Prioridade nacional, artigo de Nelson Batista Tembra

[EcoDebate] Gostaria de comentar matéria recentemente publicada na imprensa, relatando que uma Comitiva interministerial liderada pelo ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, realizou uma viagem de quatro dias aos Estados do Pará e Amazonas para discutir ‘estratégias de desenvolvimento’ para a região com os governadores Ana Júlia Carepa (PT) e Eduardo Braga (PMDB), além de autoridades estaduais e representantes da comunidade científica. Explorar os recursos naturais sem destruir a Amazônia foi o desafio levantado. O ministro apresentou o esboço da ‘proposta de desenvolvimento’ da Amazônia aos secretários de Estado e para representantes de diversos centros de pesquisa, e participou de reunião com representantes do setor econômico.

No que tange à integração da Amazônia, registros jornalísticos demonstram que foram e continuam sendo muitos e não recentes os belíssimos discursos. Ao longo da história, o desenvolvimento da imensa região sempre esteve presente como tema central. Desde a segunda metade do século passado, políticos expressam preocupação com os recursos da fauna, do reino das onças pintadas, das capivaras, dos jacarés, dos guarás e da imensa variedade das aves mais belas do mundo, da flora exuberante e variada, das riquezas imensas, dos minérios raros que tanto necessita o mundo civilizado.

Antigamente já se falava da infra-estrutura necessária, das estradas que precisavam ser construídas, da Transamazônica e Cuiabá-Santarém. Da Belém-Brasília que precisava ser asfaltada. Das frotas fluviais que precisavam navegar pelos milhares de igarapés, de furos, de afluentes gigantescos, levando civilização e progresso. Da educação para o desenvolvimento, onde as escolas seriam instrumentos de integração do homem ao meio ambiente. Da saúde, clamando pela instalação de hospitais ou mesmo de simples postos ambulantes instalados em pequenos barcos, visitando a gente sofrida do imenso interior, libertando-a das humilhantes e vergonhosas epidemias originárias do subdesenvolvimento. Apesar de muitas décadas de belos discursos, as necessidades atuais essencialmente são as mesmas do passado.

Não havia a preocupação divisionista, sem enxergar duas, ou mais regiões amazônicas quando só existia uma, há muito tempo abandonada e clamando integração à comunidade nacional através de desenvolvimento uniforme. Reivindicava-se o tratamento diferenciado na questão das isenções fiscais, mas atentando para interesses secundários e deixando-se de lado o que deveria ser a preocupação de todos os brasileiros, de todos os amazônidas: desenvolver partindo da criação de infra-estrutura, rasgando-se estradas, melhorando-se portos, construindo-se ou adquirindo-se frotas para o transporte fluvial, educando e zelando pelo homem. Somente assim poderiam ser atraídos os capitais necessários à abertura de clareiras no meio da mata. Pensava-se na pátria ameaçada de perder esta imensa região que corresponde a 60% do território nacional, se não fossem atendidos anseios desenvolvimentistas do mundo moderno, super-povoado e faminto.

Hoje, a história se repete parcialmente de forma inversa: temos de continuar gritando ‘Salvemos a Amazônia’ para protegê-la da degradação, principalmente a humana. A história tem mostrado que o cidadão comum possui o cérebro atrofiado pela ignorância e pobreza extrema, é mentalmente alienado e sofre verdadeiras lavagens cerebrais pelas propagandas subliminares e notícias tendenciosas e distorcidas, sendo privado da vontade própria e do livre arbítrio. O auxílio é necessário, pois o flagelo histórico da retórica, da incompetência, da depravação, do apodrecimento, do suborno e da desmoralização tem se degenerado em submissão e subjugação. E a culpa não é do atual governo! Urge Unger partir para ações concretas, pois o sucesso só vem antes do trabalho no dicionário.

Nelson Batista Tembra, Engenheiro Agrônomo e Consultor Ambiental, com 27 de experiência profissional, é colaborador e articulista do EcoDebate

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