Alemanha vai explorar força dos ventos no Mar do Norte

A previsão para 2020 é que a Alemanha chegue a 45 mil MW de energia elétrica gerada pelos ventos
O mar é a nova fronteira da energia eólica. A gigante alemã E ON Energie está investindo 300 milhões de euros num cabo de transmissão submarino de 125 quilômetros no Mar do Norte para trazer ao continente energia produzida em um parque eólico off-shore. Serão mais 75 quilômetros em terra e uma subestação. É um projeto superlativo: o BARD Offshore 1 terá a maior conexão marítima de energia e será o maior parque eólico off-shore do mundo, com capacidade para produzir 400 MW. Matéria de Daniela Chiaretti, publicada pelo Valor Econômico, 08/01/2008

O parque eólico pertence à Bard Engineering, empresa fundada em 2003 em Bremen, na Alemanha. Será instalado em 2009 e a energia deve entrar na rede em fins de 2011. São 80 turbinas de 5 MW cada espetadas a mais de 30 metros de profundidade. É o primeiro de um trio de parques eólicos off-shore que a Bard pretende implantar nos próximos anos, cada um com 80 turbinas de 5 MW.

A E.On tem a concessão das usinas no Mar do Norte. Por uma recente lei alemã (que levou apenas 14 dias para passar no Parlamento), a conexão das off-shore eólicas tem que ser bancada pelas concessionárias. A conexão responde por cerca de 30% do investimento total neste tipo de projeto. O elo mar-continente tem que ser feito no prazo, ou a concessionária paga, como multa, a energia produzida nos moinhos de vento e não consumida.

O futuro, apostam os executivos alemães do setor, está no Mar do Norte e no Báltico. “Na Alemanha, o problema é que acabou o espaço disponível em terra para energia eólica”, diz Jens Peter Molly, diretor do DEWI, o instituto alemão de energia eólica, que acompanha o mercado e dá consultoria a governo e empresas. Quem vive perto, resiste à instalação das chamadas “fazendas de vento”, pelo barulho e pela poluição visual.

No Mar do Norte, a E.On terá quatro cabos interligando parques eólicos que devem produzir 12 mil MW – o dobro das duas usinas do rio Madeira. No Báltico, a sueca Vatenfall deverá conduzir outros 1000 MW de energia dos ventos.

A Alemanha chegou mais tarde às eólicas off-shore. A Dinamarca foi pioneira em explorar os mares – faz energia do vento há cinco anos, a uns 15 quilômetros da costa. Na Inglaterra e na Holanda o mar também já tem seus moinhos.

O relativo atraso alemão tem justificativa econômica e ambiental. Na costa alemã, um parque ecológico marítimo impede a instalação dos aerogeradores – que, por isso, estarão a 30 ou 40 quilômetros do litoral, além dos limites do parque. O custo foi outro inibidor.

Um parque eólico no mar custa mais que o dobro do que um similar em terra. Se o investimento em terra está em 1.400 euros por MW, as plataformas eólicas no mar exigem 3000 euros por MW. A vantagem é que podem produzir quase o dobro contando com ventos mais fortes e homogêneos. Também podem ser usadas turbinas maiores, como as megaturbinas de nova geração (20 MW) que deverão surgir nos próximos anos.

Os custos de instalação e manutenção são grandes. Para transportar as estruturas gigantescas são necessárias balsas grandes. Os aerogeradores são fincados a 30 ou 40 metros de profundidade. Qualquer troca de equipamento exige barco ou helicóptero. “A tecnologia no mar não é totalmente dominada”, diz Molly. Há alguns anos, a maior usina off-shore do mundo, a Horns Rev, da Vatenfall, com 80 torres instaladas na porção dinamarquesa do Mar do Norte e 160 MW de capacidade, teve problemas pouco depois de inaugurar. A maresia causou forte desgaste nas peças. “Tiveram que desmontar tudo, inclusive as torres, trabalharam de novo os equipamentos e depois voltaram a colocá-los em operação”, conta Molly.

