Pesquisa refina dados de emissões por desmatamento na Amazônia

Estudo desenvolvido por cientistas do Inpa mostra que emissões de carbono da Amazônia são 10,7% menores do que o estimado. Quantificar o carbono existente na floresta é fundamental para formular políticas públicas relacionadas aos serviços ambientais. Do IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, mostrou que as emissões de carbono da Amazônia são 10,7% menores do que o estimado. O projeto, desenvolvido sob a coordenação do cientista Phillip Fearnside, foi tese de doutorado do biólogo Euler Melo Nogueira, na área de Ciências de Florestas Tropicais, e teve o objetivo de determinar o quanto a região do arco do desmatamento, no sul do Amazonas, emite de CO2 para a atmosfera.

Segundo Nogueira, um dos aspectos mais importantes do trabalho é o potencial de uso em políticas públicas, principalmente em relação aos serviços ambientais da floresta. “Um dos argumentos recorrentes aos contrários à implementação de serviços ambientais da floresta é que havia muitas incertezas nos cálculos, o que dificultaria implementar um mecanismo de compensação. Esses novos números reduzem as incertezas de estimativas para a Amazônia, ajudando a quantificar o carbono existente na floresta, o que é fundamental para formular políticas públicas relacionadas aos serviços ambientais”.

O estudo, intitulado “Densidade de madeira e alometria de árvores em florestas do arco do desmatamento: Implicações para biomassa e emissão de carbono a partir de mudanças de uso da terra na Amazônia brasileira”, mostra que, com a nova metodologia, as emissões amazônica são 24 milhões de toneladas de carbono menores do que o estimado, o que equivale a duas vezes as emissões de CO2 do município do Rio de Janeiro. Isso não diminui a importância das emissões por desmatamento na Amazônia, apenas refina sua estimativa.

“As estimativas de emissão variam em função do desmatamento. Um ano com maior desmatamento terá, assim, maior emissão. A redução que estimamos foi de 10,7% para a emissão líquida, tomando por base 1990, que é o ano base para os inventários nacionais, estabelecido pela Convenção do Clima”, explica Nogueira. Conforme o biólogo, o principal motivo para as estimativas estarem superestimadas é que a densidade da madeira das árvores nas florestas sob desmatamento é menor do que havia sido estimado. “A densidade de madeira é necessária para calcular a biomassa da floresta em pé. Sabendo quanto havia de biomassa na floresta antes de ser desmatada, é possível saber quanto foi emitido após uma queimada ou desmatamento”, disse.

As principais incertezas nas estimativas de emissão, segundo o estudo, estão justamente associadas às estimativas de biomassa. A partir de dados coletados diretamente na região sul e sudoeste da Amazônia, foi calculada a densidade de madeira média para esta região, bem como para a Amazônia como um todo. Também foi calculada a densidade média unicamente das florestas desmatadas e estimadas a diferença em relação aos valores anteriormente utilizados para calcular a biomassa daquelas florestas. Esses cálculos foram realizados levando em consideração a composição de espécies dessas florestas.

Segundo o pesquisador, o estudo apresenta o cálculo da biomassa para áreas de floresta da Amazônia utilizando 2.860 parcelas inventariadas em toda a Amazônia pelo projeto RadamBrasil, além de 264 árvores pesadas no sul da Amazônia e relações de volume para 310 árvores coletadas em floresta densa na Amazônia central. Também foram utilizadas 187 árvores coletadas no sudoeste da Amazônia, no estado do Acre. Foram usadas, ainda, relações alométricas (relação entre as partes de um organismo com todo o corpo do mesmo organismo) para minimizar as incertezas nas estimativas de biomassa.

“Calculamos a nova média de densidade da madeira para toda a Amazônia (0,642), a qual é substancialmente menor que a média anteriormente usada (0,69). Calculamos então qual seria o impacto desses novos números sobre as estimativas de emissão de carbono. Foram feitas novas estimativas de biomassa para a Amazônia inteira, que incluem novos dados para o sul e sudoeste da Amazônia, e novos ajustes para os dois principais métodos utilizados. As estimativas incluem além de árvores em pé, palmeiras, cipós, liteira grossa e fina, raízes, árvores mortas caídas e em pé”, explica. Com isso, foi gerado um novo mapa de biomassa para a Amazônia brasileira. Foi estimada também a biomassa por tipo de floresta em cada um dos nove estados da Amazônia Legal Brasileira.

O pesquisador ressalta que essas estimativas servirão de base para outros estudos, como obras de infra-estrutura e futuros impactos associados. “Obviamente, o estudo ajudou a saber com maior confiança qual a contribuição do desmatamento da Amazônia para as emissões globais. Embora o desmatamento tenha emitido muito carbono e continue a ser um problema grave, sabe-se agora que emitiu menos do que se pensava”, diz.

Emissão de carbono pela floresta e emissão por desmatamento

Segundo o biólogo Euler Melo Nogueira, a floresta em pé emite carbono pela diferença entre a respiração e a fotossíntese. O saldo desses dois processos é assunto de debate, mas seja qual for esse resultado, sabe-se que é de pequena magnitude: em torno de uma tonelada de carbono/hectare/ano.

Já o desmatamento emite o carbono contido nos compartimentos da floresta, o que é substancialmente muito carbono. Cerca de metade do peso seco de uma árvore é carbono. Portanto, o desmatamento emite muito carbono porque há muito carbono estocado na floresta. A floresta em pé é um grande reservatório de carbono.

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