Professor da UnB comenta a liberação das variedades de milho transgênico

A multinacional continua a mesma, mas a elite política mudou

Leia a mensagem de Nagib Nassar, professor titular de Genética da UnB: “Agora, eu sou radicalmente contra [a liberação dos transgênicos] e acho um retrocesso o governo fazer isso, na verdade, está acontecendo porque mais uma vez a elite política desse país se rende ao fascínio de uma multinacional.’

Quem disse isso foi Luiz Inácio Lula da Silva, em julho de 2001, durante a Caravana da Agricultura Familiar, referindo-se à liberação da soja transgênica. A história se repete como nós aprendemos em livros de história e como nós vivemos com os políticos de nosso país.

Com aval do próprio presidente Lula e sob comando da ministra-chefe da Casa Civil, o governo liberou esta semana o uso comercial de duas variedades de milho transgênico. O Conselho Nacional de Biossegurança reuniu-se para decidir sobre os recursos apresentados por Ibama e Anvisa, que pediram o cancelamento da decisão da CTNBio. Por 7 a 4 o Conselho desconsiderou a análise técnica desses órgãos.

Os ministérios que lidam com o mérito da questão votaram contra. Além de Meio Ambiente e Saúde, também Desenvolvimento Agrário e Pesca.

Junto com a Casa Civil, votaram a favor: Relações Exteriores, Defesa, Justiça, Indústria e Comércio, Agricultura e Ciência e Tecnologia. O ok para as multinacionais produtoras de milho Bt veio do próprio governo, cujo presidente manifestou-se contrário aos transgênicos durante a campanha eleitoral.

O povo brasileiro cobrará os votos justificados desses sete ministérios que votaram pela liberação. Em nome da transparência, queremos saber o que cada um deles pensa sobre a biossegurança e os impactos socioeconômicos da liberação do milho transgênico. Há ainda uma decisão judicial sobre a validade da decisão da CTNBio.

O Brasil é centro de diversidade genética do milho, do Centro-Sul até o a Amazônia, onde há milhares de variedades de milho foram desenvolvidas desde milhares dos anos da agricultura indígena. Essa diversidade genética é um patrimônio para toda humanidade, como para o Brasil e o povo brasileiro.

Com um sistema reprodutivo alógamo do milho, o conjunto gênico dessas variedades indígenas é ameaçado pela contaminação. É engraçado que a multinacional, após contaminar variedades dos pequenos agricultores, cobrará deles violação de patente, gerando centenas de ações judiciais.

Será que os 15 integrantes da CTNBio, defensores do milho transgênico, defenderão os pequenos agricultores?

Por causa deste perigo, o México e o Peru, que são outros centros de diversidade de milho, proibiram milho Bt e todas as variedades transgênicas Bt. Mais que isso, todos os países europeus proibiram até o consumo e a importação. No Brasil, há outra historia para contar.”

Comentário publicado pelo Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 3450, de 15 de Fevereiro de 2008.

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