Veja o que os candidatos à presidência dos EUA pensam sobre meio ambiente

EUA – A política ambiental não é uma das principais preocupações dos norte-americanos durante a campanha pré-eleitoral, mas é um dos temas que dividem os políticos que disputam a presidência dos Estados Unidos. Mesmo dentro dos partidos, os candidatos à indicação democrata e republicana têm posições divergentes, o que pode levar Washington a manter uma posição internacional distante das metas globais de redução da poluição e da emissão de gases que causam o efeito estufa por mais alguns meses, senão anos. Matéria do jornal O Dia, RJ, 12/01/2008

A auto-suficiência na área de energia é o foco principal dos três principais candidatos à indicação do Partido Republicano, John Mccain, Mitt Romney e Mike Huckabee. Já os democratas, representados pela ex-primeira dama Hillary Clinton, pelo ex-líder comunitário e advogado Barack Obama e por John Edwards, que se notabilizou também como advogado, seguem a linha do ex-vice-presidente Al Gore, prometendo ajustar o país a algum sistema de metas de emissão, preferencialmente o chamado “cap and trade” e investir em energias alternativas.

Republicanos

O republicano John McCain, vencedor da disputa no Estado de New Hampshire, é o mais vago, por manter a retórica preservacionista sem oferecer ao público os contornos de um plano para alcançar a auto-suficiência energética até o fim de seu governo, caso vença a disputa pela sucessão de George W. Bush.

Ele fala em usar o “senso comum” para limitar as emissões de CO2 e em estimular forças de mercado para o desenvolvimento mais acelerado de tecnologias avançadas em áreas como energia nuclear, de modo a diminuir a dependência externa do país.

Segundo colocado em New Hampshire pelos republicanos, Mitt Romney diz estar preocupado com o grau de dependência energética do país, mas garante que vai investir em pesquisa e desenvolvimento para melhorar a oferta e a eficiência energética. Entre os focos das pesquisas estão novas formas de armazenagem de energia, comercialização em larga escala de energia nuclear e de fontes renováveis, além de estímulo ao uso mais eficiente de energias fósseis e seqüestro de carbono.

A mais polêmica posição do republicano Romney é a de ampliar a prospecção de petróleo e gás natural off-shore e abrir o Artic National Wildlife Refuge (Reserva Nacional do Ártico que serve de Refúgio para a vida Silvestre) tanto para a exploração de petróleo e gás, quanto para a construção de usinas nucleares. Desenvolvimento de energias alternativas (como eólica, solar, ETANOL e biodiesel) é citado por Romney em paralelo com o uso mais intensivo de carvão tanto na forma líquida como na sólida, conforme revela discurso feito na George Bush Presidential Library Center.

Mike Huckabee, o terceiro colocado entre os candidatos republicanos na primária de New Hampshire, vai mais longe que seus colegas de partido em matéria de promessas. Diz que, se chegar à Casa Branca, o país terá independência energética até o fim de seu segundo mandato. Mas a estratégia é vaga. Ele apenas ressalta a importância do desenvolvimento de energias alternativas e da conservação, até porque admite que, com a crescente demanda de seu país por petróleo, os EUA terminaram ficando reféns dos produtores.

Democratas

O Partido Democrata é bem mais ambicioso que o Republicano em matéria ambiental e promete, independentemente do candidato, a redução de 80% sobre as emissões verificadas em 1990 até 2050. O cerne da estratégia é o sistema “cap and trade”, similar ao utilizado na Europa.

Esse sistema cria incentivos financeiros para a redução das emissões ao estabelecer um custo para a poluição e funciona assim:

O governo estabeleceria metas por setor para as emissões, em níveis inferiores aos atuais. As emissões permitidas, de acordo com o sistema de metas, são então divididas em permissões individuais por empresa, em percentuais iguais a uma tonelada de poluição, o que representa um direito a realizar essa quantidade de emissão.

Segundo os especialistas do partido, a principal vantagem do sistema é sua flexibilidade, uma vez que a empresa fica livre para decidir se reduzirá as emissões ou comprará permissões (allowances). Além disso, permite o estabelecimento de metas claras para as emissões por setor, não por empresa, o que garante o tratamento diferenciado entre elas.

Os defensores da estratégia argumentam que a instituição de multas para empresas poluidoras é pouco eficiente, porque não garante que haverá benefício real para o meio ambiente. Isso porque as empresas poderiam optar por pagar as multas sem fazer os ajustes necessários. Pelo sistema cap and trade fica assegurado que as empresas vão se enquadrar nas metas e buscar sempre maior eficiência.

Mas as propostas ambientais dos democratas não se restringem ao cap and trade. Cada candidato tem sua própria solução, bem mais ousadas que a dos concorrentes republicanos.

Hillary Clinton pretende reduzir as importações de petróleo do país a dois terços das compras externas do produto projetadas para 2030, o que representa mais de 10 milhões de barris dia. Para transformar a economia do país, hoje baseada no uso de carbono, em economia limpa, Hillary promete US$ 50 bilhões para o Fundo Estratégico de Energia, que será parcialmente custeado por empresas produtoras de petróleo, e garante que vai dobrar os investimentos para pesquisa e desenvolvimento em geração básica de energia.

