Moradores não querem mineração de Urânio, Protestos nos EUA e em Portugal, por que o silêncio no Ceará?

Como a indústria de Etanol, a indústria nuclear também afirma que eles podem salvar o planeta contra o aquecimento global. “Um dos principais estandartes para o renascimento do interesse na energia nuclear é o de que esta seria amiga do clima”, explicou Pedro Martins Barata, Presidente da Associação Euronatura – Centro para o Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável. “É certo que a geração de energia nuclear não gera diretamente quaisquer emissões de gases com efeito estufa. Contudo, o ciclo de vida do urânio não compreende apenas a fase de geração de energia: o urânio tem que ser minado, enriquecido e armazenado seguramente. Qualquer uma dessas fases gera emissões de gases com efeito estufa. Se fizermos contudo a comparação entre ciclos de vida, incluindo no ciclo de vida da produção de energia nuclear também a mineração do urânio, o seu enriquecimento e o seu transporte, atingimos facilmente números da mesma ordem de grandeza que o ciclo de vida do gás natural.” E pior: a mineração de urânio não é um processo limpo e seguro. Ao contrário. A mineração de urânio ameaça profundamente os recursos de água e polui grandes áreas com elementos radioativos. Por exemplo, só a mina de urânio Olimpic Dam, na Austrália, produz por ano 10 milhões de toneladas de resíduos radioativos e gasta por dia 30 milhões de litros de água. Por Norbert Suchanek, para o EcoDebate.

Por isso os povos indígenas afetados no Austrália, Canadá e EUA protestam há dezenas de anos contra a indústria nuclear. Muitos destes povos sofrem com altos índices de câncer, deformações, abortos espontâneos e outras doenças resultantes dos resíduos de mineração de urânio.

Os Navajos falam “Não” para as minas de urânio

Contudo, o governo dos EUA quer agora abrir uma nova mina na região do Grand Canyon. Mas o povo Navajo, que será mais uma vez afetado, está contra este plano do Governo George W. Bush. Os Navajos continuam a falar “Não” sobre mineração de urânio em seu território e territórios vizinhos. “A Nação dos Navajos vai fazer tudo que for possível para não permitir a exploração de urânio dentro ou perto do nosso Território“, disse o presidente da Nação Navajo, Joe Shirley Jr., ao Governo dos Estados Unidos um mês atrás. O Governo Bush não tem vergonha em permitir uma nova mina de urânio perto de nosso Território, durante anos ainda sofremos os efeitos de antigas minerações. “Nós não queremos que uma nova geração de crianças vá chegar com deformações. Nós não vamos permitir que nossos povos precisem continuar vivendo com Câncer, quando companhias sem rosto ganham o lucro”, falou o Presidente Navajo Shirley.

O povo Navajo já sofre com a Mineração de Urânio desde os meados de 1940. Para fazer as bombas da guerra fria, foi retirado urânio da reserva deste povo com o argumento de dar emprego. O resultado foi que grande parte do seu território e muitas fontes de água foram poluídas com elementos radioativos. As companhias de mineração junto com o Governo dos Estados Unidos mandaram os Navajos trabalharem nas minas sem informação e proteção adequadas. Muitos Navajos morreram por causa da radioatividade, inclusive os pajés que se contaminaram ao tentar curar os mineradores cheios de elementos radioativos. “Por causa disso, nós perdemos uma grande parte da nossa cultura”. Lamenta o Presidente dos Navajos. “Quando um pajé morre, é como perder uma biblioteca cheia de sabedoria”. Por isso, a Nação dos Navajos criou uma lei, em 2005, que proíbe para sempre a mineração de urânio em seu território: o Diné Natural Resources Protection Act. Os navajos responsáveis pela criação desta lei, George Arthur e Joe Shirley, Jr., ganharam o prêmio internacional anti-nuclear, o “Nuclear-Free Future-Award”, em 2006.

Resistência Anti-Nuclear em Portugal

Mas nem só os povos indígenas nos EUA ou na Austrália sãos contra mineração de urânio. Também povos afetados em Portugal lutam contra. Na região do Alto Alentejo tem a jazida de Nisa que o Governo de Portugal quer explorar, porque esta jazida de urânio é considerada a única do país onde a extração pode ser economicamente rentável. Mas o povo e vários empresários da região não querem ser vítimas desta mineração radioativa.

“Movimento Urânio em Nisa, Não”

Por isso o “Movimento Urânio em Nisa, Não” (MUNN) lançou, em janeiro deste ano, uma petição para protestar contra a eventual exploração de urânio na região. A petição pede que haja uma profunda reflexão antes de qualquer decisão que possa hipotecar o futuro de Nisa.