A disputa pelo mar é caminho sem volta. A E.On, que é a maior produtora de hidroeletricidade e a maior concessionária de energia elétrica do país, investe outros 100 milhões de euros nos 70 quilômetros de outro cabo submarino, para conectar uma usina de 60 MW, diz Joelle Bouillon, vice porta-voz da E.ON Netz, o braço de transmissão elétrica do grupo. No ano passado, a E.ON abriu seu primeiro parque eólico off-shore na Inglaterra. A empresa também acelera seus investimentos em energia de biomassa.

A empresa acompanha a tendência alemã de substituir a energia nuclear por outras até 2020 – e adequar-se à resolução da União Européia de ter 20% de sua matriz energética proveniente de fontes renováveis até 2020.

O crescimento da energia eólica na Alemanha na última década é impressionante. Em 1995, a capacidade eólica no país era de 1.100 MW. Foi impulsionada por decisão política do governo e subsídios que batiam nas contas dos consumidores. Em 2000, a energia dos ventos já superava os 6.100 MW. Em 2004, alcançava 16.400 MW – mais que Itaipu. Agora são 22 mil MW instalados, cerca de 5% do total do consumo de eletricidade do país. Na Dinamarca, os 3.000 MW de capacidade respondem por 20% de toda a energia elétrica consumida por lá.

A previsão para 2020 é que a Alemanha chegue a 45 mil MW de energia elétrica gerada pelos ventos. A febre contamina outros países: 30 mil MW deverá ser a capacidade eólica da China, 40 mil MW da Espanha e 80 mil MW dos Estados Unidos.

O Brasil anda a passos de tartaruga neste campo. O Proinfa, o programa do governo federal para incentivar energias renováveis no país, trabalha com a meta tímida de obter 1.400 MW com energia eólica e o leilão de energias renováveis, em 2007, foi muito fraco. No Ceará, o Estado com maior potencial de produzir energia dos ventos no país, anunciou-se em 2007 a instalação de uma térmica a carvão. Trocou-se uma opção de energia limpa pela alternativa mais poluente possível.

Maurício Tomalsquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética, EPE, cita a equação perversa que vigora no país. O preço da energia eólica no Brasil é de cerca R$ 230 por MW/hora, lembra. O da energia produzida por uma térmica a carvão oscila entre R$ 126 e R$ 131 MW/hora.

“No Brasil, falta uma visão de longo prazo nesta área”, diz Molly. “Os fabricantes não virão ao país produzir máquinas se a meta é tão tímida”, avisa. Na Alemanha, as fazendas eólicas marítimas só não surgem mais rápido porque a indústria não dá conta de produzir pás, turbinas e cabos, constata Molly.

A ironia é que a Tecsis, empresa brasileira de pás para aerogeradores, é a segunda no ranking mundial. “O potencial brasileiro é enorme, e em terra”, diz Odilon Camargo, da Camargo-Schubert Engenharia, empresa que fez o mapa eólico do Brasil. “Se 20% de nossa energia viesse dos ventos, teríamos uma reserva em épocas em que as hidrelétricas estão em período crítico, armazenando água”, sugere.

A corrida pelo mar despertou interesses variados. No Brasil, a descoberta do megacampo de Tupi fez surgir uma idéia aos executivos da Petrobras: construir sobre uma plataforma uma termoelétrica que supriria de energia as outras off-shore, além de aliviar o peso sobre as plataformas de petróleo. As off-shore da Petrobras costumam ter seu próprio módulo de geração de energia. Fazer uma usina térmica para todas seria mais econômico e mais eficiente.

Em outros mares há iniciativas mais arrojadas e polêmicas. No ano passado, o vice-primeiro ministro russo Serguei Ivanon anunciou a construção da primeira usina nuclear flutuante do planeta. A tecnologia utilizada será a mesma dos quebra-gelos. A plataforma nuclear utilizará urânio pouco enriquecido e terá dois reatores, gerará 70 MW e começará a bombear energia já em 2010. O país anunciou planos de construir sete usinas nucleares flutuantes que poderiam ser usadas no norte da Rússia e no Extremo Oriente, segundo a agência Interfax. A China estaria interessada na tecnologia.

Ambientalistas da ONG norueguesa Bellona e do braço russo do Greenpeace logo reagiram. “É um presente para terroristas e um projeto desnecessário”, disse Vladimir Chuprov, do Greenpeace. “As nucleares flutuantes são muito mais perigosas e caras que as similares terrestres”, disse.

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