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Macaé, Rio de Janeiro: Água é commodity importante na capital brasileira do petróleo

Finas mangueiras negras se entrelaçam pelo chão de Nova Holanda, uma favela na periferia da cidade que gosta de ser chamada de a capital brasileira do petróleo. Por Maurício Savanese, da Agência Reuters, publicada pelo Estadao.com.br, quarta-feira, 19 de março de 2008, 17:36.

Antiga vila de pescadores no norte fluminense, a cerca de 180 quilômetros do Rio de Janeiro, Macaé atraiu muita riqueza pelo petróleo e pelo gás da sua costa litorânea. Mas a água potável é um ativo quase tão precioso para grande parte dos mais de 200 mil habitantes da região.

Ao longo dos anos, milhares de desempregados migraram para lá, construindo moradias onde quer que haja espaço.

Assim surgiu Nova Holanda, que tem apenas uma tubulação que liga ao sistema principal da cidade — forçando os seus habitantes a instalar um sistema precário com mangueiras para não sofrer com o desabastecimento.

As duras condições fazem de Nova Holanda um lugar hostil, sujo e violento para muitas pessoas. Mas é lucrativo para outras, como o taxista e empreendedor Edvar Santos, 58.

“Meu filho, em Nova Holanda você só tem duas opções. Ou você paga os outros para pegarem a água para você ou você mesmo usa uma bomba e faz sozinho”, afirmou ele à Reuters.

Santos diz ser dono de duas casas, um pequeno prédio e uma cisterna capaz de armazenar 35 mil litros de água por semana.

Ele e muitos outros vendem água saída do sistema público por cerca de 10 reais por cada 100 litros. Para quem prefere fazer o trabalho sozinho, comprar uma bomba d’água custa aproximadamente 150 reais.

Nélio da Cunha, 23, migrou da Bahia há alguns anos e trabalha na Petrobras em Macaé, no setor de maquinaria durante o turno da noite. De dia, ele vende água para ganhar um dinheiro extra.

“Macaé é uma cidade cara e nem todo mundo tem dinheiro como esses empresários. Essa é a melhor solução que veio para ficar aqui. Não tem aluguel para pagar e não tem conta de água. Eu acho que nos adaptamos bem”, disse ele, que construiu uma casa de frágil alvenaria em um terreno invadido no bairro.

Se o Brasil é conhecido por suas grandes diferenças sociais, Macaé representa o país bem, já que concentra renda em uma elite muito pequena.

O PIB per capita da cidade é de 120.600 reais ao ano. Cerca de metade do orçamento de 865 milhões de reais de Macaé em 2007 veio de royalties de petróleo.

Os royalties deveriam ser usados para compensar problemas de infra-estrutura que surgem após a corrida por empregos na cidade.

NEGLIGÊNCIA

A ambientalista Kátia Junqueira, do Instituto da Advocacia Racial e Ambiental (Iara), diz que as administrações da cidade de Macaé e de outras onde há petróleo não têm utilizado os recursos dos royalties adequadamente, o que acaba gerando situações como a de Nova Holanda.

“A questão da água e a questão dos royalties são a mesma coisa. Assim como acontece em outras cidades petrolíferas, Macaé não teve política para lidar com a migração e a ocupação da sua área urbana”, afirmou.

“As mangueiras até que são uma solução inovadora, é a única desse tipo que ouvi falar no Brasil. Mas essas mangueiras também mostram como essas pessoas foram negligenciadas por anos e anos”, disse ela.

O secretário de Comunicação da Prefeitura, Rômulo Campos, reconhece os problemas nas áreas pobres de Macaé e afirmou que os investimentos planejados para Nova Holanda vão dobrar o fornecimento de água na região.

Macaé terá um investimento de 15 milhões de reais neste ano para instalar 7.500 metros de tubulações no município.

Mas isso ainda não é o suficiente, reconheceu ele.

“Não podemos acabar com esses problemas de infra-estrutura que surgiram há décadas. Também estamos preocupados que a produção de petróleo não está crescendo tanto quanto nos anos anteriores. Algum dia vai acabar, talvez em 30 anos. O que vai acontecer até lá, só Deus sabe”, afirmou Campos.

Até lá, as mangueiras de Nova Holanda ainda podem estar funcionando.