Política indigenista do país precisa garantir produção nas aldeias, aponta antropóloga

Embora a garantia da terra seja a questão fundamental para resolver os problemas vividos pelos índios no país, o governo precisa desenvolver uma política capaz de viabilizar a produção indígena nas aldeias e sua inserção no mercado. Matéria de Adriana Brendler, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate.

A avaliação é da antropóloga Lúcia Rangel, pesquisadora do programa de pós-graduação em ciências sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e consultora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Para ela, além de prover os direitos básicos de acesso à terra, à saúde, à alimentação e à educação, a atuação governamental precisa atender as necessidades indígenas viabilizando a produção dentro das aldeias e “pontes” para sua comercialização com o resto da população.

“Não basta só a terra. Quando as comunidades têm condições de produzir e se colocar no mercado como produtoras indígenas elas conseguem ter um padrão de vida desejável”, afirmou.

Segundo Lúcia, a capacidade de produção pode permitir a permanência dos índios nas aldeias, vivendo de acordo com sua organização social, política e cultural, mas com condições de acessar os benefícios gerados pelos avanços humanos.

“Existem terras indígenas e aldeias que conseguem ter uma vida muito boa tendo tudo isso dentro da sua própria terra: quando há terras ricas, caça, pesca e também luz elétrica, conforto. Nós não podemos imaginar que eles [índios] vão querer voltar a mil anos atrás e viver como seus ancestrais até porque nenhuma cultura faz esse movimento.”

Questionada sobre o limite para atuação e intervenção do estado em relação aos índios e sua cultura e se o acesso a benefícios do mundo moderno, como a educação, por exemplo, não seria um estímulo ao êxodo dos indígenas em direção às cidades, a antropóloga respondeu negativamente.

Para ela, a urbanização motivada pelos apelos de consumo e conforto é um problema vivido por toda a sociedade brasileira e a educação, desde que formulada por professores indígenas e voltada para natureza e para o trabalho agrícola característicos da sociedade indígena, contribui para a qualidade de vida dos índios em seu próprio meio.

Segundo a antropóloga, o desejo de deixar as aldeias corresponde a aspirações individuais, forçadas muitas vezes pela situação de inviabilidade nas aldeias.

“Quando se tem essa viabilidade as aldeias encontram maneiras muito criativas de viver no mundo de hoje, de satisfazer seus desejos atualizados e sintonizados com o mundo atual.”

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