Solo coberto reduz o aquecimento

Pesquisador da Embrapa diz que áreas degradadas também devem ser contabilizadas no cálculo do efeito estufa.


É possível reduzir o impacto do aquecimento global com boas práticas de manejo do solo. É a idéia defendida pelo pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste Odo Primavesi, um dos relatores e revisores técnicos do relatório divulgado no ano passado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU. Por Fernanda Yoneya, do O Estado de S.Paulo, 23/04/2008.

Conforme Primavesi, o trabalho dos cientistas restringiu a causa do aquecimento global apenas à emissão de gases do efeito estufa (GEE), desconsiderando a questão do calor produzido em solos degradados, cujo efeito, segundo ele, representa 50% na emissão de gases. ‘O que preocupa é que a pesquisa aponta como causa do aquecimento global os GEE, ignorando a degradação de regiões tropicais e subtropicais’, diz. ‘O uso da terra é a variável que falta para os modelos matemáticos que simulam o aquecimento global funcionarem bem. Os GEE e áreas degradadas são idéias complementares, não excludentes.’

Para Primavesi, boas práticas de manejo do solo contribuem para o seqüestro de carbono e, ao mesmo tempo, produzem sombra, umidificam o ar e reduzem o calor. E, com essa redução de calor, o aquecimento global também tem seu efeito diminuído. O sol é o mesmo. As condições do solo é que vão influenciar os efeitos desse calor. ‘Como os GEE mantêm o calor irradiado na Terra, a idéia é resfriar o ambiente.’

PLANTIO DIRETO

Entre as várias formas de ‘esfriar’ o ambiente, o plantio direto na palha é, talvez, a única prática recomendada já usada em larga escala. O benefício do plantio direto está na palhada deixada sobre o solo, normalmente amarela, que reflete mais calor, evita o revolvimento da terra e ajuda a manter o ambiente resfriado. ‘A cor mais clara reflete radiação solar, que é de onda curta e não calorífica. E essa radiação de onda curta atravessa sem problema a camada de gases de efeito estufa. Se essa radiação atinge uma superfície seca, ela vira radiação de onda longa, infravermelha, calorífica.’

Para Primavesi, é preciso, aliado ao plantio direto, abolir a queima de pastagens. ‘O plantio direto, a integração lavoura-pecuária, o manejo intensivo de pastagens com rotação da carga animal e com períodos de descanso para as forrageiras são outras formas de esfriar o ambiente.’

O plantio de árvores, diz, é outra maneira de reduzir o impacto do aquecimento global, pois o componente arbóreo seqüestra carbono e mantém o solo permeável. ‘Esse carbono fica seqüestrado mesmo após o corte, desde que a madeira seja aproveitada. Não se deve queimá-la, usá-la como combustível ou deixá-la em decomposição, pois todo o material celulósico em decomposição anaeróbia emite metano, gás do efeito estufa.’

Na área rural, as árvores devem ser plantadas como quebra-vento, bosques de sombra e para recomposição de matas ciliares e reservas. A introdução de sistemas agroflorestais ou agrosilvipastoris também é opção viável. ‘Infelizmente, a maioria dos agricultores e pecuaristas argumenta que as árvores tiram a visão gerencial da propriedade e representam área improdutiva.’ Somado a isso, a legislação ambiental, ‘impositiva e não educativa’, agrava essa inimizade.

Primavesi, que desde 1971 estuda a importância do manejo adequado do solo e da água, conta que naquela época já se sabia que o plantio direto elimina picos de aquecimento do solo e aumenta sua umidade. Em 1995, quando conduziu o projeto de avaliação de impacto ambiental de atividades pecuárias, verificou a ocorrência desse mesmo fenômeno em solos de pastagem, onde havia sombreamento do solo.

INFORMAÇÕES: Embrapa, tel. (0–16) 3411-5600

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