Até onde a vista alcança, a floresta dá lugar ao pasto. Boa parte da madeira é ilegal, diz Ibama de MT

Entre Alta Floresta e Paranaíta, norte de Mato Grosso, recursos públicos acabam ajudando a financiar o desmate. Madeireiros que exploram a região defendem o setor e se consideram “injustiçados’; para eles, falta uma política de exploração da madeira. Por Rodrigo Vargas, enviado especial, Alta Floresta e Paranaíta,Folha de S.Paulo, 28/01/2008

Cinquenta quilômetros de destruição separam as cidades de Alta Floresta e Paranaíta, no extremo norte de Mato Grosso. O caminho por terra entre os dois municípios -listados entre os 36 mais devastados da Amazônia- em nada lembra a imagem de natureza imponente em geral associada à região.

Às margens da rodovia MT-206, e até onde a vista alcança, predominam as pastagens, o gado e os restos queimados do que um dia já foi a floresta.

Uma medida provisória de 2001 obriga as propriedades a preservar 80% de sua reserva legal -antes dessa data, a obrigação era de 50%. “Nenhuma propriedade nessa rodovia manteve a reserva legal”, diz o chefe-substituto do Ibama em Alta Floresta (830 km de Cuiabá), Cláudio Cazal.

A Folha percorreu a rota Alta Floresta-Paranaíta e constatou que não é apenas a ausência do Estado que facilita o desmatamento. A destruição também avança com o apoio do dinheiro estatal: no caminho, três grandes fazendas de gado exibiam placas de financiamento do Banco do Brasil, por meio do FCO (Fundo Constitucional do Centro-Oeste).

Além de extensas áreas desmatadas, duas delas haviam represado locais de preservação permanente, como beiras de córregos e até mesmo áreas de nascentes.

Na opinião de Cazal, o financiamento de atividades econômicas incompatíveis com a preservação da floresta é reflexo de uma contradição do governo federal. “O governo que fala em preservar é o mesmo que apóia e dá dinheiro para atividades que não podem coexistir com a floresta, como a pecuária extensiva”, afirma.

“O que vemos entre Alta Floresta e Paranaíta é que não há critério ambiental algum para a concessão desses financiamentos. No final, o governo financia o desmatamento.”

Em 2006, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso contou mais de 1 milhão de cabeças de gado em 4.600 propriedades rurais dos dois municípios. Mas a pecuária não é a única atividade a avançar sobre a mata. A exploração madeireira, mesmo em decadência, continua a abrir novas frentes de exploração.

No sentido Alta Floresta-Paranaíta, um caminhão transportava na tarde de anteontem três toras de grande porte. O peso era tamanho que o veículo seguia adiante com dificuldade.

Era apenas o primeiro sinal do que seria encontrado no chamado “setor madeireiro” de Paranaíta: centenas de toras de todos os tamanhos, blocos de madeira serrada e montes de pó de serra a se elevar a até dez metros de altura. Caminhões eram carregados com a madeira beneficiada, enquanto outros esperavam a vez.

Em junho do ano passado, uma operação do Ibama lacrou três das maiores madeireiras da cidade. As autorizações de desmate não correspondiam à quantidade de madeira estocada nos pátios.

Em resposta, moradores bloquearam com caminhonetes a estrada e mantiveram os fiscais detidos na cidade. O grupo só foi liberado depois da retirada dos lacres das empresas, nas quais havia, segundo o Ibama, mais de 2.600 m3 de madeira irregular -volume suficiente para encher 90 carretas.

Madeireiros

Ouvidos pela reportagem, madeireiros dos dois municípios defenderam o segmento, que consideram “injustiçado”.

“Quando sai algum número de desmatamento, logo vinculam o problema à nossa atividade, o que é um erro. Não fazemos derrubada, e sim corte seletivo”, diz o madeireiro Jairo de Carli, de Alta Floresta. “Quem desmata e faz corte raso é o fazendeiro, para plantar ou abrir pastagens. Nós precisamos da mata em pé.”

Para o madeireiro Aloísio dos Santos, em Paranaíta desde 1990, a “criminalização” do setor é fruto da política de ocupação da região. “Por aqui, o que manda é a política da terra, da plantação e do gado. Nunca tivemos política para a madeira. E olha que poderíamos ser os maiores parceiros da conservação da floresta. Mas somos tratados como bandidos”, afirma.

