Agricultura: Desenovelando o Sustentável, artigo de Carlos R. Spehar

“A decisão correta para se realizar o sustentável depende de se conhecerem os fatores de sucesso, qualificando e quantificando-os, dentro dos biomas”. Carlos R. Spehar é professor da Universidade de Brasília (UnB). Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”:

Exploração agropecuária em base sustentável, seja ela voltada para a produção de grãos, fibras, madeira ou agro-combustível, tem sido o tema que projeta o futuro da convivência na Terra. O voraz subjugar da natureza pede soluções duradouras para resolver o dilema da fome e aumento populacional. Ainda sentimos o efeito das pragas e doenças que, nos séculos precedentes, varriam populações humanas. De ameaçada, nossa espécie passou a ameaçadora.

Na atualidade, busca-se definir o sustentável, a luz das gerações vindouras. Há várias tentativas de explicar. Uma delas, de nossa proposição: exploração com máximos retornos econômicos por unidade de insumo que resulte no menor impacto ambiental possível. Como proposta, parece intangível, servindo mais como objetivo do que meta, dado à complexidade dos sistemas biológicos.

Teria que ser palpável, isto é, refletir o que se pratica. Tentemos decodificá-la Maximizar retornos por unidade de insumo, envolve todo um conjunto de práticas, desde o emprego de variedades adaptadas com o manejo correto, até a colheita, beneficiamento, estocagem, transformação e mercado.

Todas essas fases requerem tecnologia e estratégias. Em última análise, dependem do nível de treinamento dos produtores ou daqueles que os orientam na tomada de decisão.

O que ocorre entre plantio e colheita é a parte mais complexa. Envolve conhecimento sobre a biologia das plantas, o funcionamento do solo e suas implicações no equilíbrio nutricional dessas mesmas plantas.

Sua sanidade depende desse equilíbrio. Quando as plantas se desenvolvem saudáveis, as ameaças fito-sanitárias são menores, resultando em redução no gasto com defensivos e com adubações de emergência para contornar problemas não visualizados antes. Tem-se que espelhar nas conseqüências de ações antrópicas que ameaçam os ecossistemas brasileiros.

A sanidade depende, por sua vez, de práticas como rotação, sucessão e associação de cultivos – diversificação é a palavra que sintetiza. Na prática, isso implica em aumento das variáveis; o sistema torna-se complexo e mais difícil de ser assimilado, pois depende de se dominar um conjunto de tecnologias. Como se encontra, é um círculo vicioso, voltando sempre à origem de tudo: falta de educação e treinamento. Por isso, tem sido mais factível o monocultivo vulnerável.

A decisão correta para se realizar o sustentável depende de se conhecerem os fatores de sucesso, qualificando e quantificando-os, dentro dos biomas.

Com relação ao funcionamento dos solos, em especial os tropicais, vamos ao cerne da questão. O fator-chave de sucesso.

Chama-se matéria orgânica, verdadeiro cimento do solo. Tome-se como exemplo as terras do Cerrado; são pobres em nutrientes minerais, ácidas e sua atividade química depende da matéria orgânica, mesmo que se faça calagem e adubação. Sem ela é como se o solo fosse apenas suporte para as plantas.

Ela responde pela estruturação do solo, permitindo movimento de ar, água e nutrientes. Nesse ambiente, as raízes das plantas crescem em profundidade, contribuindo ainda mais para manter a estrutura e aumentar a matéria orgânica.

Ademais, a matéria orgânica retém cátions como o cálcio, o magnésio, o potássio, e os micro-nutrientes – zinco, manganês, cobre, boro dentre outros. Os elementos por ela retidos formam um estoque que é liberado ao longo do crescimento e desenvolvimento das plantas. Ou seja, ao longo do ciclo vital, quando elas os necessitam. Analise-se o funcionamento da floresta Amazônica.

Ao contrário, quando a matéria orgânica se perde, os nutrientes ora são disponibilizados em excesso (como os provenientes de sais de potássio, altamente solúveis), ora em falta, depois de chuvas torrenciais que lavam o solo. Isso gera desequilíbrio. Veja-se o que pode acontecer, com a ocupação indevida.

Em decorrência as plantas tornam-se vulneráveis e os custos com defensivos são acrescidos, para proteger plantas que se tornam frágeis nessas condições.Sem conhecer essa dinâmica e como fazer uso dos recursos, atira-se no escuro.

Conhecidos os fatores, o próximo passo é definir sistemas de manejo que contribuam ao seu aprimoramento. É como uma reação em cadeia: reduz-se o mau manejo do solo e da planta, maximiza-se a relação retorno/insumo, aumenta-se o rendimento e protege-se o ambiente. Já que vamos interferir, façamos bem.

A exploração em base diversificada, que incorpore práticas fundamentadas no conhecimento dos fatores de sucesso, torna-se rentável. Isto ajuda a manter reservas e a conservar o remanescente dos biomas.

No Brasil, os biomas têm sido alvo de ações predatórias, pouco racionais, de erros em cadeia que denotam desconhecimento, pouco caso, inconseqüência e má fé. Age-se como se os recursos fossem infindáveis, definindo, na perspectiva do desastre, as últimas gerações de humanos. A bola da vez é Amazônia.

Lá, desmata-se com avidez, como se fazia no Cerrado em décadas anteriores, na esperança de sacar o que se pode e incorporar o máximo possível de terras à exploração. Vale mais o volume do que a qualidade. Isso sem contar aqueles que se encontram no limite, como o da Mata Atlântica, que praticamente acabou.

Portanto, o sustentável, independente do bioma, é tangível, ainda que, em um primeiro momento, aparente ser algo etéreo.

Pode-se evitar a continuidade dos desastres, aumentando a participação popular, liderada por cientistas de peso, com os pés no chão. Ou seja, diante da necessidade de se evoluir para sistemas complexos, não há outra saída senão investir alto em integração, apoiada em pesquisa e desenvolvimento.

O sustentável depende de se definir o norte, ou onde se pretende chegar e as ferramentas necessárias. Isso é possível e deve ocupar alta prioridade nas ações governamentais. De forma participativa, como problemas complexos pedem, a proposta evolui, assim como o ser humano, nessa peregrinação terráquea.

Parte-se do disponível, acrescentando informação, conhecimento e tecnologia, amplia-se o horizonte e a imaginação, realimenta-se com os avanços da ciência. Assim, pode-se dizer que há seriedade de propósito e que no futuro consolida-se a sustentação.

A natureza, da qual todos os seres sobreviventes fazem parte, inclusive nós, agradece e retribui com novas formas de equilíbrio. O sustentável, neste caso, depende diretamente do grau de envolvimento e compromisso que temos. O resto vem como fruto, pois, inexoravelmente, colhemos o que semeamos.

Artigo originalmente publicado pelo Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 3453, de 20 de Fevereiro de 2008.

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