energia nuclear: Uso do átomo é dilema verde em tempos de aquecimento global

Usinas nucleares ganham espaço por não emitirem gases do efeito estufa. O problema do destino ao lixo radioativo – que, no Brasil, ainda é armazenado no complexo de Angra dos Reis – permanece, no entanto, sem solução. Por André Campos, da Agência de Notícias Repórter Brasil.

Protesto em Angra dos Reis questiona segurança
dos resíduos radioativos (Foto: André Campos)

Os argumentos contrários à construção de uma nova usina atômica no Brasil não se resumem a aspectos econômicos e de planejamento energético. Angra 3 também convive, já há bastante tempo, com pesados ataques relacionados à questão da segurança ambiental. Na década de 1980, os acidentes em Three Mile Island, nos EUA, e, principalmente, em Chernobyl, na Ucrânia – cuja quantidade de vítimas é estimada em milhares -, trouxeram temor à comunidade internacional e frearam a construção de novas usinas.

As preocupações relacionadas ao aquecimento global, contudo, mudaram bastante esse cenário. O fato de reatores de fissão nuclear não emitirem gases de efeito estufa, aliado ao argumento de que as tecnologias tornaram-se mais seguras, fez crescer o número de simpatizantes desse tipo de energia. Atualmente, países que haviam congelado programas na área, como a Finlândia e a Inglaterra, voltam a investir na expansão de parques atômicos.

A posição encontra apoio inclusive no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – mais conhecida pela sigla IPCC -, principal fórum internacional de estudos sobre o tema. Os relatórios do grupo apontam claramente a energia nuclear como alternativa aos combustíveis fósseis – apontados com freqüência como os grandes vilões do aquecimento global.

O influente cientista inglês James Lovelock está entre os que abraçaram a causa. “A civilização está em perigo iminente e precisa usar energia nuclear agora”, afirmou ele no periódico inglês The Independent.

O clamor de Lovelock, no entanto, não sensibiliza grande parte do movimento ambientalista, que defende investimentos em outras fontes com baixo potencial de emissão – principalmente em países com amplas possibilidades desse tipo, como o Brasil. A própria ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, aproxima-se desse grupo ao considerar a energia nuclear uma opção indesejável para o país, principalmente devido aos riscos representados pelo chamado “lixo atômico” – os resíduos radioativos resultantes da atividade. Eles precisam ser armazenados sob condições de extrema segurança por milhares de anos, pois não há ainda tecnologia capaz de neutralizá-los. E a exposição a sua radiação pode causar diversos problemas de saúde.

No Brasil, indefinições sobre o armazenamento de resíduos do parque nuclear já instalado dão ainda mais força aos críticos. Atualmente, eles são mantidos provisoriamente no próprio complexo de Angra dos Reis, uma vez que a criação de um depósito definitivo tornou-se uma novela que se arrasta há anos – inclusive devido à rejeição de governos estaduais e municipais, receosos de receber esse material em seus territórios.

“O governo quer investir na expansão das usinas atômicas, mas, quando se trata de recursos para solucionar a questão dos resíduos, nunca há”, reclama o deputado federal Edson Duarte (PV-BA). Ele é o autor de um relatório da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, publicado em março de 2006, sobre as atividades nucleares. O documento cobra uma solução urgente para o impasse dos resíduos radioativos, cuja responsabilidade cabe à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) – autarquia federal incumbida de planejar e supervisionar a área no Brasil. Em 2003, foi firmado um convênio entre a Cnen e a Eletronuclear que prevê a construção de uma estrutura definitiva até 2011. A capacidade garantida dos depósitos provisórios vai até 2018.

Deputado Edson Duarte (PV-BA) cobra
solução definitiva para os rejeitos de
Angra (Foto: Divulgação)

Para José Rafael Ribeiro, coordenador da Sociedade Angrense de Proteção Ecológica (Sapê), a questão do lixo atômico é apenas uma das incongruências na atuação das autoridades nucleares em Angra dos Reis. Outro tema que inspira dúvidas, segundo ele, é o plano da Eletronuclear para evacuação em caso de acidente, que Ribeiro qualifica como ficção. “A impressão que nos dá é que eles não trabalham com a possibilidade de que algo possa acontecer”, diz. A falta de transparência é, no seu entendimento, um problema crônico local. “Em outros países, há redes sociais que fazem amplo monitoramento da atividade nuclear”, exemplifica.

Tal situação, para o coordenador da Sapê, cria um clima de insegurança que se intensifica ainda mais ao virem à tona incidentes como o vazamento de 22 mil litros de água radioativa ocorrido em 2001. Segundo os relatórios da Eletronuclear, o problema, que se deu em Angra 1 por responsabilidade de terceiros, foi controlado sem maiores conseqüências, ainda num tanque de contenção. A Eletronuclear afirma que avisou a Cnen, que, por sua vez, informou as autoridades municipais, estaduais e federais. No entanto, o episódio causou desconforto devido ao sigilo que o caracterizou, só rompido por matérias divulgadas na imprensa.

Em novembro de 2006, uma reportagem publicada no jornal Correio Braziliense esquentou a polêmica sobre a segurança das usinas. Ela revelou, com base em dados do Ministério da Saúde e da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro, que Angra dos Reis é o município do estado com mais mortes por má formações congênitas e anomalias cromossômicas – problemas que podem ser provocados pela exposição excessiva à radiação. Na ocasião, o Ministério da Saúde comprometeu-se a fazer uma análise detalhada desses dados e avaliar a necessidade de um levantamento de campo.

O resultado, contudo, descartou tal hipótese. De acordo com Otaliba Libânio de Morais Neto, diretor do Departamento de Análise de Situação de Saúde da pasta, os dados se devem ao sistema de vigilância de óbitos da prefeitura, que confere maior destaque às mortes citadas. Além disso, outras causas de mortalidade teriam sofrido redução, tornando os casos destacados proporcionalmente mais evidentes. “Não existe nenhum indício de que elas possam ocorrer por razões associadas à energia nuclear”, afirma.

Para Leonam Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, nunca poderia acontecer no Brasil um evento como o de Chernobyl. Os reatores brasileiros, segundo ele, são de tecnologia distinta, baseada no uso de água pressurizada. “O maior acidente ocorrido num reator do gênero foi o de Three Miles Island, nos Estados Unidos”, atesta. “É o pior que pode acontecer nesse tipo reator, e todo o material radioativo ficou retido ali dentro”. Não foram constadas mortes relacionadas a esse acidente.

Em julho de 2007, um terremoto danificou a usina japonesa de Kashiwazaki-Kariwa, notícia que esquentou novamente o debate sobre o assunto. Os chefes da unidade admitiram a ocorrência de vazamentos radioativos que contaminaram o Mar do Japão, além do escape de gás com partículas radioativas para a atmosfera. Vazamentos foram confirmados posteriormente por inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que atestaram, contudo, terem ocorrido abaixo do nível permitido pelas regras de segurança. As atividades do reator permanecem paralizadas.

Especial Angra 3
Parte I – Angra 3 pode abrir caminho para novas usinas atômicas no país
Parte II – Uso do átomo é dilema verde em tempos de aquecimento global

* Esta reportagem foi publicada em parceria com a revista Problemas Brasileiros

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