Boa parte da madeira é ilegal, diz Ibama de MT

Os pátios das madeireiras de Alta Floresta (MT) estão cheios. Boa parte dessa madeira, embora coberta por autorizações de exploração florestal -por meio de planos de manejo-, é de origem ilegal, diz Cláudio Cazal, chefe-substituto do Ibama na cidade. “São madeiras esquentadas.”

O processo funciona assim: os madeireiros aprovam projetos sobre áreas já desmatadas ou que sofreram corte seletivo das principais espécies; depois, utilizam as autorizações para transportar, processar e revender madeiras retiradas ilegalmente em outras áreas.

“Essas madeiras são roubadas de áreas públicas e de preservação permanente, por exemplo, onde ainda existem madeiras nobres, e vendidas como se tivessem origem legal. Mas, quando vamos fiscalizar, a área de manejo não existe ou não comporta aquela produção”, afirmou Cazal.

A produção é levada majoritariamente para o mercado consumidor das regiões Sul e Sudeste. “É por isso que não adianta esperar consciência ambiental de quem está aqui, como cobrou a ministra [Marina Silva, do Meio Ambiente]. Isso não existe. A alternativa é convencer os consumidores.”

Frases

Quando sai o número do desmatamento, logo vinculam o problema à nossa atividade, o que é um erro. Quem desmata e faz corte raso é o fazendeiro. Nós precisamos que a mata fique em pé – JAIRO DE CARLI madeireiro de Alta Floresta

Pecuarista rejeita rótulo de “vilão” da natureza

Para Fernando Vieira, expansão da fronteira agrícola aliviou crise social no Sul

Natural de Barretos (interior de São Paulo), o pecuarista Fernando Antônio Vieira, 68, chegou à região de Alta Floresta (MT) em 1975, no início do projeto de colonização que faria nascer a cidade. Hoje dono de três fazendas, onde cria um dos maiores rebanhos bovinos da região, ele rejeita o rótulo de “vilão” da natureza “imposto pelas regiões Sul e Sudeste”.

FOLHA – Como o setor tem acompanhado a repercussão do anúncio dos números do desmatamento?

FERNANDO VIEIRA – O que chama a atenção é que não se fala das pessoas que trabalham aqui. É como se houvesse só a floresta. E somos mais de 20 milhões na Amazônia. A colonização nesta região deu um desafogo em Estados superpovoados, principalmente os do Sul. Eu não sei o que seria hoje desses Estados se não tivesse surgido essa válvula de escape oferecida pelas fronteiras agrícolas. Isso evitou o agravamento de problemas sociais.

FOLHA – Como era a região em 1975, quando o sr. Chegou?

VIEIRA – Era mato. Somente mato. Na época, a documentação da empresa colonizadora já dizia que era preciso conservar as castanheiras e que seria preciso seguir a legislação e manter 50% de áreas preservadas [hoje, a reserva legal é de 80%]. Nós atendemos a um chamamento do governo para que viéssemos ocupar a região.

FOLHA – Mas não se desmatou além da conta?

VIEIRA – Ninguém iria se aventurar a sair dos grandes centros e vir para cá se não fosse para trabalhar e ganhar dinheiro. Houve exageros nesse período? Houve. Mas o que queremos hoje é parceria com o governo.

FOLHA – Como assim?

VIEIRA – A produção de grãos e de gado é importante para o país. Hoje, se nós precisamos fazer algum ajuste, temos que fazer em conjunto. Nós queremos parceria, não repressão.

FOLHA – Como é possível a coexistência da floresta e da pecuária?

VIEIRA – O pecuarista tem que trabalhar dentro da lei. Agora, o governo também precisa cumprir a sua parte. Se vão fazer o recadastramento das propriedades por satélite é fundamental que o Incra esteja estruturado para analisar as imagens. Do contrário, o processo vai se arrastar por longos anos e as nossas atividades ficarão paralisadas. É preciso punir quem precisa ser punido. Aqui a maioria é trabalhadora, que não merece ser tratada com polícia e repressão. Não somos bandidos.

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