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Artigo

Desenvolvimento e produção destrutiva. Um falso dilema

“É possível preservar a floresta mantendo – a intocada, com utilização rudimentar de seu potencial, que pouco beneficia as comunidades tradicionais. Outro modo de mantê-la em pé é a abertura a novas oportunidades e interações, com o uso de artefatos que utilizem seu potencial sem destruí-la, encarando-a como fonte de afirmação da vida e distribuindo os lucros obtidos com a produção não predatória para muito mais gente”. A opinião é de Bertha K. Becker, professora emérita de geografia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e membro da Academia Brasileira de Ciências, e Roberto Bartholo, coordenador do programa de engenharia de produção da Coppe-UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia), no artigo “Uma via para a Amazônia”, publicado no jornal Folha de S. Paulo, 27-04-2008.

Eis o artigo.

O debate sobre o aumento das taxas de desmatamento na Amazônia no final de 2007 foi ocasião propícia para um ataque inédito de alguns interesses do setor agroindustrial atuando no Brasil central e na Amazônia ao Inpe, uma das instituições-chave do sistema brasileiro de ciência e tecnologia e da capacidade de formulação de caminhos próprios de desenvolvimento.

Não é inocente nesse contexto um doloso desconhecimento: ignorar que a ciência (aqui e em toda parte) avança por meio de acertos e erros. Pretender fazer de diferenças metodológicas sobre como detectar desmatamento e degradação a partir do espaço o argumento para deslegitimar nossa ciência pode ser um ato mais que destrutivo ao futuro do Brasil.

O nó da questão é o falso dilema entre conservação e desenvolvimento. Falso porque trata a conservação como sinônimo de preservação intocável e identifica o desenvolvimento com produção destrutiva, respaldado num histórico de agropecuária causadora de gigantesco passivo ambiental na Amazônia. Falso pois não admite a existência de diversos modos de modernidade e caminhos alternativos de desenvolvimento e pretende fazer da verdade complexa dessa questão pouco mais que uma caricatura simplista.

É grande a diversidade de interesses e agentes sociais que desejam o desenvolvimento da Amazônia com base na produção: vorazes grileiros e desflorestadores – “tradings”, grandes empresas e fazendeiros -, produtores familiares com diferentes graus de organização e empreendedorismo, produtores médios que produzem e mantêm suas famílias com boa qualidade de vida e alguns que já utilizam padrões mais avançados de produção.

É também grande a diversidade de interesses e agentes ambientalistas, desde os “amigos de Gaia”, passando por ONGs bastante diferenciadas em seus propósitos e interesses e chegando aos grandes bancos do capital financeiro globalizado, interessados na preservação em razão de interesses associados ao mercado de carbono.

O desenvolvimento da Amazônia não pode ser reduzido à lógica maniqueísta. É forçoso reconhecer que há bandidos e mocinhos em cada um dos lados da falsa polarização. É urgente escapar à armadilha do falso dilema para conceber uma via para a Amazônia na modernidade contemporânea.

Manter a floresta em pé interessa a todos que tenham um mínimo de sensatez e sensibilidade. O que está em jogo são os modos, as finalidades e, de modo mais direto, quem se beneficia com os dividendos de sua manutenção. A preservação da floresta como argumento pode servir a um variado conjunto de propósitos, inclusive a uma composição entre elementos aparentemente díspares, como instituições ambientalistas internacionais, grandes instituições financeiras e veículos de comunicação nacionais.

É possível preservar a floresta mantendo – a intocada, com utilização rudimentar de seu potencial, que pouco beneficia as comunidades tradicionais. Outro modo de mantê-la em pé é a abertura a novas oportunidades e interações, com o uso de artefatos que utilizem seu potencial sem destruí-la, encarando-a como fonte de afirmação da vida e distribuindo os lucros obtidos com a produção não predatória para muito mais gente.

Essa utilização produtiva não predatória em ampla escala só pode ocorrer com base no conhecimento científico, em tecnologias avançadas e na inovação. Já há condições para isso. A comunidade científica brasileira tem a convicção de que a contenção do desmatamento e o desenvolvimento da Amazônia só se farão mediante um modelo de desenvolvimento inovador capaz de utilizar e conservar a floresta e os recursos aquáticos ao mesmo tempo. Essa via da sensatez não se resume à floresta. É possível modernizar a produção em áreas desmatadas produzindo até quatro vezes mais em metade da área que hoje se ocupa.

É muito significativo nesse contexto que a Academia Brasileira de Ciências esteja organizando um grupo de pesquisadores dedicados a fornecer as condições para transformar conhecimento em ação, apoiando um novo modelo de desenvolvimento para regiões tropicais florestadas.

Enfim, a Amazônia é a esfinge a ser decifrada pelas políticas de desenvolvimento no Brasil, num empenho em que a ação do Estado democrático de Direito não pode ser ambígua – deve se exercer em consonância com o projeto nacional.

Ps: Este documento foi endossado por 20 pesquisadores da Rede Temática de Pesquisa em Modelagem Ambiental da Amazônia – Geoma.

(www.ecodebate.com.br) publicado pelo IHU On-line, 27/04/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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