Falta debate sobre mudanças climáticas e agricultura brasileira

Um artigo publicado na revista Science no início do mês ressalta que as regiões mais pobres do planeta sofrerão um impacto maior em suas agriculturas caso a previsão de mudanças climáticas para os próximos anos realmente ocorra. Prioritizing climate change adaptation needs for food security in 2030 – escrito pelo pesquisador da Universidade de Stanford, David Lobell, e sua equipe – não inclui o Brasil dentre esses países, mas pesquisadores brasileiros acreditam que os alertas do artigo sirvam para fomentar uma reflexão sobre a questão no país. Por Daniela Lot, da ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, SBPC/LABJOR, 28/02/2008.

Carlos Cerri, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, explica que no Brasil 30% do Produto Interno Bruto (PIB) vem do agronegócio. “São esses 30% que estão dando certa estabilidade à nossa economia”, diz ele. No entanto, apesar de a agricultura depender em grande medida do clima, ainda não se sabe quais possíveis reflexos das mudanças climáticas no agronegócio. “Não há previsão sobre o nosso futuro em termos econômicos”, alerta Cerri. De acordo com o agrônomo, como no Brasil quase não há sistema irrigado, é fundamental saber teoricamente como seriam nossos cenários de cultivo da soja, da cana-de-açúcar, do café, das pastagens e outras culturas se o clima mudar: “nós precisamos conhecer nossas vulnerabilidades caso aconteçam as mudanças climáticas, e para isso ainda precisamos fazer muitas pesquisas”.

Ricardo Ojima, do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, ressalta que grande parte da capacidade de resposta que um país ou região terá é algo que depende das políticas públicas e da capacidade de gerenciar a gradual mudança nas condições climáticas. “Por isso – destaca Ojima – é importante que desde já as regiões apontadas na pesquisas como mais vulneráveis invistam em desenvolvimento e tecnologia”.

De acordo com o pesquisador da Unicamp, no caso do Brasil já existe uma tradição de desenvolvimento e tecnologia na área da agroindústria e por isso o país teria uma capacidade de resposta mais adequada frente às mudanças climáticas. “No artigo – acrescenta ele – os autores parecem concordar com a idéia de que o Brasil e a América Latina de uma maneira geral não serão as principais regiões de vulnerabilidade em termos de suas capacidades de resposta. Não que o Brasil deva ficar tranquilo com sua situação, mas o país está alguns passos a frente das regiões que foram destacadas no artigo”.

Para Cerri, o Brasil não está em boas condições. O agrônomo ressalta o grande vazio de informações em relação à vulnerabilidade dos sistemas brasileiros no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) de 2007. “Os países da Europa e os Estados Unidos – diz ele – têm mais informações. Evidentemente que temos algum dinheiro investido em pesquisa e por isso estamos melhor que os países apontados na pesquisa de Lobell, mas isso não é suficiente para encararmos uma possível mudança climática com as informações que nós temos hoje.”

Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária, também alerta para o risco das mudanças climáticas atingirem algumas regiões brasileiras, sobretudo o Nordeste e o Sul. Para o pesquisador, duas ações importantes de mitigação podem ser feitas: uma delas, a curto prazo, é a adaptabilidade, isto é, trabalhar com o melhoramento genético das culturas que estão mais ameaçadas e que se adaptem a essas temperaturas mais elevadas. “No entanto, essa é uma linha importante de pesquisa até um determinado ponto – explica Assad – porque se a temperatura subir muito não há melhoramento genético que resista”. Por isso, por outro lado, ao longo prazo, é possível trabalhar com ações de mitigação, que permitam a redução da emissão de gases de efeito estufa, buscando na agricultura práticas que diminuam a quantidade de carbono, como, por exemplo, a integração entre pecuária e lavoura, a utilização de sistemas agroflorestais, a redução de erosão, a produção de água com manejo adequado de bacias hidrográficas, ou o incentivo ao plantio direto. “Trabalhar nessa linha da adaptação e da mitigação não significa que vamos reverter o problema, mas nós poderemos reduzir seus efeitos. No entanto, já estamos atrasados nisso”.

A questão humana

Ojima ressalta a importância de se discutir e colocar em evidência as dimensões sociais e institucionais das mudanças climáticas. De acordo com o sociólogo, do ponto de vista das ciências humanas, o papel da sociedade e das instituições políticas é tão importante quanto o desenvolvimento de novas tecnologias.

“No cenário internacional, o International Human Dimensions Programme on Global Environmental Change IHDP tem realizado diversas conferências e reunido cientistas do mundo inteiro em torno das dimensões humanas das mudanças climáticas, dando enfoque às mudanças globais”, explica Ojima. O pesquisador ainda completa afirmando que no caso do Brasil e de outros países em desenvolvimento, essa é uma área que está ainda em fase inicial. Esse ano a Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Ambiente e Sociedade vai realizar seu encontro bienal em Brasília, em junho, focalizando justamente a contribuição da pesquisa na área de ambiente e sociedade para a problemática das mudanças ambientais globais”.

Dinâmica populacional e ambiente

O Núcleo de Estudos de População (NEPO), que também tem uma tradição de estudos na área de população e meio ambiente, está lançando o livro Dinâmica populacional e mudança ambiental: cenários para o desenvolvimento brasileiro, organizado por Daniel Hogan. “O livro – apresenta Ojima – é uma compilação de trabalhos que envolvem a discussão sobre população e meio ambiente, dando um panorama do que se tem produzido em termos dessa relação e a contribuição que isso pode ter para a análise das mudanças ambientais globais”.

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