Contra-ponto do EcoDebate ao artigo Responsabilidade Social, de Ruy Altenfelder

O artigo “Responsabilidade socioambiental”, de Ruy Altenfelder publicado pela Folha de S. Paulo, 11/01/2008, que republicamos nesta edição, exige uma leitura cuidadosa e crítica.

O pensamento de Ruy Altenfelder, pode ser sintetizado pelo trecho: “A missão de uma empresa é respeitar as leis, prestar serviços ou fabricar produtos de qualidade e lucrar. Empresa não pode centrar sua imagem mostrando ser boazinha e ficar se preocupando em divulgar balanços sociais. Empresa não é instituição de caridade, não é governo nem organização não-governamental. Causas são objeto e missão de organizações não-governamentais, políticas públicas são objeto e missão de governo. Empresas são organizações voltadas para a produção econômica e devem ser vistas como tal.”

O artigo parece lógico e consistente, mas também demonstra que o autor, até agora, ainda não compreendeu qual é o real significado de responsabilidade sócio-ambiental e esta é a questão central.

Se ele, que possui e possuiu funções importantes e destacadas na indústria, ainda não compreendeu o que seja responsabilidade sócio-ambiental, é possível inferir que uma parte significativa dos empresários e executivos da indústria ainda está anos luz do que seja gestão social e ambientalmente responsável. Afinal, a função de um vice-presidente Centro das Indústrias do Estado de São Paulo é falar em nome da indústria. Ou não?

Para facilitar a compreensão do tema, posso sintetizar que a busca pelo lucro deve ter limites éticos e estes limites estão expressos no cotidiano da empresa, através da responsabilidade corporativa. Ou seja, limite ético = responsabilidade corporativa.

De um cidadão espera-se mais do que simplesmente pagar impostos e cumprir a lei. Parâmetros mínimos de cidadania implicam em mais responsabilidades do que simplesmente isto. A mesma lógica aplica-se às empresas, que devem cumprir responsabilidades maiores do que “respeitar as leis, prestar serviços ou fabricar produtos de qualidade e lucrar”. Isto é obvio e, no mínimo, é a obrigação mais natural.

A história registra o custo social e ambiental da gananciosa busca pelo lucro a qualquer preço. Trabalho escravo e/ou degradante, degradação ambiental, guerras civis, refugiados, genocídio, expropriação de terras, grilagem, etc. Estas tragédias já foram piores, mas ainda acontecem.

A Nike enfrentou protestos pelo uso de mão de obra infantil e nada estava fazendo de ilegal, porque produzia em países nos quais a legislação permitia trabalhadores com apenas 12 anos. Ela foi obrigada a rever o modelo para evitar custosos boicotes, mesmo tendo que sacrificar parte de seu sagrado lucro.

Os diamantes de sangue destroçaram Angola, Libéria e Serra Leoa, mas a gigante De Beers prontamente apoiou o embargo determinado pela ONU em 1998. Não comprava ilegalmente, declarava e pagava impostos, mas abriu mão de comprar por US$ 20 diamantes que venderia por US$ 1 milhão. Não o fez por filantropia ou virtude corporativa, mas em defesa da indústria diamantífera, o que evitou um boicote bilionário. Sem compradores para os diamantes de sangue, os recursos esgotaram-se e as guerras civis, com milhões de mortos e mutilados, acabaram.

Mineração e petróleo são setores críticos em termos sociais e ambientais. São setores degradadores por natureza, mas isto não significa que estão desobrigados de agir com cuidado e responsabilidade. A Petrobras e a Vale, por exemplo, estão há anos tentando minimizar os seus riscos e os danos que causam. Ainda têm um longo caminho a percorrer, mas os avanços são inegáveis e merecem reconhecimento. São dois gigantes em seus setores, que compreenderam os limites éticos de suas atividades.

Sem limites éticos, o lucro pode ser maximizado, mas com que custos sociais e ambientais? Sem limites éticos tudo é permitido, mas isto é socialmente inaceitável para pessoas físicas ou jurídicas.

O problema, no Brasil, é que ainda não aprendemos a boicotar a compra de produtos e serviços de empresas social e ambientalmente irresponsáveis.

Muitas empresas maquiaram os seus produtos, reduzindo o volume/peso/quantidade para aumentar os lucros prejudicando os consumidores. Foram processadas e multadas pelas autoridades, mas continuaram líderes, porque os consumidores bovinamente continuaram fieis.

Poucos consumidores se preocupam com o trabalho escravo ou degradante, quer seja do álcool, da soja ou da carne nacional ou de produtos importados de países notoriamente violadores dos direitos humanos. A exploração do trabalho escravo contamina toda a cadeia produtiva, levando às nossas casas a carne, a madeira e as roupas produzidas a partir do suor escravo. Não temos como saber, mas podemos exigir a partir da lista suja que a cadeia produtiva seja interrompida e que os frigoríficos e lojas não comprem produtos que tenham origem do trabalho degradante.

A mesma lógica aplica-se a qualquer produto ou serviço que tenha origem a partir da devastação ambiental, da exploração gananciosa de recursos naturais, das violações de direitos humanos e/ou trabalhistas, etc.

Cedo ou tarde, os consumidores compreenderão que as empresas serão tão responsáveis quanto for exigido pelo mercado consumidor e que agir com responsabilidade social e ambiental será uma questão de sobrevivência, diante do risco de um boicote.

Neste futuro possível, ex-empresários e ex-executivos defensores de que “a missão de uma empresa é respeitar as leis, prestar serviços ou fabricar produtos de qualidade e lucrar”, terão a oportunidade de desfrutar das “delícias” do trabalho informal.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
Coordenador do EcoDebate

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