OIT: mais da metade das mulheres trabalhadoras tem empregos vulneráveis. Taxa de desemprego feminina é maior que a masculina

A diarista Maria Luzinete de Souza trabalha de segunda a sábado, em seis casas diferentes. Embora não tenha os benefícios de quem trabalha com carteira assinada, ela optou por trabalhar como autônoma por acreditar que a renda seja maior do que em um emprego fixo. Mesmo assim, a diarista gostaria de ter uma colocação formal no mercado de trabalho. Matéria de Sabrina Craide, repórter da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 08/03/2008.

“Eu gostaria de ter carteira assinada, porque vai me dar todas as garantias para o final da minha velhice, vou ter uma aposentadoria, ainda que não seja uma aposentadoria decente, que ninguém tem aposentadoria digna nesse país, mas eu gostaria porque vai me dar uma certa garantia no final da minha velhice”, avalia.

Maria Luzinete não é exceção no mercado de trabalho atual. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 51,7% das mulheres têm empregos vulneráveis, ou seja, trabalham por conta própria ou são trabalhadoras auxiliares ou familiares.

O número é menor do que o registrado em 1997, quando o total de mulheres com empregos vulneráveis era de 56,1%. Mas a vulnerabilidade continua afetando mais as mulheres do que os homens: no total, 48,7% dos homens não são trabalhadores assalariados.

A situação é pior nos países mais pobres. Na África Subsaariana, o percentual de mulheres com empregos vulneráveis é de 81,7%, e na Ásia Meridional, de 84,2%.

Os dados fazem parte da pesquisa Tendências Mundiais do Emprego das Mulheres, da OIT, divulgada por ocasião do Dia Internacional da Mulher, que será comemorado amanhã (8).

De acordo com a coordenadora da área de Igualdade de Gênero e Raça da OIT, Solange Sanches, o Brasil mostra tendência relevante para o aumento do número de empregos com carteira assinada.

“Para as mulheres, esse é um tema extremamente importante, porque a maior profissão feminina no país continua sendo a das trabalhadoras domésticas, cujo percentual com carteira assinada mal chega aos 30%”, afirma.

Segundo ela, a pesquisa demonstra a importância das mulheres como agentes econômicos e atores sociais na economia e no bem-estar das famílias. “O trabalho decente para as mulheres não é só uma questão de justiça, mas é uma medida inteligente porque passa a incluir na sociedade todo o potencial que existe nas mulheres”, argumenta.

Para a secretária nacional sobre Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Rosane da Silva, os dados da OIT são verdadeiros e têm muita similaridade com a realidade brasileira. Ela lembra que, no país, as mulheres também têm participado mais do mercado de trabalho formal, mas isso não significa que estejam sendo mais valorizadas.

“As mulheres estão entrando no mercado de trabalho, mas elas estão entrando nos setores mais precarizados”, afirma, lembrando que a participação é mais forte nos setores de serviço e comércio, onde as jornadas de trabalho são maiores e os salários mais baixos.

Além da diferença salarial, que segundo ela é de 30% em relação aos homens, Silva cita como obstáculos para que a mulher seja mais valorizada a intensificação do ritmo de trabalho, a cobrança maior das empresas e o aumento da rotatividade.

“A rotatividade tem crescido muito, e somos nós, mulheres, que sofremos mais, porque somos nós que engravidamos, ficamos afastadas do trabalho e isso acaba afetando para a entrada no mercado”, ressalta.

Taxa de desemprego feminina é maior que a masculina

A falta de políticas públicas de emprego voltadas especificamente para as mulheres pode ser uma das explicações para a diferença que ainda existe entre o percentual de homens e mulheres desempregados no mundo. A avaliação é da coordenadora da área de Igualdade de Gênero e Raça da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Solange Sanches.

O estudo Tendências Mundiais do Emprego das Mulheres, da OIT, mostra que a taxa mundial de desemprego feminino foi de 6,4% em 2007, contra 5,7% entre os homens. No Brasil, a desigualdade é maior: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em janeiro deste ano a taxa de desocupação entre os homens era de 6,2%, enquanto entre as mulheres ficou em 10,1%.

“Não existem ainda, em número suficiente, políticas de emprego que considerem a situação das mulheres. Isso significa considerar que as mulheres têm filhos e se ocupam deles, que elas são as principais cuidadoras das pessoas mais velhas e dos doentes das famílias e que isso representa responsabilidades que precisam ser harmonizadas com o trabalho”, afirma Sanches.

A participação das mulheres no mercado de trabalho é a mais alta da história, aumentou 18,4% na última década, o que representa 200 milhões a mais de trabalhadoras. Mas, no mesmo período, também aumentou o número de mulheres desempregadas: de 70,2 milhões para 81,6 milhões.

Sanches explica que o crescimento da taxa de participação feminina significa que mais mulheres estão trabalhando ou procurando emprego. “Então, se a taxa de desemprego aumenta, quer dizer que um número maior de mulheres se apresentou para o trabalho e não houve ocupações em número suficiente para responder a esse aumento,da participação de mulheres, por isso a taxa de desemprego aumentou”, afirma.

O setor de serviços é o que mais emprega mulheres: em 2007, 46,3% das trabalhadoras estavam nessa área, seguida pela agricultura, com 36,1%.

O aumento da participação das mulheres na força de trabalho na América Latina foi o segundo mais alto do mundo – perdeu apenas para o Oriente Médio – passando de 47,9% para 52,9%. Segundo Sanches, isso pode ser explicado pelo aumento da escolaridade das latino-americanas.

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