Água Escassa – À beira do apagão

O esvaziamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas devido à escassez de chuvas, que traz de volta o fantasma do apagão de energia, tem na represa de Três Marias, na Região Central de Minas, um exemplo gritante. Somente entre os dias 8 e 10 deste mês, a capacidade do lago caiu de 42,53% para 41,92%, em plena estação chuvosa. Em janeiro do ano passado, o volume era de 85,65%. A área alagada na travessia de Três Marias a Morada Nova diminuiu de três para dois quilômetros. A situação se repete ou é até pior em várias outras barragens brasileiras, principalmente as do próprio Velho Chico, como Sobradinho, na Bahia, que está com apenas 19,37% da capacidade. Reportagem de Zulmira Furbino, do jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 13 de janeiro de 2008.

À beira do apagão
Três Marias, onde está uma das principais represas mineiras, vive o fantasma da seca

A travessia de balsa entre as cidades de Três Marias e Morada Nova, na Região Central do estado, está mais curta. Carros, bicicletas, caminhões e pessoas que quiserem cruzar os limites entre as duas cidades navegando nas águas da barragem da usina de Três Marias, no Rio São Francisco, vão levar apenas 20 minutos para fazê-lo, 10 a menos que o normal. A distância entre um ponto e outro também diminuiu de três para dois quilômetros, mas o marinheiro Sebastião Pereira da Silva, que conduz a barca há 30 anos, fazendo diariamente 22 viagens de ida e volta, não está satisfeito. “A seca está brava, por isso, a distância está menor. Tem muito tempo que o lago não fica tão baixo, acho que sete ou oito anos”, lamenta.

A redução do trajeto é um retrato fiel e dramático do que está acontecendo no reservatório de Três Marias, que vem tendo o seu volume diminuído a cada dia pela falta de chuva em quantidade suficiente para encher o lago ou mesmo para manter a atual quantidade de água. Somente entre os dias 8 e 10 deste mês, o nível da represa caiu de 42,53% da capacidade total para 41,92%. Só para comparar, em janeiro do ano passado, a média do volume armazenado era de 85,65%, mais do que o dobro do atual. A situação é preocupante. “Em outubro, novembro e dezembro de 2007 o volume de água que o São Francisco pôs no reservatório foi o menor da história. Normalmente janeiro é um mês de vazão alta, mas, nos primeiros 10 dias de 2008, o preenchimento do lago está comprometido”, diz o presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrade), Flávio Neiva.

A mesma situação se repete em reservatórios de outras grandes hidrelétricas brasileiras e muitas vezes chega a ser até pior. Em Sobradinho, usina localizada no território baiano do próprio São Francisco, a 2,7 mil quilômetros de Três Marias, o lago está ainda mais seco, com apenas 19,37% da capacidade total. Luiz Gonzaga, instalada nas águas pernambucanas do Velho Chico, mantém apenas 19,95% de sua capacidade. Os números estão perigosamente próximos dos registrados em janeiro de 2001, ano do racionamento de energia no Brasil. Naquele período, Três Marias apresentava 38,43% de sua capacidade.

Mas o pior acontece em Sobradinho e Luiz Gonzaga. No primeiro mês do ano do apagão, a primeira ostentava 42,30% de sua capacidade, mais que o dobro do que tem agora, e Luiz Gonzaga, 52,60%, quase três vezes mais do que em janeiro de 2008. Vale dizer que a usina de Três Marias, que alimenta uma série de hidrelétricas instaladas no rio, é responsável por 33% da energia consumida no Nordeste. Os outros 67% são fornecidos por Sobradinho, Paulo Afonso, Itaparica e Xingó, todas no São Francisco. Por outro lado, a energia natural que está chegando aos reservatórios do Sudeste em janeiro deste ano é de 24 mil MW médios, quando deveriam chegar 52 mil, conforme a média histórica desse período do ano.

“Tem muito tempo que o lago não fica tão baixo, acho que sete ou oito anos”, Sebastião Pereira da Silva, marinheiro

“As chances de recuperação dos reservatórios estão diminuindo, o tempo está passando e o estoque de energia no Sudeste está em 43% e continua caindo ao invés de se recuperar, como deveria acontecer”, observa Flávio Neiva. Ele conta que, no caso de Três Marias, a vazão do rio nos primeiros oito dias do ano estava em 500 metros cúbicos por segundo, quando o normal seriam 1,9 mil metros cúbicos por segundo. Para zerar esse débito, são necessários 15 dias de chuvas ininterruptas, dentro da média histórica. Só depois disso o efeito aparece no rio e, em seguida, nos reservatórios. “Acontecendo tudo isso, a água ainda levaria 18 dias para chegar até Sobradinho”, explica o presidente da Abrade.