Nisa, no distrito de Portalegre,no Alto Alentejo, possui na sua jazida inexplorada de urânio um potencial de 6,3 milhões de toneladas de minério. Mas Nisa, perto da fronteira com a Espanha, também é rica em recursos e belezas naturais e culturais.

“A beleza quase excessiva da região, a melancolia e excentricidade do território, a excelência e abundância do megalítico, a intensidade histórico-cultural e arquitetônica dos aglomerados urbanos, as tradições, o artesanato, as artes e ofícios, a gastronomia e o labor das gentes”, tudo isso vai ser destruído com a mineração de urânio, critica o Conselho de Nisa e MUNN. A associação ambientalista Quercus também se opõe à eventual exploração de urânio em Nisa, alertando para os “grandes impactos” que poderá causar em termos ambientais e da saúde da população. “O urânio tem muito mais conseqüências do que outros minérios normais, tanto em termos dos impactos para o ambiente, como dos problemas que implica para a saúde”, disse Nuno Sequeira, do núcleo de Portalegre da Quercus.

O óxido de urânio da jazida de Nisa vale atualmente mais de 43 milhões de euros, explicou o MUNN: “Contudo, apesar dos avanços tecnológicos e das regulamentações ambientais, a exploração de urânio pode trazer elevados impactos para a região, pondo o ambiente e a saúde das populações em risco, em nome de um projeto que vai de 6 a 8 anos, cuja geração de emprego não será significativa nem duradoura, mas que obrigará a uma de duas opções: a criação de riqueza fácil que pouco ou nada deixará para o território e suas gentes, acarretando problemas ambientais e sociais que ficarão para o Estado resolver num futuro longo em que só a desertificação é expectável, ou a aposta em eixos de desenvolvimento que criem dinamismo local e emprego, qualidade no ambiente e paisagem, coesão social.”

E Portugal já tem péssimas experiências com a mineração de urânio. Parte do urânio que foi usado nos Estados Unidos para criar a primeira bomba atômica do mundo chegou de Portugal. E a última mina de Urânio em Portugal foi encerrada há 15 anos em Viseu.

“A exploração de urânio do passado (nas 61 explorações mineiras existentes no país) implicou um enorme passivo ambiental e impactos negativos na saúde pública das populações, que ainda hoje se manifestam e continuam por resolver”, explicou MUNN. “As minas encerradas continuam a serem responsáveis, além de poluição visual, pela presença de poeiras tóxicas na atmosfera e por situações de contaminação de solos, cursos de água e lençóis freáticos. O acondicionamento dos milhares de toneladas de escórias, resultantes do tratamento do minério, em escombreiras e barragens de estéreis, sem que nada tenha sido feito durante décadas, deixou um pesado legado de degradação do ambiente e nas condições de vida em 18 conselhos do território nacional.”

O estudo MinUrar – Minas de Urânio e seus Resíduos: Efeitos na Saúde da População, concluiu que a população de Canas de Senhorim, em Portugal, exposta às minas da Urgeiriça, apresenta uma diminuição das funções da tiróide, da capacidade reprodutiva de homens e mulheres e do número de glóbulos vermelhos, brancos e de plaquetas no sangue. E continuam morrendo ex-trabalhadores das minas de urânio sem que as famílias recebam indenizações.

Estes sãos os fatos que o Movimento português contra Urânio sabe: “A exploração de urânio pode contaminar o ar, água e solo com químicos radioativos e tóxicos, não totalmente removíveis do ambiente; A mineração está também associada a processos químicos contaminantes e a utilização de enormes quantidades de água; A curto prazo, a exploração do urânio tem impacto na ecologia local e, a longo prazo, os riscos colocam-se para uma área muito maior; Os efeitos podem prolongar-se por centenas a milhares de anos após estar terminada a exploração mineira, afetando as gerações futuras.

Baixos níveis de radiação geralmente implicam defeitos genéticos, elevada mortalidade infantil e doenças crônicas dos pulmões, olhos, pele e na saúde reprodutiva. É um consenso generalizado da comunidade científica internacional que não há um nível seguro de exposição à radiação: o desenvolvimento do cancro e outras doenças podem levar mais de 20 anos, dificultando a associação das suas causas.”

