Decálogo para reemergir do lixo

O objetivo revolucionário é Zero waste, rejeitos zero. E se alcança reorganizando o inteiro sistema de produção e consumo. Uma vida sem rejeitos, para ir além da coleta diferenciada e da reciclagem. A reportagem é de Marinella Corregia publicada pelo jornal Il Manifesto, 4-01-2008.

A revolução a partir dos rejeitos sólidos urbanos? Pode-se (poder-se-ia), tomando-os como ocasião para reorganizar o inteiro sistema de produção e consumo. O objetivo Zero waste (“rejeitos zero”), proposto por uma rede internacional coordenada pelo docente de química estadunidense Peter Conset e à qual aderem muitas cidades do mundo, anula o pseudo-dilema “incinerador ou descarga”. Não por nada a declinação italiana de Zero waste, a Rede nacional rejeitos zero, promove entre outras coisas um jejum em cadeia contra os incineradores, do qual há muito tempo participam ativistas de Trento e província, de Roma e Lácio, Gênova e Forli, na Itália.

Zero waste vai além até mesmo da ainda indispensável coleta diferenciada com reciclagem. Os rejeitos, de fato, se anulam pela causa, numa interação de papéis e responsabilidades entre os vários atores e níveis: legislador nacional, indústria e distribuição, instituições locais (e há muitas tidas como virtuosas), cidadãos. As práticas da comunidade, como o reuso, a reparação, a reciclagem e a compostagem são coligadas com as práticas industriais que as leis devem incentivar, mas também tornar obrigatórias: da eliminação das substâncias tóxicas ao reprogeto das embalagens e dos produtos. Para as mercadorias é considerado o inteiro ciclo de vida, para procurar as ineficiências em cada estágio.

Viver sem rejeitos

– Leis correspondentes deveriam proibir ou pelo menos desincentivar o ‘usa e joga fora’ (embalagens substituíveis mercado-casa – pense-se nos compradores de qualquer material – ou objetos mono-uso). Proibir também os objetos que não se podem reciclar ou reusar facilmente. Tornar obrigatória a devolução de embalagens e produtos no fim de sua vida útil, com obrigação do produtor de retomá-los e geri-los (responsabilidade industrial).

– “Se uma comunidade não pode reutilizar, reparar, reciclar ou submeter à compostagem um dado objeto, então as indústrias não deveriam produzi-lo”, sustenta Zero waste. Como escreve o professor Giorgio Nebbia, merceologista e ambientalista,”a salvação pode ser procurada somente nas ações do primeiro R (redução): seja diminuição da massa dos rejeitos, seja projetando mercadorias com menores rejeitos na produção e após seu uso”.

– Pelo menos nos casos de emergências locais, por que não impedir o maior número possível de embalagens?

– Seria necessário um prêmio não só para os municípios que reciclam, mas também para aqueles que conseguem abater enormemente o rejeito per capita produzido no próprio território, não só por recolhê-lo e reciclá-lo melhor (há sempre perdas de energia e materiais também na melhor reciclagem).

– E para quando a promoção de festas nacionais e locais sem nenhum usa e joga fora, e também não o reciclável?

– A relação direta produtor-consumidor, as aquisições próximas e a redução das passagens comerciais são modos para reduzir também os rejeitos de embalagens e de recipientes. Os grupos de aquisição são um bom exemplo e algumas entidades locais começam a favorecê-los.

– Quanto aos cidadãos, deveriam ser incentivados a reduzir consideravelmente os materiais que saem da casa como lixo e, por conseguinte, aqueles que entram, mudando os hábitos de aquisição. Eis alguns exemplos. Para os materiais orgânicos, na espera do serviço comunal (para recolhê-los), também se pode fazer a compostagem sobre o balcão – pelo menos os mais capazes – ou no jardim condominial com as composteiras; em alguns municípios, para quem o faz é prevista uma redução da tarifa. E também se podem minimizar os restos de cozinha com gostosos e inesperados resultados (usar as cascas, se possível, não deixar sobrar comida, etc.). Para o inorgânico, evitar o usa e joga fora, não comprar coisas de fácil deterioração, não seguir as modas, mudar os hábitos de consumo: beber água da torneira, fazer a feira com as sacolas de pano, comprar menos matérias-primas, bem como garrafas, latinhas, enlatados (a onipresente massa de tomate, é facílimo e rápido fazê-la em casa, reciclando os recipientes de vidro ano a ano!). Pode-se viver sem lixo, em suma.

Uso e reuso, que cultura

– Escolas e instituições podem fazer um serviço de educação dos cidadãos ao uso e ao reuso para sair da incivilidade do usa e joga fora, não só dos objetos e embalagens de mono-uso “por vocação”, mas também daqueles que, embora duráveis, são jogados fora prematuramente e até quase em seguida.

– Conviriam incentivos também econômicos para alongar a vida aos objetos.

– Muitos postos de trabalho podem ser promovidos sem se usar outras matérias-primas, somente pescando no depósito do já existente, que pode ser revendido, regenerado, readaptado sem transformações industriais tipo reciclagem (pense-se nos ateliês de costura que confeccionam ou ajustam roupas com tecidos já existentes).

– Algumas entidades locais e associações ou cooperativas interceptam os objetos antes da caçamba e permitem a retirada por pessoas necessitadas através de específicas ilhas ecológicas ou postos de reciclagem.

Diferenciar para reciclar

– Junto com a adoção de sistemas de coleta diferenciada mais eficientes (na Itália, o porta a porta), a passagem à tarifação a peso e uma consideração separada dos rejeitos das famílias relativamente àqueles dos exercícios comerciais responsabilizarão os usuários.

– As velhas descargas deveriam tornar-se ecoparques industriais para a recuperação e reciclagem (obviamente a premissa é que funcione o circuito de coleta diferenciada / reciclagem, que cria postos de trabalho).

– Os objetos feitos com materiais reciclados devem depois ter um escoadouro de mercado. Um modo de favorecê-lo é a aplicação das diretrizes normativas para as aquisições públicas verdes (e recicladas), ainda desatendidas por muitos entes públicos.

O ‘screening’ [crivo] do resíduo

Após todas as cautelas, o resíduo que permanece deve ser estabilizado e eliminado in loco, mas, sobretudo esquadrinhado atentamente, para eliminá-lo enquanto erro de projeto, fabricação ou consumo no ciclo de vida do produto. Zero waste sugere, além disso, às comunidades que adotam a estratégia Rejeitos zero que estabeleçam o ano no qual não se deverão mais enviar rejeitos à descarga “transitória”. Assim a mudança de mentalidade tem tempo de desenvolver-se.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line, 12/01/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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