Um estudo inédito da USP calcula que Angra 3 só seria viável com subsídios ocultos de R$ 4 bilhões

O custo do átomo – O governo federal vem dando sinais de que pretende retomar o investimento em energia nuclear. No ano passado, autorizou o reinício das obras da usina nuclear de Angra 3, no litoral do Rio de Janeiro. O empreendimento foi aprovado pelo Conselho Nacional de Políticas Energéticas (CNPE). “A decisão de construir Angra 3 e as discussões que estamos tendo sob a coordenação da Casa Civil mostram que o governo está convicto de ter um programa nuclear mais consistente”, disse na terça-feira o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende. Mas ainda não há certeza se novos reatores da estatal Eletronuclear são a melhor opção para evitar um apagão. Matéria de Thiago Cid, Revista Época, Ed. 514 – 24/03/2008.

Além das dúvidas quanto à segurança das usinas (como seria a evacuação em caso de acidente numa região onde as estradas congestionam em cada feriadão?), a discussão entrou em um terreno econômico. Segundo um estudo feito por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), Angra 3 sairia mais cara que o anunciado, por causa de vários custos embutidos no projeto. O levantamento, feito por encomenda da organização ambientalista Greenpeace, será divulgado nesta semana. Foi coordenado pelo engenheiro Miguel Udaeta, da USP. Segundo o estudo, a usina custará mais que os R$ 7,2 bilhões anunciados pelo governo. Somados juros e financiamento, Angra 3 não sairá por menos de R$ 9,5 bilhões, sem contar R$ 1,5 bilhão gastos até agora.

“Os subsídios governamentais ocultos no projeto tornam viável um empreendimento caro e perigoso, que não se sustenta do ponto de vista energético. Esses subsídios estão disfarçados na conta de luz dos consumidores”, diz o relatório. Segundo a equipe de pesquisa, a produção da energia nuclear é mais cara que de outras fontes. Por isso, para Angra 3 oferecer energia pelas tarifas praticadas hoje no mercado, a Eletronuclear lucraria menos – e levaria mais tempo para pagar o investimento feito na usina. O investimento teria um retorno de 10% ao ano. “É menos que a taxa de juro oficial do país”, diz Ernesto Cavasin, gerente de sustentabilidade da consultoria PriceWaterhouseCoopers. “Ninguém do setor privado colocaria dinheiro em um empreendimento de risco com uma taxa dessas. Do ponto de vista energético, é um mau negócio.”

“Os subsídios tornam viável um projeto que não se sustenta do ponto de vista energético”, diz o relatório

O chefe de gabinete da presidência da Eletronuclear, Leonam Guimarães, diz que a taxa de retorno é adequada. “Um retorno superior a 10% é próprio do setor privado, incompatível com uma estatal.”

É comum que o setor energético envolva investimentos com taxas de retorno mais baixas, já que os riscos de grandes obras são maiores. Mas não tão baixas. A taxa de retorno do investimento de uma pequena usina hidrelétrica, com capacidade equivalente à de Angra 3, seria entre 13% e 16%, afirma Cavasin, da Price. Ao longo de 21 anos – seis de construção e 15 para recuperar a verba investida –, o prejuízo atingiria R$ 4 bilhões, de acordo com o estudo da USP. Trata-se da diferença entre o retorno previsto da usina e uma estimativa de retorno de 12% ao ano.

Há outros fatores que podem favorecer a decisão de apostar na energia nuclear, como o domínio de uma nova tecnologia e o aproveitamento de nossas reservas de urânio. Mas o custo dessa decisão tem de ficar mais claro para a sociedade.

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