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riscos da auto-medicação: Como farmácias reagem quando o cliente quer comprar remédio sem receita médica

Ir à farmácia para comprar um remédio com o objetivo de aliviar um mal-estar ou curar uma doença é uma prática bastante rotineira. Mas quem usa essa tática deve tomar muito cuidado para não piorar ou prejudicar a saúde. Um estudo avaliou a qualidade do atendimento prestado a um possível portador de doenças sexualmente transmissíveis (DST) em 70 farmácias da rede privada em duas cidades do Distrito Federal e constatou: nenhum dos tratamentos aconselhados era adequado à abordagem médica dos sintomas. Os resultados mostraram que houve indicação de medicamentos em cerca de 70% dos casos, mesmo quando os balconistas não eram farmacêuticos, e que em apenas 30% das assistências houve encaminhamento do comprador aos serviços de saúde. Matéria de Renata Moehlecke, da Agência Fiocruz de Notícias, publicada pelo EcoDebate.

“Estudos que investigam o cenário da comercialização de medicamentos no Brasil sugerem que as motivações para a busca de tratamento nas farmácias, as práticas e as atitudes dos trabalhadores são muito semelhantes em outras regiões brasileiras”, afirmam os pesquisadores da Universidade de Brasília e da Universidade Católica de Brasília em artigo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz. “A automedicação e a indicação de medicamentos que envolvem risco à saúde, cuja venda pressupõe a apresentação de receita, tornou-se uma prática comum, mesmo em caso de doenças que necessitam de exames clínicos e laboratoriais para o seu diagnóstico, como é o caso das DST”.

Para o estudo, os pesquisadores elaboraram uma proposta de intervenção educativa: 78 trabalhadores de farmácias (balconistas, gerentes e farmacêuticos) participaram de um conjunto de palestras, debates e oficinas, que visavam esclarecer fatores epidemiológicos, clínicos e preventivos das DST, terapia com antibiótico e conseqüências de tratamentos inadequados, bem como aspectos legais e éticos relacionados à dispensação e venda de medicamentos. Das 70 farmácias estudadas, 18 apresentaram representantes nas atividades de intervenção. As outras 52 não participantes serviram como grupo de controle.

A avaliação da eficácia da experiência educativa na prática dos trabalhadores foi efetuada a partir de 411 visitas às farmácias selecionadas para a pesquisa. Cada estabelecimento foi consultado por três estudantes treinados, três meses antes e depois da intervenção. Esses estudantes simularam queixas padronizadas de DST, como secreção uretral com sensação de ardência ao urinar. Considerando as duas etapas de coleta de dados, 53,8% dos atendimentos foram feitos por balconistas, 17,8% por farmacêuticos e 28,5% por trabalhadores não identificados.

“A proporção de atendimentos que resultaram em orientação para procurar um serviço de saúde, para o tratamento de parceiros sexuais e para o uso de preservativos, foi baixa nos dois grupos de farmácias e não apresentou diferença significativa depois da intervenção educativa”, comentam os pesquisadores, acrescentando que a recomendação predominante do uso de medicamentos também não teve alteração relevante após as palestras, debates e oficinas. As consultas resultaram no aconselhamento de 455 medicamentos, uma média de 1,5 por atendimento, sendo a prática mais comum a indicação de antibióticos. “Foram indicados 66 tratamentos corretos para gonorréia e 22 para infecção por Chlamydia, porém nenhum tratamento indicado tratava as duas infecções simultaneamente como é recomendado pelo fluxograma da abordagem sindrômica”.

A análise, para os pesquisadores, serve como um alerta para a importância e a extensão das farmácias como porta de entrada das demandas de saúde. “O farmacêutico é, em todo o mundo, o profissional de saúde mais acessível à população em geral e pode assumir grande importância como educador em saúde”, dizem os autores. Eles também destacam que a intervenção educativa exclui como justificativa para as práticas inadequadas a falta de conhecimentos dos trabalhadores. As motivações podem ser as pressões de mercado e a influência de valores culturais associados à visão da farmácia no Brasil como estabelecimento comercial.

“A baixa qualidade da orientação prestada a possíveis portadores de DST nas farmácias e a indicação de medicamentos não devem ser vistas, portanto, como resultantes apenas de um conhecimento superficial”, asseguram os pesquisadores. “Essas práticas tendem a reproduzir os conceitos e objetivos do mercado farmacêutico com relação ao valor central dos medicamentos no processo de recuperação da saúde e na falta de critérios para sua utilização”.

Uso irracional de medicamentos pode estar relacionado a estratégias publicitárias

O afastamento do farmacêutico da prática de orientação aos serviços de saúde aliado ao excesso de investimentos em publicidade, direcionada a vendedores e consumidores, criou um terreno fértil, no Brasil, para o uso desnecessário de remédios. Diversas são as ações de incentivo ao uso e negociação nos próprios locais de trabalho, como brindes e prêmios aos responsáveis pelas maiores vendas no varejo. A falta de controle legal sobre a comercialização também ajuda a piorar a situação.

“A publicidade influencia cada vez mais os hábitos de prescrição e consumo e cria demandas definindo as condições e doenças que precisam de tratamento, promovendo a idéia de que os medicamentos representam a melhor opção em oposição a terapias não medicamentosas, enfatizando a sua eficácia e minimizando os seus riscos”, esclarecem os pesquisadores no artigo. Eles acrescentam que há estimativas de que um terço dos rendimentos da indústria farmacêutica é aplicado em publicidade, o dobro do que é empregado em pesquisa.

Além disso, os autores apontam que o setor privado é o principal responsável por 76% do fornecimento de medicamentos à população brasileira. “A comercialização de medicamentos no varejo possui algumas características que a diferenciam da maioria dos países desenvolvidos, como: a possibilidade de abertura de farmácias por leigos, independente de sua formação e da quantidade de estabelecimentos que já possuam; ausência de critérios demográficos e de distância para a abertura de estabelecimentos, o que gera concorrência acirrada nos grandes centros; e ausência de exigência de qualificação para exercer a função de atendente em farmácias”, explicam. Segundo os pesquisadores, todos esses fatores devem ser considerados para o desenvolvimento de melhores estratégias de controle e mudanças nos hábitos de consumo.