Pará: Pilotos atestam aumento da devastação

Para os pilotos que sobrevoam a região amazônica, a percepção de que as queimadas e os desmatamentos mudaram a paisagem da floresta é real. Entre pequenas clareiras abertas na mata e largas fronteiras expandidas em grande velocidade, para estes homens veteranos na aviação, a imagem das densas florestas vai ficando para trás. Mas apesar da intensa atividade madeireira, a devastação causada pela atividade agropecuária, sobretudo no sul do Estado do Pará, é a que mais comove quem olha de cima. O piloto Carlos Alberto Saldanha, de 55 anos, 36 deles de aviação, conta ter transportado um fazendeiro que abriu, em um único ano, uma área superior a 18 mil hectares. “Mudou tudo no sul do Pará. Você praticamente não vê mais floresta. Se brincar, você não voa mais de 20 minutos em mata fechada”, diz. Quando ele começou a pilotar, o passeio sobre o tapete verde escuro da floresta amazônica intocada naquelas bandas durava quase duas horas. Por Rafael Guedes, da Redação, O Liberal, PA, 08/03/2008.

Em quase quatro décadas de aviação, Saldanha já viajou todo o Estado, transportando principalmente garimpeiros, comerciantes e fazendeiros em aviões mono e bimotores. Segundo o piloto, os desmatamentos são mais comumente vistos ao redor de municípios como Redenção, Tucumã, São Félix do Xingu e Carajás. “A maior parte é pasto, e você nem vê tanto boi em certas aberturas, muito menos AGRICULTURA. É muito pouco, para o tamanho das áreas abertas”, conta.

As devastações feitas com queimadas trazem também o problema da fumaça, que em alguns trechos obriga os pilotos a navegarem apenas com base nas informações sequenciadas por aparelhos. “São regiões inteiras de fumaça. Mesmo as queimadas feitas nas roças atrapalham, porque são muitas”, diz Saldanha.

PERIGO

O piloto Eduardo Gomes, que há 26 anos sobrevoa a Amazônia, ressalta que a fumaça torna perigosa as viagens em regiões de serra no sul do Pará sem que seja possível se desviar da rota, tamanha a área queimada. “Quando chega em agosto, durante o verão, chega ao cúmulo de na região entre São Félix e Redenção, perdermos completamente a visibilidade por causa das queimadas. Voamos apenas por instrumentos, mas voamos com muito medo, porque é região de serra. Uma coisa é você voar por instrumentos com a ajuda de uma base, de um aeroporto. Outra coisa é você fazer isso sozinho”, afirma Eduardo. “Todos queimam juntos e são muitas (queimadas).”

Eduardo observa que as áreas devastadas por madeireiros, embora de grande potencial devastador, apresentam menor impacto visual, porque trabalham com seleção das espécies que têm maior valor comercial. “Já voei sobre Itaituba, garimpos do Tapajós, sobre Oiapoque e Roraima. Em 1988, os garimpeiros invadiram a área dos Ianomâmis até serem expulsos em 1992, e fomos nós que os levamos. Você não vê muita diferença nessas áreas. Se você pegar imagens de antes dos anos 90 e de agora, com a vinda dos fazendeiros, vai perceber que existe uma diferença na velocidade dos desmatamentos”, conta.

Com 28 anos de aviação na Amazônia, o piloto Ronaldo Dias concorda com Eduardo, destacando como região mais problemática o sul do Pará. “O maior responsável pelo desmatamento é o fazendeiro e não o madeireiro”, afirma, com um ressalva: “Mas geralmente o madeireiro é também fazendeiro”.

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