Tailândia nunca mais? artigo de Rogério Almeida

[EcoDebate] O que se convenciona chamar de elite no Brasil ganhou corpo a partir de uma política de privilégios. A apropriação do Estado e outras formas menos nobres, como a força bruta estão do DNA que garantiu a reprodução material, política e social da classe. O muque ainda hoje tem relevo na fronteira amazônica, como o caso ocorrido no município de Tailândia, nordeste no estado, que soma 20 anos de emancipação de Acará.

Reluz bem a imagem do Estado na dimensão financeira de financiamento de projetos, já quando se trata da garantia dos marcos legais a reação tem sido a incitação da população e trabalhadores contra representantes de órgãos públicos. O quebra-quebra promovido por cerca de mil pessoas animado por parte do setor madeireiro no município de Tailândia tem esse semblante. O município fica a 235 km de Belém, está na fatídica PA 150.

A depredação foi uma represália à ação do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e a Secretaria do Estado do Meio Ambiente (SEMA) por conta da apreensão de 13 mil cúbicos de madeira ilegal, que exige 500 carretas para ser deslocada para Belém. A sede do Fórum foi depredada e processos destruídos.

Não tem nada de atraente o lugar, que fica na metade do trajeto para quem se desloca da capital para a cidade pólo do sudeste do estado, Marabá. É lá que os ônibus costumam parar para almoço ou jantar. Em qualquer dos horários uma fuligem oriunda das carvoarias impregna o ar. A aridez do município nos remete a uma imagem de filme de faroeste: vento forte a lançar poeira sobre a rodovia sob um sol escaldante.

O município é top de linha entre os cem mais violentos do país, ocupa o sétimo lugar no ranking. Uma quadrinha de pistoleiros, entre eles um ex-vereador, foi presa no fim do ano passado. Os estudiosos garantem que é a aura da ilegalidade que norteia a vida na fronteira. Os mesmos ainda enfatizam que esses passivos sociais e ambientais são frutos do processo de “conquista” da região.

Os índices de passivos transbordam aos montes, tais como a grilagem de terras, crimes ambientais, bem como chacinas contra camponeses, sem terra, indígenas e pessoas a eles aliados. A impunidade reina em quase cem por cento das execuções. Uma avaliação preliminar sinaliza para o deslocamento da violência do sul e sudeste para outras regiões do estado, como no oeste.

Na região do Xingu e Tapajós esse tipo de ação violenta registrada em Tailândia já foi exercitada, como na região de Altamira Faz uns três anos técnicos do IBAMA e policiais federais foram cercados ainda no hotel por uma “tropa de elite “ do setor madeireiro.

Tem-se ainda o registro da ação de fazendeiros, madeireiros em obstar a celebração da missa pela passagem do primeiro ano da execução do sindicalista José Dutra da Costa (Dezinho) em Rondon do Pará, sudeste do estado, em 2001. Na ocasião o município ganhou ares de praça de guerra.

Os fazendeiros e madeireiros montaram barricadas com tratores e caminhões em oposição a militantes da reforma agrária e familiares do sindicalista, e ao centro uma igreja fechada. O município é uma das jóias da coroa quando se trata da indiferença aos aparatos legais. Fala-se que por lá reina o “coronel” Delsão, fazendeiro e madeireiro mineiro, a quem creditam inúmeros óbitos.

É conhecido nos bastidores do poder judiciário local a oposição, boicote e ameaças que sofreu um idealista representante empossado no Fórum num município marcado pelo abuso do poder econômico e político.

Em relato junto a representantes de entidades alinhadas na defesa da reforma agrária o representante informou do boicote que sofria no Fórum. Contou o representante que a ação passava pelo sumiço de documentos, violação de correspondência, entre tantas coisas. O mesmo lembrou ainda as ameaças que sofreu.

É sabido o rosário de ilegalidade que dá seiva a maior parte da atividade madeireira e das carvoarias. Os relatos de todos os tipos de violação povoam os anais desde muito tempo: ameaças de morte, trabalho escravo e execuções de opositores. A terra e os recursos naturais ocupam centro da disputa, que promete outros capítulos de violência, mais rápido do que se possa imaginar, ao calor das obras de infra-estrutura agendadas no PAC, que desnuda uma ação dúbia do Estado. Tailândia nunca mais?

Rogério Almeida é colaborador da rede www.forumcarajas.org.br e articulista do IBASE

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