Marina Silva admite que números são indícios de desmatamento

‘O Deter é um sistema diferente, não é para taxa, é para fiscalização de desmatamento’, disse ministra

SINOP – A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou nesta quarta-feira, 30, que os dados que mostram aumento no desmatamento na Amazônia estão corretos. Marina admitiu, porém, que os números apurados pelo sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam “indícios” de desmatamento. “O Deter é um sistema diferente, não é para taxa de desmatamento, é para fiscalização”. Por José Maria Tomazela, de O Estado de S. Paulo, publicado pelo Estadao.com.br, quarta-feira, 30 de janeiro de 2008, 17:36

Em entrevista coletiva nesta quarta, a ministra não escapou de um aparte do governador Blairo Maggi, do Mato Grosso, o Estado com o maior número de municípios considerados desmatadores. Maggi interrompeu a ministra no meio da entrevista para dizer que “os dados de abril a setembro não estão corretos”. “Preciso falar agora, senão vou ficar com o chapéu na mão”, justificou. O governador disse à ministra que o próprio presidente do Inpe, Gilberto Câmara, reconheceu o erro.

Marina deu entrevista no saguão do aeroporto de Sinop, no norte do Estado, a 500 km de Cuiabá, depois de fazer um sobrevôo na região, num helicóptero do Exército. Ela voou cerca de 1 hora a partir de Marcelândia, situada mais ao norte do Estado, na companhia dos ministros Tarso Genro, da Justiça, e Guilherme Cassel, do Ministério do Desenvolvimento Agrário. O governador juntou-se à comitiva em Marcelândia.

Na chegada em Sinop, o grupo se reuniu no saguão do aeroporto, sem a participação da imprensa. Na coletiva, a ministra defendeu o sistema Deter, de detecção de desmatamentos em tempo real. “Até agora essas informações têm sido corretas.” Explicou que os dados apurados pelo Deter não são os mesmos do Prodis, que estabelece a taxa de desmatamento. “O Deter sinaliza os indícios de desmatamento para que possamos agir preventivamente em cima dessa sinalização.” O que motivou a divulgação, segundo ela, foi a informação de que até dezembro de 2007 a área desmatada na Amazônia chegaria a 7 mil km2. “É uma forma de alerta. O desmatamento caiu de 2005 para cá e se perdemos essa batalha será ruim para todo mundo.”

Os dados foram usados para a elaboração do decreto que estabelece sanções para as propriedades que agirem de forma lesiva ao meio ambiente. “Trabalhamos em cima dessas informações e até agora tem dado certo. Não podemos ficar numa discussão se é desmatamento ou não e daí a 60 dias, quando vamos comprovar se foi ou não, aí o leite já foi derramado.” O governador havia questionado o critério de se considerar desmatada área que sofreu queimada, apesar da possibilidade de regeneração da floresta. Segundo Marina, os dados do Deter serão revistos pelo sistema Prodis em agosto. Ela alegou que isso é feito todo ano e não decorre das reclamações do governo do Mato Grosso. “Todo ano o sistema Deter indica o desmatamento e nós saímos agindo preventivamente. Em agosto o sistema Prodis confirma ou não aquela tendência.”

A ministra elogiou Blairo, mas criticou a “falta de diálogo” com alguns governadores, citando o de Rondônia, Ivo Cassol (PPS). “Com ele, é difícil, quase impossível trabalhar.” Ela não quis comentar a afirmação do governador de que a divulgação dos números pode ter sido causada por uma disputa pelas verbas do orçamento dos ministérios, sujeitas a corte por causa do fim da CPMF. “Nesse momento não adianta essa discussão e o governador tem a consciência do trabalho que ele fez para reduzir o desmatamento no Estado.” O governador não pretende esperar até agosto pela revisão dos números. Dos 36 municípios que desmataram mais, 19 estão no Estado. Em 60 dias, a Secretaria do Meio Ambiente vai checar todos os pontos mostrados pelo Deter. Para comprovar que os números não são reais, Blairo apresentou um relatório preparado pela prefeitura de Marcelândia, segundo o qual 87,5% dos pontos detectados no município não eram desmatamentos recentes. Ele disse que o decreto que penaliza as propriedades desmatadoras será cumprido, mas pediu um tempo para os ajustes necessários. Requisitou também ajuda do Exército e da Polícia Federal para a fiscalização.

Ao ser informado que associações de produtores se organizam contra as medidas, disse que todos terão de conviver com elas. “Temos de entender que o tempo do diferente passou. Se vamos ter sustentabilidade, será dentro desse limite de 80% que temos de preservar.” Do contrário, os produtores terão de arcar com as penalidades como a interdição de atividades econômicas. “Minha conversação com os setores produtivos é que precisamos estar dentro da legislação e isso não se discute mais.”

O presidente do Inpe, Gilberto Câmara, deixou a reunião sem dar entrevista. O coordenador do Projeto Amazônia, Dalton Valeriano, reconheceu que os dados do Deter não têm a mesma precisão do sistema Prodis, pois só registra desmatamentos com área superior a 25 hectares. Ele disse que a divulgação dos números teve o intuito de mostrar a tendência de aumentar o desmatamento. “Com a reação que teve, vamos fazer uma validação desses dados.”

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