A água e os alimentos se tornarão recursos de potenciais conflitos, adverte Jacques Diouf (FAO)

Parece óbvio que temos alimentos para todos no mundo, entretanto não é simples assim adverte Jacques Diouf, diretor-geral da Organização da Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Segundo o dirigente da FAO, em entrevista para o Le Monde, 26-01-2008, a procura por alimentos aumenta a cada dia e pressiona recursos naturais já escassos como a água. A FAO organizará em 2008 dois encontros: o primeiro discutirá o tema da segurança alimentar e a mudança climática; o segundo terá como tema: ‘Como alimentar o mundo em 2050’. A tradução é do Cepat.

Eis a sua entrevista.

No seu relatório sobre os riscos globais 2008, o Fórum Econômico Mundial destaca a crise financeira, mas também a insegurança alimentar em face do aumento dos preços constatados em 2007. Que mensagem você deseja passar para os participantes do encontro em Davos?

Eu quero torná-los conscientes de que, por muito tempo, ignoramos uma questão fundamental: as pessoas precisam comer todos os dias. Considera-se óbvio que temos alimentos suficientes, entretanto alguns fatores causam preocupação. A procura mundial por alimentos é cada vez maior e as mudanças climáticas provocam secas e inundações. No início de 2007, os estoques de alimentos foram os mais baixos desde 1980 e, no início de 2008, eles ainda diminuíram 2%. Gostaria de lembrar alguns números: 854 milhões de pessoas não têm o suficiente para comer, a população mundial vai passar de 6 para 9 bilhões em 2050 e 70% dos pobres estão no mundo rural. Contudo, não foi dada prioridade à agricultura. Sentimos uma preocupação crescente em Davos. A Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) vai propor duas grandes reuniões no ano de 2008, uma conferência de chefes de Estado sobre a segurança alimentar mundial e o desafio do aquecimento global, em junho e, uma segunda sobre o tema “como alimentar o mundo em 2050?”, em novembro. Porque governar o mundo é antecipar-se. O nosso papel como uma agência das Nações Unidas (ONU) é o de oferecer a reflexão para os líderes mundiais.

Qual o impacto da elevação dos preços dos alimentos?

Se não encontrarmos mecanismos de regulação econômica e técnica, a água e os alimentos serão recursos de potencial conflito. Em Junho de 2007, a FAO advertiu sobre crises sociais que o aumento das commodities agrícolas poderá acarretar. Essas crises já se deram em lugares como a Indonésia, a Mauritânia, o Senegal, a Guiné e o Iêmen.

Qual a solução preconizada pela FAO para acalmar as tensões?

É preciso discutir isso num contexto complexo. A crise alimentar está ligada à procura de biocombustíveis vinculada ao preço do gás e do petróleo – também para alimentar a demanda dos países emergentes fazendo com que o problema evolua em quantidade e qualidade. O fato de que mais e mais pessoas consumam carne e leite terá um grande impacto sobre as quantidades de água e grãos. Todas essas demandas pressionam recursos limitados. Temos de tomar decisões estratégicas e políticas sobre esta questão coletivamente.

Você parece lamentar que alguns países, como a China, tenham tomado medidas de isolamento…

Por razões estruturais a situação (nos mercados agrícolas) não vai mudar da noite para o dia. Em 2007 a evolução dos preços teve um impacto sobre a capacidade de importação de produtos alimentares provenientes de certos países. O faturamento total atingiu um recorde de 747 bilhões de dólares. Para os países em desenvolvimento significou um aumento em 25%. Paralelamente, observamos Estados tomarem medidas restritivas com taxas sobre as exportações ou estabelecimento de preços. Não é com decisões unilaterais que o problema será resolvido. A FAO, por sua vez, lançou um programa para incentivar doadores bilaterais e multilaterais para ajudar os agricultores dos países pobres a comprarem sementes e fertilizantes, a fim de aumentar a produção.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line, 30/01/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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