Cana-de-açúcar: 200 mil hectares de grilagem no Maranhão

[EcoDebate] O governo do Maranhão em seus proclames para o mercado fixou um teto de quarenta usinas de etanol para os próximos anos o que, em termos práticos, arredondar-se-á de um milhão a dois milhões de hectares amolados, em nome de grandes grupos econômicos das regiões sul, sudeste e nordeste brasileiro, para o plantio de cana-de-açúcar. Por Mayron Régis, do Fórum Carajás.

Tendo o estado de São Paulo como parâmetro de qualquer política de investimento no setor de agroenergia vê-se que a conversão de áreas de mata nativa e de produção de alimentos em áreas incumbidas para a cana refluiu em certos momentos da recente história econômica do Brasil, mas os anos subseqüentes ao e o próprio ano de 2005 presenciaram e presenciam a industria sucro-alcooleira abrangendo boa parte de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul como se, por conta dos investimentos do Pró-álcool, nos anos setenta, os empreendimentos mais anciãos e os empreendimentos mais jovens teimassem em ver na produção de etanol para consumo interno e para exportação o bem maior e o bem mais original de um país tropical.

Quando nos referimos, por alto, a dois milhões de hectares que pousarão ou não nas mãos na indústria sucro-alcooleira nos anos mais à frente fiquem certos que entre elas estão as melhores terras do Maranhão como as dos municípios de Campestre e Porto Franco, oeste maranhense, onde o grupo Maity, um dos grandes beneficiários do Pró-álcool, compraz-se em ferrar agricultores familiares, com seus funcionários e com policiais militares, para que suas rotinas produtivas se desajustem e desajustados produtivamente fica mais fácil para a empresa retirá-los da área.

Os agricultores familiares à beira do rio Tocantins se obstinam com as cercas da empresa que impedem a sua circulação ou impedem que recebam visitas; e os agricultores familiares de um assentamento federal se obstinam por verem plantios de cana e resíduos cercando-os graças a assentados que arrendaram seus lotes para a Maity. Esta empresa padece de qualquer coisa, menos de humildade, afinal ajuda financeira e apoios de políticos sobram. Ela vai atrás de mais terra em Porto Franco. Encontrar-se-á com o Grupo Brasil, fundo de investimentos de aposentados do Banco do Brasil, para vê quem tem mais bala na agulha. Ou Maity engole ou o Grupo Brasil engole o restante das terras boas do oeste maranhense – um processo de tomada de terras para o plantio de cana, financiado pelo BNDES e fundos de investimentos locais e internacionais, e tomada mesmo porque nessas terras viveram e vivem famílias por décadas e que de repente se vêem aceitando acordos com representantes de empresas cuja origem ninguém sabe e ninguém viu.

Uma das regiões com alta aptidão para o plantio de cana está localizada entre a baixada ocidental e o Baixo Parnaíba maranhenses e um grupo paulista desmancharia com maior prazer essa região em um projeto de etanol com ajuda de documentos forjados pelo ex-deputado estadual Kleber Leite em cartórios de municípios da região se não fosse necessária uma nova demarcação que comprove a legalidade dos documentos. Por enquanto, duas mil e quinhentas pessoas estão a salvo de saírem definitivamente de suas áreas, porque a grilagem arrastaria 47 mil hectares e consta que o senhor Kleber Leite possui escritura de mais de 200 mil hectares incluindo Morros, Humberto de Campos, Bela Água, São Benedito do Rio Preto e Urbano Santos. A industria sucro-alcooleira virá atrás de muita terra no Maranhão e para conseguir só a grilagem.

Mayron Régis, jornalista, do Fórum Carajás.

Esse texto faz parte do projeto Desintoxicando os excessos do etanol: uma proposta de investigação da dinâmica e dos efeitos da propagação da cana de açúcar na região do Projeto Grande Carajás, projeto do STTR de Loreto, financiado pelo Centro de Apoio Sócio-Ambiental (CASA)].

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