Nos bons tempos da falta de água, artigo de Marcos Sá Corrêa

[O Estado de S.Paulo] Esta é uma história do tempo em que a ministra Dilma Roussef dava jeito de uma vez por todas no problema da energia elétrica no Brasil. Não faz muito. Mas soa como se viesse do outro mundo a declaração do repórter Stuart Laevenroth, do jornal Sacramento Bee, queixando-se naquela época de que a imprensa “trata eventualmente de poluição ou degradação da água, mas se esquece da questão fundamental que é o suprimento”. Ao contrário de Laevenroth, Seth Hettena, da agência Associated Press, considerava sua especialização um privilégio, porque suas histórias “têm uma tensão natural na Costa Oeste, o que torna fácil escrevê-las”. O que parece também ser o caso de Todd Hartman, do Rocky Mountain News, numa rotina profissional agitada por ameaças de secessão entre vizinhos, no front do Rio Colorado.

Seus depoimentos constam de um dossiê publicado pela Nieman, fundação americana que, desde 1937, se dedica a polir jornalistas na Universidade Harvard. Os três têm um emprego que inexiste nas redações brasileiras. São especialistas em água. Sua especialidade vai se espalhando rapidamente pelos Estados Unidos porque lá água é assunto sério, exigindo cada vez mais a atenção exclusiva de repórteres e editores. Com a desordem climática à vista, as secas ficaram piores num lado dos EUA e, no outro, os sistemas de captação, feitos para aproveitar o degelo da primavera, não garantem o suprimento do país, com menos neve e mais chuva daqui para a frente. Mas, aqui, só quem insiste em jogar água nas manchetes é o bispo Luiz Cappio, com suas greves de fome. O resto dribla o tema por tabela, quando os reservatórios baixam e – como diz o presidente Lula, até que ele resolva dizer o contrário – os boatos de apagão espirram nos jornais.

Escolado em desmentidos oficiais, os brasileiros podem até correr para as filas da febre amarela, nos postos de vacinação, ou as da vela, nos supermercados. Mas esquecem a água, como se ela nada tivesse a ver com o cotidiano de um povo que depende tanto das hidrelétricas e é ameaçado pelos mosquitos desde que a doença visitou Olinda pela primeira vez em 1685. A água não vem ao caso, seja através das usinas ou dos programas de saneamento. Talvez porque administrá-la não seja um surto, que dá e passa. Requer mudanças mais ou menos definitivas no dia-a-dia, coisa que político não gosta de propor e eleitor não gosta de ouvir.

Racionamento de energia acontece nas melhores famílias. Bateu duro na Califórnia, dois verões atrás. E bafejou em julho a indústria japonesa, quando um terremoto desconjuntou a usina nuclear de Kashiwazaki-Kariwa. Portanto, cortes ocasionais de fornecimento nem sempre são sintomas de atraso. Anacrônico mesmo é continuar culpando os céus pela inconstância da chuva, sem olhar para baixo e ver que não dá para querer hidrelétricas bem reguladas onde os rios têm cabeceiras devastadas, os mananciais estão poluídos e as matas ciliares são facultativas. Os brasileiros sabiam disso nos bons tempos da simples falta d’água. No século 19, quando murcharam as fontes que abasteciam o Rio, o imperador mandou o major Archer reflorestar as encostas da Tijuca. Atualmente, com tudo acontecendo pela primeira vez na história deste país, não se consegue mais prever nem esse passado.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco

Artigo originalmente publicado pelo O Estado de S.Paulo, 16/01/2008

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