invalidez, após perder parte da perna direita por uma infecção que, segundo os médicos que amputaram o membro, teria sido causada por uma substância contida nos agrotóxicos que ele jogava na plantação. A empresa, que nega qualquer responsabilidade no caso, não teria fornecido Equipamento de Proteção Individual. O caso já faz três anos.

Outro exemplo é o que acontece, há oito meses, com outro agricultor, Edson Adriano de Carvalho. Ele foi demitido “por justa causa” da empresa Delmonte, em Limoeiro, supostamente por abandono da jornada. Mas a justiça deu-lhe ganho de causa indenizatória, pois comprovou a ausência ao trabalho por conta de internação hospitalar, inclusive com atestado médico. O profissional de saúde que o tratou alertou que a doença estaria se agravando no trabalho. A reportagem tentou falar com a Assessoria Jurídica da empresa, por telefone, mas não conseguiu até o fechamento desta edição.

Coquetéis de veneno

A seqüência de casos de anemias, fraqueza, tontura e doenças como hepatite são comumente relacionadas pelos médicos da região à baixa resistência de muitos trabalhadores ao contato, direto ou indireto, com os coquetéis de agrotóxicos, que causariam redução das hemácias, de glóbulos vermelhos e glóbulos brancos do sangue, afetando o sistema imunológico e abrindo caminho para doenças fatais.

A problemática envolvendo agrotóxicos na produção e no consumo de alimentos no Estado do Ceará é revisitada neste Caderno Especial do Diário do Nordeste, que volta a localidades do município de Limoeiro do Norte que, dois anos atrás, reclamavam do veneno jogado para preparar a terra na produção agrícola e levado pelos ventos até as residências.

Hoje o quadro é outro, pior: o reservatório de água que abastece algumas comunidades é o mesmo que abastece as máquinas que misturam água e veneno para expurgar em cima das plantações. Por vezes embalagens vazias são encontradas boiando nas águas – os peixes foram os primeiros na cadeia de contaminação.

Profissionais consultados pela reportagem foram unânimes em observar a inoperância governamental diante dos casos de agrotóxicos.

Os órgãos federais, como Ibama e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), bem como secretarias estaduais de Saúde e Agricultura não conseguiram resolver o problema da venda indiscriminada de produtos agrotóxicos principalmente nas cidades do Interior.

Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) têm constatado abuso de agrotóxicos na região da Chapada do Apodi, entre Limoeiro do Norte e Quixeré. O levantamento acontece desde a primeira denúncia realizada pelo Diário do Nordeste, há quase três anos.

Para combater várias pragas da lavoura alguns agricultores realizam, por conta própria, a mistura dos coquetéis de veneno. Um médico, que pediu para não ser identificado, disse que um paciente produtor de tomate com uso de agrotóxicos confessou que não comia do produto que plantava.

Mão-de-obra abundante, barata, ignorante, e o distanciamento de órgãos fiscalizadores são espécie de “incentivo fiscal” paralelo para atrair pequenos e grandes empreendedores no cada vez mais lucrativo mercado do agronegócio no Estado do Ceará.

FIQUE POR DENTRO

Pesquisa revelou excesso de resíduos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulgou, na quarta-feira da semana passada, o Programa Nacional de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), revelando que produtos como tomate, alface e morango estariam com excesso de resíduos tóxicos. O tomate está com 44,7% de contaminação, morango tem 43,6% e o alface está com 40% de contaminação. Das 1.198 amostras analisadas pela agência no ano passado em 16 Estados mais Distrito Federal, 207 (ou 17%) apresentaram resultados insatisfatórios, com os alimentos contendo resíduos de agrotóxicos não-autorizados ou acima do limite máximo permitido. As irregularidades também foram constatadas em banana (4,3%), batata (1,36%), cenoura (9,9%), laranja (6%), maçã (2,9%) e mamão (17,2%). O Ceará não esteve dentro da pesquisa.

RESÍDUOS TÓXICOS

Ceará não tem laboratório para análise

Limoeiro do Norte. O Ceará produz, em escala internacional, culturas como banana, milho, abacaxi e mamão, mas nem por isso esteve incluso no Programa Nacional de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Anvisa. A explicação dada por uma das coordenadoras do Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), Alice Ribeiro, foi que o Ceará ainda não está com seu laboratório preparado para a análise, só mesmo a partir do segundo semestre deste ano. Mas a pesquisa nacional da Vigilância Sanitária com 16 Estados mais Distrito Federal foi concebida em laboratórios de quatro Estados brasileiros. Ou seja, 75% dos Estados consultados na pesquisa não possuem laboratório, mas a análise foi feita.

Por ocasião de uma reunião extraordinária do Pacto de Cooperação da Agropecuária Cearense (Agropacto) em maio de 2007, no município de Limoeiro do Norte, o governador Cid Gomes disse à reportagem que “em questão de alguns meses” o Ceará estaria com laboratório pronto para a análise de resíduos tóxicos em alimentos – Pernambuco ainda é o único Estado do Nordeste a realizar tal tarefa. O laboratório cearense só deve sair no segundo semestre deste ano.

Na verdade, o local para as análises já existe, será no Lacen, e até material importado já foi comprado – estaria faltando só mais um cromatógrafo a gás. Conforme Alice Ribeiro, o trabalho de análise de resíduos “está em planejamento, talvez para o segundo semestre”, afirmou. O que está faltando é treinamento e qualificação de pessoal, o que deverá ocorrer, segundo Alice, no início do mês de julho com duração aproximada de 15 dias. Isso ainda não garante a participação do Ceará na próxima pesquisa. Para 2008, a Anvisa anunciou que mais dois laboratórios serão incorporados à rede que faz análise dos produtos: um em Goiânia (GO) e outro em Porto Alegre (RS).

Relatório

O relatório do PARA, da Anvisa, foi realizado com base nas análises de quatro laboratórios do País: Instituto Adolfo Lutz (IAL/SP), Instituto Otacílio Magalhães (IOM/MG), Laboratório Central do Paraná (Lacen/PR) e Instituto Tecnológico de Pernambuco (ITEP/PE). E foram criados pontos de coleta pelas secretarias de saúde de 16 estados.

Melquíades Júnior
Colaborador

Mais informações:
Pesquisa da Anvisa
www.anvisa.gov.br

Lacen
(85) 3101.1491

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