Humanos já alteraram 100% dos oceanos

Mapa mostra que não existem mais áreas marítimas “virgens” no planeta. Levantamento indica que 40% da cobertura oceânica está altamente deteriorada; montes marinhos e recifes estão entre os mais afetados. Por Claudio Angelo, enviado especial a Boston, para a Folha de S.Paulo, 15/02/2008.

Quem olha de uma praia para o oceano e imagina, além do litoral, vastidões de mar intocadas pelos seres humanos vai levar um balde de água fria hoje: o primeiro levantamento global já feito do impacto da humanidade sobre os mares mostra que não existe um metro cúbico sequer da vastidão azul que seja realmente “virgem”.

O estudo, que deu origem ao mapa desta página, compilou as bases de dados existentes sobre 17 impactos humanos de 20 dos 24 grandes tipos de habitat marinho. Não só não existem áreas intocadas, mas também pelo menos 40% do oceano está fortemente afetado.

Fatores como poluição inorgânica, acidificação, elevação global da temperatura do mar, pesca de arrasto e espécies invasoras estão transformando quase metade dos mares da Terra em “desertos de água”.

“Isso é notável, quando se considera a vastidão dos oceanos”, disse Benjamin Halpern, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Barbara (EUA). Ele e colegas apresentaram o estudo, publicado hoje na revista “Science”, numa entrevista coletiva ontem na reunião anual da AAAS (Associação Americana para o Avanço da Ciência), em Boston.

Segundo Fiorenza Micheli, da Universidade Stanford, nas regiões mais impactadas até 50% dos grupos de seres vivos sumiram do ecossistema. Ali, predadores como cetáceos e tubarões, estão ausentes; há mais espécies invasoras; no caso de recifes de coral, seções inteiras da cadeia alimentar inexistem.

Para uma espécie que depende de recursos marinhos, como o Homo sapiens, seguir com esse estrago equivale a matar a galinha dos ovos de ouro.

O mar do Norte, o leste do Caribe e as águas do Japão estão entre as áreas mais afetadas. Mas praticamente todas as regiões costeiras do globo têm uma fina faixa vermelha.

Montanhas submersas

Entre os ecossistemas, a situação mais grave é a dos montes marinhos. Essas imensas montanhas subaquáticas, algumas mais altas que o Everest, abrigam corais que são um dos alvos preferidos da pesca de arrasto, que “raspa” o fundo do mar destruindo e cobrindo de lama tudo no caminho.

“Quanto mais fundo você está, mais tempo o ecossistema demora para se recuperar”, diz Les Watling, bióloga da Universidade do Havaí. “Uma recomposição que leva dezenas de anos em águas rasas leva séculos para acontecer em montes marinhos.”

Exemplos disso estão nos oceanos Austral e Ártico, duas das zonas que ainda exibem a cor azul brilhante no mapa acima, que caracteriza áreas com influência humana muito baixa (fator de impacto menor que 1,4, numa escala definida pelo grupo que vai até 15,5).

Como o grupo de Micheli e Halpern baseou seu trabalho em bases de dados oficiais, como a da FAO (órgão das Nações Unidas para a alimentação e AGRICULTURA), a sobrepesca ilegal da qual há relatos na Antártida simplesmente não aparece. A poluição do hemisfério Norte, que afeta o Ártico, também não foi computada, e efeitos do degelo acelerado dos pólos, causado pela mudança climática, ficaram de fora.

Mesmo áreas como a imensa “ilha” de águas prístinas no meio do Atlântico, estendendo-se do Nordeste do Brasil quase até a África, podem ter permanecido relativamente intocadas mais por motivos perversos do que por desejo de preservação. “No período que olhamos, de 2000 a 2005, a atividade pesqueira se mudou de algumas áreas, e outras já são desertos biológicos [regiões naturalmente pobres em pescado]”, disse Micheli à Folha.

Se por um lado isso é um problema, por outro pode indicar um dado positivo: vários ecossistemas marinhos conseguem se recuperar rápido depois que o fator de impacto (no caso, a sobrepesca) desaparece. Segundo os cientistas, isso deve estimular os governos a agir globalmente para proteger os mares. “Estamos fazendo as coisas ao contrário”, diz Watling. “Não deveríamos criar áreas marinhas protegidas e sim criar zonas de pesca ou de pesca de arrasto.”

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