A espada de Dâmocles

O jornalista Carlos Pessoa, do jornal “O Público” de Portugal, escreveu em 2007: “A exploração de uma jazida de urânio, estimada em 8.000 toneladas implicará uma enorme deslocação de terras, implicará um enorme aumento dos gases radioativos, de poeiras e terá que levar os aterros e escombreiras a dois quilômetros da sede do conselho, a dois quilômetros.” Para ele, este projeto de mineração de urânio, em Nisa, com uma estimativa de vida de 6 a 8 anos, vai ter consequências que se arrastarão por muitas décadas e com ela o futuro, o futuro das estações termais e do turismo de natureza, o desenvolvimento do artesanato e a recuperação do patrimônio.

Carlos Pessoa: “A economia hoje, no século XXI, tem que ter em conta novos paradigmas, novas lógicas que integrem as pessoas, o território e a imagem. O urânio de Nisa é a espada de Dâmocles sobre a vida e a sustentabilidade do conselho. Nenhum governo pode dar cobertura ao espirrar ocasional de um minério no mercado internacional e trocar umas mais valias, eventualmente provisórias, pelo aniquilar das hipóteses de vida e desenvolvimento sustentado de uma terra e das suas gentes. O urânio em Nisa deve ficar onde está, a bem da terra, das suas gentes e de um desenvolvimento sustentado”.

A exploração das minas de Nisa esteve para acontecer no início da década de 1990, mas para ser viável o preço do urânio teria de passar a barreira dos 20 dólares. O aumento do preço do urânio nos últimos cinco anos mobilizou o governo de Portugal para a exploração do minério, menosprezando consequências para a saúde e o ambiente.

Nova Mina de Urânio no Brasil em Ceará

Também no Brasil, a especulação com um alto preço do urânio junto com a decisão do Governo Lula de investir na energia nuclear e especialmente construir a usina nuclear Angra 3, levará ao aumento da produção nacional de urânio. “A estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) pretende quadruplicar sua produção de urânio até 2012 – de 400 para 1.600 toneladas ao ano – preparando-se para a possibilidade de atender a demanda futura de oito novas usinas nucleares a serem construídas até 2030, além de Angra III, prevista para operar em 2013”, escreve o “Valor Econômico”, em setembro de 2007. Empresas, como a Vale e a MMX (do empresário Eike Batista), já anunciaram o desejo de produzir urânio no Brasil e torcem pela queda do monopólio.

No momento, a INB faz a mineração de urânio em Caetité e Lagoa Real, ambas no sudoeste baiano. Vários acidentes nucleares neste lugar já aconteceram. Mas INB está duplicando a produção de óxido de urânio (Yellow Cake) na Bahia. A Folha de S. Paulo escreveu recentemente (publicado pela INB): “De acordo com o diretor de produção nuclear da INB, Samuel Fayad, essa duplicação em Caetité passará por dois pontos. Além de aumentar a produção em 30%, o nosso próximo passo é fazer uma cava profunda para explorar a mina subterrânea, em 2008, explica. Segundo ele, a produção anual da empresa hoje é de aproximadamente 380 toneladas, porém, após a conclusão do projeto esse número subirá para cerca de 800 toneladas por ano.”

E agora no próximo ano, em 2009, a INB quer abrir uma nova mina ainda maior no Sertão do Ceará, a jazida de Itataia, no Município de Santa Quitéria, a 252 quilômetros de Fortaleza. É a maior mina de urânio do Brasil. A jazida de Itataia, que foi descoberta em 1976, vai produzir em sua fase inicial 800 toneladas de urânio e 120 mil toneladas de fosfato por ano.

E os riscos ambientais? Os riscos da saúde dos moradores da região e da biodiversidade? Ninguém quer mexer com isso agora. Como o tucano Tomas Filho ou os políticos do Município de Santa Quitéria pensam: todo mundo quer a mineração porque dá emprego. “O projeto de Itataia é orçado em US$ 110 milhões e deve revolucionar a economia numa região extremamente carente”, falou o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Estado (Adece), Antônio Balhmann. Na avaliação de Tomas Filho, a exploração da jazida vai proporcionar o “desenvolvimento sustentável” do Estado. Ele acredita que a exploração mineral vai atrair outros investimentos, além da atração de novas empresas, como indústrias de fertilizantes e de cimento.

Mas onde está o movimento contra estes planos absurdos de mineração de urânio no Ceará e no Brasil inteirinho? Onde estão os jornalistas e os multiplicadores que informam e ensinam o povo brasileiro sobre os verdadeiros perigos da exploração do urânio? Está em perigo não só o Sertão do Ceará. Também vários outros lugares, biomas e populações do Brasil onde há jazidas deste mineral radioativo e amarelo, como no Rio Cristalino (Pará).

Norbert Suchanek, Rio de Janeiro.
Correspondente e Jornalista de Ciência e Ecologia.

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