A candidata também anuncia que vai estimular a indústria da construção verde para modernizar 20 milhões de lares de famílias de baixa renda. Para reduzir o consumo de energia em 20% até 2020, ela promete adotar medidas para a eliminação gradual da iluminação incandescente e requerer maior eficiência dos eletrodomésticos por meio de novas normas legais.

Em um eventual governo de Hillary Clinton, as empresas automotivas terão de buscar maior eficiência para seus veículos, seja produzindo carros convencionais ou híbridos. Ela quer que os automóveis façam, no mínimo, 55 milhas por galão de combustível (quase 20 quilometros por litro). E promete ajudar as montadoras a reformular sua produção por meio do estímulo aos “bônus para veículos verdes”. Os acionistas das grandes empresas, inclusive montadoras, geradoras de energia e petroleiras, serão convocados a dar sua contribuição. Todo o setor produtivo deve investir em energias e tecnologias limpas, defende.

Ainda no período de transição para o uso de energias renováveis, Hillary pretende que essas fontes respondam por 25% da eletricidade até 2025 e quer que 60 bilhões de galões de biocombustiveis produzidos localmente movam os veículos americanos a partir de 2030. Para completar, a candidata pretende exigir que as empresas listadas em bolsa anunciem publica e anualmente seus riscos financeiros resultantes de eventuais mudanças climáticas e vai obrigar que todos os prédios da administração federal construídos a partir de 20 de Janeiro de 2009 registrem emissão zero de gases que causam o efeito estufa.

Barack Obama, principal desafiante da ex-primeira dama entre os democratas, já andou pelo país avisando aos fabricantes de automóveis que sob sua administração vai exigir maior eficiência no consumo de combustíveis para uso veicular. Como senador, defendeu, com êxito, mais investimentos em energias alternativas.

A principal diferença entre o discurso de Obama e o de Hillary está relacionada ao estímulo à conservação de matas. Ele promete desenvolver incentivos para os proprietários de terras e matas, assim como agricultores, que conservarem as matas ou restaurarem áreas degradadas, ou adotem práticas capazes de capturar carbono.

Obama defende programas federais para estimular os trabalhadores a criarem e se adaptarem a processos limpos de produção e de uso eficiente de energia. E pretende criar estímulos para os localidades que se anteciparem na implementação de novos códigos de construção que priorizem o uso eficiente da energia. Ele quer que os novos prédios registrem emissão zero a partir de 2030, mas pretende que os edifícios existentes melhorarem sua eficiência em 25% em dez anos.

No plano internacional, Obama diz que vai criar o Fórum Global de Energia, que deve incluir todos os membros do G-8 (grupo dos países industrializados mais a Rússia), além de Brasil, China, Índia, México e África do Sul. Esse grupo de grandes consumidores de energia, industrializados e em desenvolvimento, diz ele, vai se reunir periodicamente para discutir exclusivamente temas relacionados à energia global e questões ambientais. O candidato também ressalta que, na sua visão, o fórum da UNFCC é a instância internacional adequada para abordar a questão climática.

John Edward, advogado famoso e terceiro colocado nas primárias de New Hampshire pelos democratas, adota a mesma linha que os demais colegas de partido, mas anuncia que quer começar a campanha de combate à poluição a partir de 2010, com a adoção do sistema cap and trade. Desse modo, ele pretende reduzir em 15%, até 2020, e em 80% até 2050, as emissões em relação aos níveis verificados em 1990, seguindo a recomendação de especialistas preocupados com a morosidade na implementação de ajustes.

À exemplo de Obama, Edwards considera vital os EUA insistirem na participação de países em desenvolvimento nos esforços para reduzir a poluição global. Mas sugere oferecer participação nas novas tecnologias limpas e, se necessário, usar os acordos comerciais para obrigar esses parceiros a realizar reduções das emissões que causam o efeito estufa.

Edwards promete criar o Fundo para Novas Energias por meio do leilão de US$ 10 bilhões de allowances e cancelar os subsídios concedidos às grandes empresas de petróleo. O fundo vai apoiar as pesquisas e o desenvolvimento de novas tecnologias em energia, ajudar os investidores a iniciarem novos negócios na área, estimular os investimentos em novas formas de seqüestro de carbono e a eficiência tecnológica dos veículos automotores, além de ajudar os americanos a conservar energia.

O advogado quer estimular a eficiência energética para atender à nova demanda, em vez de estimular aumento da produção de eletricidade. Pelas contas do candidato, o país poderá importar 7,5 milhões de barris de petróleo a menos por dia a partir de 2025 e produzir 65 bilhões de galões de ETANOL e outros biocombustíveis ao ano no mesmo prazo, ao mesmo tempo em que gera 25% da energia a partir de fontes renováveis. Com isso, os EUA vão emitir menos 2 bilhões de toneladas de CO2 e, em apenas uma geração, eliminar todos os veículos que hoje consomem derivados de petróleo para usar apenas veículos verdes.

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