Brasil: o mapa da devastação

Em 500 anos, o país desmatou 2,5 milhões de quilômetros quadrados – Companheiro de bandeira do amarelo, o azul e o branco, o verde sem par destas matas, contradizendo Olavo Bilac, não têm recebido o afeto que se encerra em nosso peito juvenil. Em 500 anos de história, o Brasil já desmatou 2,5 milhões quilômetros quadrados de sua vegetação nativa, sendo que a maior parte nos últimos 50 anos. Isso significa 30% de suas florestas. Esse cinzento panorama está descrito no estudo intitulado Mapa da Cobertura Vegetal dos Biomas Brasileiros, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Por Carlos Albuquerque, do O Globo, 02/04/2008.

O trabalho revela que a Mata Atlântica foi o bioma — região com fauna e flora típicas — que mais sofreu, perdendo 751 mil quilômetros quadrados. A Amazônia, bioma de maior extensão do país, foi o segundo mais afetado, perdendo 527 mil quilômetros quadrados de florestas. Já o Pantanal, que ocupa a menor área entre os seis principais biomas (os outros são Cerrado, Pampas e Caatinga), é o mais preservado, com 17 mil quilômetros quadrados de mata perdidos.

— Esse trabalho dá uma visão importante do território brasileiro como um conjunto de biomas — conta o historiador ambiental José Augusto de Pádua, da UFRJ. — Isso é importante porque ajuda a superar a idéia do espaço brasileiro como se fosse algo vazio, abstrato, que a sociedade pode simplesmente ocupar, quando na verdade trata-se de um país com uma enorme biodiversidade e diferentes estruturas ecológicas.

O mapeamento foi feito com a ajuda de satélites, além de trabalho de campo. Segundo o MMA, ao revelar quanto foi desmatado em cada bioma, o estudo se transforma numa ferramenta para futuros trabalhos de preservação.

— Esse estudo dá um quadro relativamente atual sobre a situação dos ecossistemas brasileiros — diz Bráulio Dias, diretor do Programa Nacional de Biodiversidade do MMA e coordenador do estudo. — Isso é importante porque fica difícil a gente estabelecer políticas públicas e fazer um trabalho de monitoração sem ter os dados do campo.

Mata Atlântica reflete a história do litoral

Como exemplo da aplicação do estudo, Dias cita o caso da região amazônica, onde existe uma preocupação geral com uma possível expansão da fronteira agrícola por causa do crescente interesse nos biocombustíveis.

— A Casa Civil encomendou ao MMA e ao Ministério da Agricultura um zoneamento agroecológico para delimitar a expansão da cana para o cultivo de álcool. Esse estudo é um dos principais conjuntos de informações para subsidiar esse mapeamento. Poderemos estipular os limites para que a expansão da cana se dê dentro das fronteiras atuais.

No caso da Mata Atlântica, símbolo mais emblemático da devastação no Brasil, porque é mais intenso e concentrado, o estudo ajuda também a contar como foi (desordenada) a ocupação da faixa costeira, que perdeu 9,2 milhões de metros quadrados de florestas nos últimos três anos, como revelou a série de reportagens do GLOBO “A impunidade é verde”, com base em dados da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

— Certamente, o nível de desmatamento na Mata Atlântica reflete um tipo de ocupação que, desde o início, foi predatório — analisa o historiador ambiental.

Pádua aponta, porém, uma diferença entre os números apresentados no estudo do MMA — que diz que 71% dessa vegetação já foi destruída — contra os dados da Fundação SOS Mata Atlântica, que indica uma devastação em torno de 93%.

— A diferença se deu porque optamos por uma abordagem inclusiva — explica Bráulio Dias. — Preferimos mapear as áreas em regeneração.

Pela Convenção sobre Diversidade Biológica, acordo internacional criado em 1992, assinado pelo Brasil, pelo menos 10% de cada região ecológica do planeta devem ser conservados até 2010. O estudo do MMA, diz Pádua, pode ajudar o país a cumprir suas metas de conservação de forma equilibrada.

— Mas por causa do carisma da floresta, existe uma tendência de se valorizar apenas a Amazônia e desprezar ou esquecer os demais biomas do Brasil — ressalta o historiador ambiental.

— Isso, claro, é um erro. Não podemos privilegiar um bioma em detrimento de outros porque ele é mais bonito esteticamente.

Precisamos ter uma visão holística do assunto.

Cada bioma tem a sua importância ambiental.

O Cerrado, por exemplo, é a grande caixa d’água do Brasil.

A mais escorregadia conclusão que se pode ter com a leitura do estudo do MMA, alerta Pádua, é que desmatamos “apenas” 30% do nosso verde em 500 anos, restando ainda uma boa margem para cortar.

— Essa é uma informação que pode gerar facilmente um mal-entendido. É preciso examinar a destruição dos ecossistemas dentro de uma escala histórica, acompanhado o movimento ao longo do tempo.

— De fato, essa leitura é uma armadilha — concorda Bráulio Dias. — A melhor leitura desse estudo é nos fazer lembrar que parte desse desmatamento resultou em progresso para o país, gerou renda e nos transformou num grande produtor agrícola. Mas o outro lado é que ele não foi feito pensando num aproveitamento contínuo e sustentável. Por isso, gerou também enormes bolsões de miséria nas áreas de grande impacto ambiental. Esse é o lado cruel do desmatamento no Brasil.

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