Comportas abertas na estiagem

Represa não pode ser fechada, já que sua água abastece várias usinas, como Sobradinho e Paulo Afonso, que geram energia para o Nordeste. Cidades se queixam dos prejuízos

Apesar da seca inesperada e da redução da vazão do Rio São Francisco para menos de um terço da média histórica registrada nos últimos 77 anos, as comportas de Três Marias estão abertas. O objetivo é manter o abastecimento das usinas de Sobradinho, Luiz Gonzaga (Itaparica), Xingó e Paulo Afonso I, II, III e IV, que precisam da água acumulada em Minas para gerar energia para o Nordeste. Mas a situação é muito precária, como mostram as extensas margens de terra que surgem à beira do lago, as ilhas desconhecidas que modificam a paisagem do reservatório e a queda na receita decorrente da atividade turística nos oito municípios do entorno da represa.

Além do turismo local, o presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia (Abrade), Flávio Neiva, chama a atenção para o fato de que, apesar de a geração de energia em Três Marias ser baixa – são apenas 396 MW de capacidade instalada –, a importância da represa vai além desse número. “A água do reservatório percorre 2,7 mil quilômetros para chegar até Sobradinho, na Bahia, e 10 mil quilômetros para alcançar Luiz Gonzaga, em Pernambuco”, lembra. Por isso mesmo, quando a água está baixa em Três Marias, a preocupação com o Nordeste é muito grande”, diz.

A VER NAVIOS
“Em 2007, São Pedro foi muito generoso, mas este ano está muito triste. As previsões de chuva não são boas. Quando o lago está vazio, a gente fica a ver navios”, ironiza o empresário Vicente de Paulo Resende, dono de um posto de gasolina e de dois hotéis em Três Marias. De acordo com ele, em períodos normais, as chuvas começam em outubro e o lago atinge sua capacidade máxima em abril. “Em janeiro, quando o reservatório não está subindo, pelo menos se mantém, mas não é isso o que está ocorrendo agora. Ao contrário, a água está baixando a cada dia”, observa. Com isso, o fluxo de turistas mudou. Agora, segundo ele, só aparecem passantes. A situação é preocupante, porque tende a piorar muito no período da seca, que vai de julho a outubro. “O número de turistas vai diminuir muito”, acredita.

O pescador Sebastião Alves de Sena, que a bordo de um barco a motor de cinco metros de comprimento conhece o trecho do Rio São Francisco na região como a palma de sua mão, também reclama da estiagem. Seus rendimentos caíram à metade este mês, em comparação com igual período do ano passado, por causa da seca. Ele costuma alugar seu barco para turistas amantes da pesca. Quando isso acontece, sai de casa às seis da manhã e só retorna às seis da tarde, geralmente com o barco cheio de peixes e a carteira recheada com os R$ 250 que cobra pelo passeio. “A seca afeta muito, porque os turistas desaparecem e os peixes, acostumados a águas mais profundas, vão procurar níveis de profundidade mais altos”, diz. Entre setembro de 2006 e março de 2007, ele fez, em média, quatro pescas turísticas ao mês. Em dezembro, fez apenas uma – e, em janeiro, duas.

PREJUÍZO
O prefeito de Três Marias, Adair da Silva, afirma que o prejuízo trazido pela falta de chuvas é grande. Os municípios de São Gonçalo do Abaeté, Morada Nova, Biquinhas, Palmeiras, Abaeté, Pompéu, Felixlândia – além de Três Marias – já registraram uma queda de 50% na receita com o turismo. “Além desse prejuízo, há a preocupação com o racionamento no Brasil, porque muitas represas estão com o nível abaixo do normal para esta época do ano. Se os reservatórios não se recuperarem, a situação ficará caótica”, acredita. Ele lembra que, em 2001, quando houve o racionamento, a quantidade de água armazenada pela represa estava baixa, mas isso ocorreu num período de seca. “Não é normal para o mês de janeiro que o reservatório esteja tão vazio”, observa.

10 Janeiro de 2001* Janeiro de 2008

Rio São Francisco

Três Marias 41,92% 38,43%

Sobradinho 19,37% 42,30%

Rio Paranaíba

São Simão 26,90% 56,40%

Emborcação 38,46% 25,84%

Rio Grande

Furnas 56,74% 23,55%

Marimbondo 13,89% 15,55%

Matéria enviada por William Rosa Alves, leitor e colaborador do EcoDebate

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