Tratores, eucalipto e gula capitalista, artigo de Frei Gilvander Moreira

[EcoDebate] Sejamos cuidadores/ras da nossa única casa comum, o Planeta Terra.

Ontem (04/01/2008), de Arinos até Belo Horizonte, em 10 hs de viagem, ultrapassamos mais de 300 camihões de carvão que vinham para as siderúrgicas do quadrilátero ferrífero e aquífero. É a monocultura do eucalipto, após devastar o cerrado que era a mãe das águas. Carretas sempre trazendo mais do que o permitido, esburacam as estradas, além de atrasar a viagem de muita gente. Dá dor no coração.

Recordo de Manuelzão. Em 1995, dois anos antes de morrer (e ressuscitar), Manuelzão, o grande inspirador de João Guimarães Rosa, homem do cerrado, ao ser interrogado se o mundo estava melhorando, me respondeu com toda a sua sabedoria : “50 anos atrás não tinha asfalto da BR 040 rasgando o cerrado. As estradas eram de chão batido. A gente via fileiras de caminhões de feijão, milho, arroz e mandioca indo para a capital para matar a fome do povo lá de Belo Horizonte. Hoje, 50 anos depois, a estrada está asfaltada e o que a gente vê? Um caminhão atrás do outro, carretas e mais carretas cheias de carvão indo para a região de Belo Horizonte para matar a fome das caldeiras das siderúrgicas. Queimaram quase todo o cerrado. Pensam que eucalipto é salvação pra tudo. Quem ganha com a devastação do cerrado? Desrespeitar o cerrado é desrespeitar o próximo, a Deus e a si mesmo.”

Hoje (04/01/2008), em Arinos, município de 20 mil habitantes do noroeste de Minas, há 14 tratores de esteira arrancando os 5% de cerrado que ainda existe, trabalhando a todo vapor. Só a Sidersa, Companhia de um dono de Siderúrgica de Itaúna/MG que tinha o ex-governador Newton Cardoso como sócio, já plantou mais de 30 mil hectares de eucalipto, inclusive ao lado das nascentes do Rio Claro, afluente do Rio Urucuia, que é um dos principais afluentes do Velho Chico. Outro dia uma ventania muito forte arrancou mais de 100 árvores em uma pequena propriedade de 100 hectares e amedrontou o povo da região de Arinos. Um quilo de feijão já está custando R$6,00 em Unaí, que é a capital do feijão.

Temos que aprovar em todos os municípios do Brasil lei limitando o uso do território para monoculturas. Rio Verde, em Goiás, limitou em 10% da área para monocultura; Uberaba/MG, em 15%.

Um abraço terno. Frei Gilvander Moreira

Frei Gilvander Moreira, Frei Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de Teologia Bíblica, assessor da CPT, CEBs, SAB, CEBI e Via Campesina, colaborador e articulista do EcoDebate. E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br , www.gilvander.org

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